Segredo dos Livros - Sugestões e Críticas Literárias

Andrés Neuman Enviar por E-mail
Escrito por Margarida Cruz   
Quarta, 29 Setembro 2010 22:08

Tem apenas trinta e três anos mas é admirado pela genialidade e maturidade da escrita que, nas palavras dos maiores críticos, é digna dos maiores mestres da literatura clássica. Generosamente aplaudido por Roberto Bolaño e vencedor dos prémios Alfaguara e Crítica 2009, Andrés Neuman pode encontrar, desde Abril, o seu último romance “O Viajante do Século”, à venda nas livrarias portuguesas. Em Julho, o autor veio a Portugal e partilhou com o Segredo dos Livros o que vai na cabeça de “um génio da literatura”, numa entrevista exclusiva. Sabedoria e genuidade, apontadas como duas das maiores qualidades da escrita do autor, provaram ser, afinal, inerentes a Andrés Neuman que não sabe falar de outra forma a não ser com as portas do coração abertas.

Há dez anos publicou o seu primeiro romance, “Bariloche”. O que mudou desde então?

Para ser sincero, acho que quando publiquei o meu primeiro livro sabia mais do que aquilo que sei actualmente. A única coisa de que me tenho dado conta é que a escrita tem muito mais a ver com as perguntas do que com as respostas. De resto, sempre que começo a escrever um livro é como se estivesse a aprender tudo de novo, como se não soubesse nada. Cada livro meu é uma experiência completamente nova.

Quer então dizer que os seus livros diferem muito uns dos outros?

Completamente. Aliás, eu faço mesmo questão que os meus livros sejam bem distintos entre si. Pessoalmente não gosto daqueles autores que já nos habituaram a uma fórmula e, portanto, que nos fazem adivinhar o que vão escrever. Para mim a literatura é precisamente o oposto de uma fórmula - há quem lhe chame estilo, eu chamo-lhe fórmula. Acontece que há determinados autores aclamados por terem um determinado estilo quando, na verdade, o que eles têm é uma fórmula que lhes oferece comodidade e segurança. Eu não funciono assim. Gosto de arriscar e de escrever coisas totalmente diferentes umas das outras.

Considera a sua escrita alta literatura, tal como dizem a maioria das suas críticas?

Se escrever alta literatura significar tratar com respeito a linguagem e criar alguma ideia, sim. Se, pelo contrário, significar estar orgulhosíssimo de escrever algo aborrecido e pesado, então não. De qualquer das formas, na minha opinião não tem de existir uma distância radical entre o desfrutar de um livro e a sua qualidade literária. Acho que são duas coisas que deveriam andar lado a lado. Não deveria haver qualidades que nos aborrecessem, nem histórias desprezáveis que nos agradassem e divertissem. A literatura não é um entretenimento qualquer. É, sim, uma experiência transformadora não só em termos linguísticos, como também em termos estéticos e emocionais. Pessoalmente não encaro a literatura como um mero entretenimento mas também não me permito ler obras ridiculamente aborrecidas.

Mas a verdade é que existe uma literatura com o único fim de entreter, que é a chamada literatura comercial…

Sim, é verdade. Mas eu não faço parte dessa literatura nem daquela onde os autores são fervorosos apologistas do aborrecimento literário. Há determinados autores, aqueles a que eu chamo de snobes, que se sentem orgulhosos de escreverem obras extremamente enfadonhas e que elogiam o aborrecimento. Isto para mim também não funciona porque, ao tornar-se aborrecido, um livro deixa de captar a atenção do leitor e não consegue ser a fonte de emoções e sensações que devia ser. Pessoalmente, lamento que não sejam publicados mais livros cuja leitura seja simultaneamente agradável e exigente. Hoje em dia, livros destes são uma raridade e isso é preocupante. Grande parte da literatura com maior êxito é uma literatura medíocre, mal escrita e cliché e a literatura de qualidade está, em grande parte, esquecida no meio de todo este alvoroço em busca de algo leve e que nos entretenha. Enquanto houver estes dois extremos, não vamos progredir muito no que diz respeito à literatura.

Haverá, então, a possibilidade de se escrever o livro ideal?

