Segredo dos Livros - Sugestões e Críticas Literárias

Cassandra Clare Enviar por E-mail
Escrito por Margarida Cruz   
Segunda, 12 Julho 2010 19:38

Já conhece metade do mundo, mas foi Nova Iorque a cidade escolhida para cenário de "Caçadores de Sombras", a série literária que a catapultou para os tops mundiais. O seu primeiro livro, "A Cidade dos Ossos", concedeu-lhe desde logo o estatudo de autora best-seller do New York Times, depois de ter já deixado a sua marca nas fan-fics que criava sobre o mundo de Harry Potter e de O Senhor dos Anéis. Cassandra Clare é, assim, a escritora cuja fama e vendas mais se aproximam de Stephenie Meyer, a autora que lhe conquistou inúmeros leitores através da crítica que se pode encontrar na contracapa dos livros de "Caçadores de Sombras". Dotada de uma simpatia e bom-humor inestimáveis, Cassandra Clare não deixou de presentear o Segredo dos Livros com uma entrevista exclusiva durante a sua visita a Portugal, no passado mês de Junho, para promover "A Cidade de Vidro", aquele que devia ser o terceiro último livro de "Caçadores de Sombras". Novidades e estrondosas revelações não faltaram durante a conversa que o Segredo dos Livros teve com a autora, aguçando ainda mais o apetite dos ávidos leitores de fantasia urbana.

“A Cidade dos Ossos” foi o seu primeiro livro. Estava à espera de tanto entusiasmo ou até de se tornar uma autora best-seller?

Não! Foi uma autêntica surpresa! Eu escrevi “A Cidade dos Ossos” ainda antes do fenómeno “Crepúsculo”. Não se falava em nada do género sequer! Toda a literatura de jovens-adultos girava à volta de Harry Potter, e eu estava com receio da reacção das pessoas. O que eu tinha feito era totalmente diferente e não se sabia se as pessoas gostavam de lobisomens e de vampiros. No entanto, quando o livro foi finalmente publicado, as coisas tinham mudado. As pessoas andavam loucas à procura deste tipo de literatura fantástica: vampiros, romance, lobisomens… Tive muita sorte porque publicaram o meu livro na altura certa!

Não teve medo de que o livro se perdesse no meio de tamanha febre vampírica?

Não porque, felizmente, ainda era muito cedo. O livro “Crepúsculo” tinha saído apenas há cerca de um ano e ainda era tudo muito recente pelo que as pessoas queriam tudo e mais alguma coisa de vampiros. Os fãs queriam histórias do mesmo género que a Stephenie Meyer, com as mesmas criaturas e tipo de enredo. Ainda ninguém estava farto. Antes pelo contrário! Era uma fome ávida, desesperante mesmo! As pessoas só queriam mais e mais. Até as editoras andavam num alvoroço em busca de mais livros de vampiros, de mais histórias sobrenaturais. É por isso que eu digo que tive muita sorte: o meu livro estava terminado e pronto a ser lançado no mercado quando tudo isto começou. Era a altura ideal, apesar de ter sido pura coincidência! E isto não aconteceu só comigo. Muitos outros autores também tinham, por acaso, histórias e livros sobre vampiros e criaturas do género prontos a lançar nesta altura e, por causa desta sede de fantasia criada pela Stephenie Meyer, entraram todos para o mercado. Ainda assim fiquei muito surpreendida porque não estava à espera de tanto entusiasmo. Claro que imaginei que fossem haver alguns leitores e que poderia vir a ter algum sucesso, mas não ao ponto de me tornar um best-seller!

Os seus livros são essencialmente dirigidos para jovens-adultos. Mas será que os adultos não gostam deste tipo de literatura?

Gostam! Aliás, são cada vez aqueles que procuram e lêem, actualmente, este tipo de ficção. A verdade é que também eles andam à procura de uma literatura mais fantástica e romântica. O meu editor na América fez um estudo sobre os leitores dos meus livros e concluiu que cerca de 40% deles têm mais de 25 anos. Além disso, eu também tenho imenso feedback de adultos e de mães que leram os meus livros porque os filhos os aconselharam e que gostaram imenso.