Claro! O “Dom Quixote de la Mancha”, por exemplo, é um exemplo do livro ideal. Foi um livro pensado para divertir o público. O Miguel de Cervantes escreveu-o com esse intuito – divertir o leitor ao mesmo tempo que o fazia reflectir sobre o seu país, sobre a vida e a morte, a velhice, o sentido da vida… Portanto, é um livro incrivelmente divertido mas com o seu lado e efeito mais sério. Aliás, para mim, os melhores romances de sempre foram, escritos, essencialmente no século XIX. Grande parte dos romances desta época é capaz de nos apaixonar, de nos divertir e de ser, ao mesmo tempo, fonte de emoções incrivelmente profundas. Eram livros lidos com avidez e prazer. Acima de tudo, eram livros de autores que mostraram ao mundo que, para se escrever algo com qualidade, não é preciso ser-se aborrecido e que este abismo entre alta literatura e literatura comercial é ridículo.

Para além desses autores do século XIX, uma das tuas maiores influências é a poesia portuguesa, não é verdade?

Sim. Tanto a narrativa como a própria linguagem aprendem imenso da poesia e, embora eu viva num país com uma grande tradição poética, a poesia portuguesa é, actualmente, a melhor do mundo. Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade e Bocage são só alguns exemplos de grandes poetas portugueses que influenciaram a minha escrita e que estão, ainda hoje, muito presentes nas minhas leituras.

O que é que é preciso para se ser escritor?

Genuidade.

De facto, é uma das qualidades que os críticos mais admiram em si. E o que é que acha que fez de si o escritor que é hoje?

Primeiro, a minha mãe e o seu violino. A minha mãe era violinista, o meu pai também era músico, e sei que toda esta componente artística foi importante na minha formação como escritor. Eles os dois ensinaram-me a ter uma aproximação musical das coisas e a fazer aquilo que só eles, músicos, conseguem fazer com mestria - escutar. Um escritor, por norma, só fala, não escuta. Mas eu, graças aos meus pais, aprendi a fazê-lo e sei que isso fez de mim um escritor diferente daquilo que poderia vir a ser.

Depois, a emigração. Eu emigrei da Argentina para Espanha ainda muito novo e, quer queira quer não, foi uma coisa que me marcou imenso uma vez que me obrigou a dividir a minha infância entre dois países. Como consequência, fez-me também olhar para a minha língua materna como uma língua estrangeira e sentir-me estrangeiro num país onde, apesar de tudo, a língua falada era a mesma que a minha materna. Todas estas sensações foram importantes porque me fizeram olhar para as palavras com outros olhos e descobrir nelas outros sentidos.

Falando do seu novo livro, porque é que escolheu a Alemanha como cenário da acção?

Havia duas razões que tornavam fundamental a escolha da Alemanha como cenário da acção de “O Viajante do Século”. Uma era Schubert. A ideia para este livro veio da “Viagem de Inverno” deste compositor, um ciclo de canções baseadas na obra do poeta Wilhelm Müller, que nasceu e cresceu na Alemanha. Só por isto, era inevitável que a história de “O Viajante do Século” se passasse na Alemanha. Contudo, quando comecei a escrever a história, inicialmente de amor, e a vi a tornar-se numa reflexão sobre a Europa, esta ideia da Alemanha reafirmou-se. Afinal de contas, para o bem ou para o mal, nos tempos modernos a Alemanha revelou-se o centro da Europa – foi onde foram criadas as maiores indústrias da actualidade, onde decorreram os genocídios mais atrozes, onde foram travadas as guerras que determinaram o destino deste continente, etc. Portanto, esta capacidade extrema da Alemanha em ser capaz de determinar o melhor ou o pior da humanidade europeia, fazia dela o país ideal para se falar da Europa e de todas as temáticas que a ela se associam.

E porquê uma cidade imaginária?

A ideia era pegar num mapa de um país com grande carga simbólica para a Europa e inventar uma cidade. Queria inventar uma cidade e transparecer a ideia de uma cidade impossível. Assim, atribuí-lhe uma série de características alegóricas como, por exemplo, as ruas que se mexem e nos impedem de sair. Acabou por se tornar uma cidade da Alemanha que não era nem alemã, nem francesa, nem espanhola, nem portuguesa… Era única e exclusivamente uma cidade inventada.

O que é que o levou a relacionar três tempos diferentes: passado, presente e futuro?

Quando comecei a estudar as canções de Schubert, as personagens que as integravam e a época a que pertenciam – primeiro terço do século XIX -, dei conta que havia muitos pontos de contacto entre essa mesma época e a nossa. Tudo o que se passava naquela altura fazia-me pensar imediatamente naquilo que se estava a passar na actualidade. Por exemplo, a revolução industrial, que teve um impacto brutal no mundo inteiro, fez-me logo associar à revolução digital que está a decorrer na actualidade e que está, de igual modo, a ter repercussões à escala global. Sendo assim, concluí que, aquilo que ia dizer do século XIX era, no fundo, uma metáfora do que se estava a passar no século XXI, de maneira que arranjei um personagem, o protagonista do livro, que fosse um estrangeiro, não só espacial como também intemporal. É por isso que o Hans parece ter parte da sua memória noutra época. Ele transporta uma mala de viagem onde carrega uma espécie de memória histórica e parte dessa carga corresponde ao seu futuro, ou seja, ao nosso presente. É a ponte entre o que se passa hoje aos nossos olhos e aquilo que se passou no século XIX.

O livro está dividido em cinco partes. Há alguma razão em especial?

As cinco partes do livro têm uma função muito clara. As quatro primeiras correspondem, cada uma delas, a uma estação do ano. A história começa no Inverno, continua na Primavera, segue para o Verão e depois para o Outono. A quinta parte é um pequeno final. Digamos que são as quatro estações do ano e um epílogo. Depois, dentro de cada uma das estações há uma tentativa de que o estado de espírito e as relações entre as personagens correspondam a essas mesmas estações. Se formos a ver, no Inverno, quando a história começa, é tudo muito inquietante, frio e obscuro. Quando se chega ao Verão, assistimos ao pico do amor entre as personagens: Hans e Sophie estão mais próximos que nunca, há mais sexo, mais desejo… Depois, quando chega o Outono, as coisas voltam a arrefecer.

Ganhou dois importantes prémios com “O Viajante do Século” – o Prémio Alfaguara e o Prémio Nacional da Crítica. O que é que mudou desde então?

A responsabilidade aumenta e, com ela, o dinheiro que recebo pelo meu trabalho e o número de entrevistas que tenho de dar (risos).

O que é que acha que é mais importante – ser premiado com este género de prémios ou arrecadar um grande número de leitores e atingir o estatuto de best-seller?

Nenhuma destas coisas deve ser objectivo a priori da escrita. Quando se escreve deve ser para nos refugiarmos da dor, para domarmos a linguagem, entender a história… O resto nunca deveria ser uma preocupação. A publicação, e tudo o que daí advém, é uma consequência alheia ao processo de escrita.

Mas a verdade é que, olhando para o panorama actual da literatura, ganhar prémios de renome e ser best-seller parecem duas coisas incompatíveis.

“O Viajante do Século” não foi um best-seller, de facto. Mas não deixou de vender bem. Quando se fala em best-seller, fala-se naqueles livros que em duas semanas vendem um determinado número de exemplares e são catapultados para os tops de vendas. Com “O Viajante do Século” isso não aconteceu. O livro tem estado a vender bem, muito bem mesmo, mas gradualmente, ao longo do tempo. Hoje, um ano depois da sua publicação ele ainda continua a vender bem. Ser um best-seller exige êxito imediato e, muitas vezes, esse êxito chega a ser propositadamente produzido, com vista a uma campanha de publicidade. É algo muito distinto de um livro que acaba por, pouco a pouco, encontrar o seu público – um livro que é lido e recomendado aos outros. Este meu livro, felizmente, recebeu um dos muitos prémios massivamente produzidos pelas editoras e um outro prémio de elite, portanto, não acredito que sejam coisas incompatíveis.

Escreve contos, poesia, ensaios, artigos para jornais, crónicas, peças de teatro… É possível eleger o seu género de escrita preferido?

Eu gosto de viver na fronteira. Gosto de me lembrar que sou um poeta quando escrevo uma narrativa, que escrevo contos quando estou a meio de um capítulo de um romance, que escrevo ficção quando estou a escrever não-ficção e que posso usar recursos literários quando estou a escrever um ensaio. Para mim, uma página não pertence a um só género literário. Se nós formos a investigar o “ADN” de um romance, de um conto ou de um poema vamos descobrir influências de outros géneros literários. “O Viajante do Século”, por exemplo, é um compêndio de géneros literários. Tem cenas mais teatrais que outras, outras mais poéticas, outras mais dramáticas… Na minha opinião, os géneros literários são como as nacionalidades: quanto mais se misturam melhor!

É ambicioso?

Sim, claro. Gosto de tratar assuntos complexos, de me aventurar na escrita de um livro que eu não sei se serei capaz de terminar. Acho que faz bem estipularmos metas ambiciosas a nós próprios e não nos deixarmos ficar por um uma coisinha light. Quanto a mim, tento sempre contar uma história que diga, de facto, coisas, que seja complexa. Se não tiver talento e mestria suficiente para o fazer, paciência. Pelo menos, tentei e aprendi com os meus erros.

Actualizado em Quinta, 14 Outubro 2010 19:55
 
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