Uma ideia que é comum a todos os fãs é o efeito cinematográfico que os seus livros têm sobre os leitores. A história, a acção, as personagens e os sítios são de tal maneira descritos que é frequente ouvir-se comentários a dizer que a série “Caçadores de Sombras” daria uma excelente série de televisão ou, quem sabe, um filme. Já alguma vez imaginou os seus livros a serem transpostos para o ecrã?

Sim, claro. Acho que ia ser muito divertido e ia adorar poder ver qualquer um deles. Contudo, sinceramente, eu imagino-o mais como algo parecido com a série televisiva “Crónicas Vampíricas” porque há tempo para desenvolver as personagens e para as conhecer melhor. A verdade é que os direitos já foram comprados pela New Line Cinema, os produtores de “O Senhor dos Anéis”. No entanto, enquanto eles dizem que querem um filme, eu digo que quero uma série! Já andamos a discutir as duas hipóteses há algum tempo mas ainda não está nada decidido. Entretanto também já contratámos argumentistas para fazerem os scripts como se fosse um filme e como se fosse o primeiro episódio de uma série televisiva para vermos como fica melhor. Soube há pouco que já os acabaram, portanto, quando eu regressar de Portugal vou poder lê-los para, depois, decidirmos o que é que fica.

A série “Caçadores de Sombras” é extremamente complexa. Quanto tempo levou a definir toda a história?

Foi um longo processo. Antes de começar a escrever houve várias coisas que tive de fazer: pensar em como é que a magia iria funcionar no meu mundo; definir quantos caçadores de sombras e institutos iriam existir; encontrar uma razão para a sua existência; estipular as leis que os caçadores de sombras teriam de seguir; tentar diferentes relações entre os caçadores de sombras e os habitantes do mundo à parte (as fadas, os vampiros, os lobisomens, os feiticeiros…) e escolher as criaturas sobrenaturais que queria usar na história. O resto, basicamente, aconteceu por si mesmo enquanto eu escrevia. O primeiro livro foi o que demorou mais tempo: as personagens iam-se desenvolvendo por si mesmas e às vezes até tinha de voltar ao início e rescrever tudo de novo porque, no final, elas apareciam-me completamente diferentes de como eu as apresentava no início. Foi por isso que levei cerca de três anos a escrevê-lo. Os outros dois já demoraram muito menos pois já tinha tudo definido e o meu mundo já estava integralmente criado, pelo que as coisas foram muito mais fáceis.

Nova Iorque é uma escolha que se destaca dos restantes locais que servem de cenário às histórias fantásticas, especialmente de vampiros e lobisomens. Normalmente são escolhidas pequenas vilas ou cidades, onde reine um ambiente mais sombrio…

É verdade. Isso está relacionado com a minha recente mudança para Nova Iorque, quando comecei a escrever “A Cidade dos Ossos”. Para mim, Nova Iorque é o centro dos Estados Unidos: é a maior cidade e a mais diversificada de todas. Nela podemos encontrar os mais variados tipos de pessoas e culturas. É como se fosse o mundo inteiro condensado num só sítio! Achava isso fascinante! Além disso, eu olhava para a cidade como se ela tivesse os seus próprios segredos e mistérios: quis saber como é que tudo era construído e desenvolvido, o que poderia ter sido construído, o que é que não foi construído e era suposto ter sido, o que é que foi destruído… Por isso, comecei a estudar toda a história de Nova Iorque, a correr a cidade inteira e a tirar fotos dos lugares que eu achava misteriosos e mágicos. A verdade é que, quando se está para escrever uma história fantástica, como muito sobrenaturalismo e magia, queremos que o ambiente pareça o mais real possível. Quanto mais realístico for, mais o leitor vai acreditar que a magia é real.

Então foi um adeus aos cenários obscuros, aos castelos góticos e assombrados e aos lobisomens nas florestas…

Acho que sim. Quer dizer, já houve um tempo em que se contavam histórias dessa maneira: os monstros estavam sempre nas florestas ou nos castelos assombrados, rodeados de trevas e afins. Mas agora há cada vez menos florestas e já não existem castelos. Há, sim, cada vez mais cidades e, por isso, torna-se muito mais interessante trazer os monstros para estes sítios!

Por serem cheios se acção e por estar sempre a acontecer alguma coisa, não há muito espaço para o romance nos livros dos Caçadores de Sombras. Isto é intencional?

Eu acho que tem de haver uma balança onde se dá às pessoas o suficiente e nunca demais. É preciso que elas queiram sempre mais e mais, que continuem a ler à procura daquilo que tanto querem ver acontecer. Todos se queixam da falta de romance, mas descansem que no quarto livro, “A Cidade dos Anjos Caídos”, vai haver muito mais. O Jace e a Clary estão finalmente juntos e os dois vão ter os seus momentos românticos no livro.

Como é que foi a experiência de misturar várias mitologias – a das fadas, a vampírica, a dos lobisomens, a dos feiticeiros…?

Foi muito divertido, na verdade Eu queria que a história e a existência das criaturas dos meus livros se baseassem em anjos e demónios e, para isso, tive de ler tudo e mais alguma coisa sobre estas diferentes mitologias. O desafio que eu tinha à minha frente era, digamos, explicar de onde é que os lobisomens, os vampiros, as fadas, etc., vinham. Depois de muita pesquisa e de muita informação recolhida, conclui que as fadas eram um misto de anjo e demónio e que os vampiros eram um misto de humano com o diabólico. A partir daqui foi muito mais fácil explicar aos leitores de onde é que estas criaturas que conhecemos há tanto tempo vinham.

Associou a homossexualidade à fantasia e às criaturas sobrenaturais. O que é que a levou a fazer tal coisa?

Bem, como eu disse, uma das razões pelas quais eu quis que a história se passasse em Nova Iorque foi porque é uma cidade extremamente diversificada. Além disso, eu quis que ficasse claro para as pessoas que os caçadores de sombras existiam no mundo inteiro, participando e partilhando todo o tipo de culturas. Desta forma, era óbvia a possibilidade de os caçadores de sombras poderem ser homossexuais. Quer dizer, eles acabam por ser meros seres humanos como nós, inerentes à cultura a que pertencem. E eu, quando estava a escrever o primeiro livro e a desenvolver a personagem do Alec, reparei que ele estava sempre zangado e revoltado, que ele não gostava da Clary e que havia qualquer coisa que ele estava a esconder. Foi aí que comecei a pensar: qual será o segredo dele? Porque eu não sabia! Aconteceu tudo de uma forma involuntária. As personagens muitas vezes ganham vida própria e surpreendem-nos! E este foi um desses casos. Só quando eu me dei conta do que se estava a passar com o Alec é que comecei a pensar no que estaria por detrás disso. E, de um momento para o outro, tudo ficou claro: o Alec tinha ciúmes da Clary! Ele estava apaixonado pelo Jace e era esse o segredo que escondia de toda a gente. Assim que percebi isto, tudo o que dizia respeito ao Alec passou a fazer sentido.

O que é que podemos esperar do quarto volume, “A Cidade dos Anjos Caídos”?

“A Cidade dos Anjos Caídos” continua com a história de “Caçadores de Sombras”. É precisamente uma sequela de “A Cidade de Vidro”, pelo que  a história não acaba no terceiro volume, como se previa,  e continua no quarto. Vamos assistir ao regresso da Fada Rainha, que virá ao encontro da Clary para lhe dizer que sempre soube a verdade e que, por isso, é que queria com o Jace. Vamos também ver a Clary e o Jace juntos, mas a terem alguns problemas: o Valentine está morto mas alguns dos seus seguidores não, pelo que ainda há perigo. Vamos saber o que vai acontecer ao Alec, à Isabel, ao Magnus…

Então e o inimigo cujo corpo desapareceu no final de “A Cidade de Vidro” volta a aparecer neste quarto livro? Ou ainda há a hipótese de um quinto e sexto livros?

Oh, eu não posso dizer nada sobre isso! (risos) Vão ter de esperar para saber! Eu sei que estão todos desesperados para saber se e quando é que isso vai acontecer, mas é segredo! Normalmente eu digo, com uma cara marota, que não sei… não sei não! (risos) Mas sim, já pensei na hipótese de escrever um quinto e sexto livros. Infelizmente o tempo não ajuda, até porque agora tenho a agenda preenchidíssima com a nova série, “The Irfernal Devices”. Quem sabe, quando eu estiver mais livre!

E o que é que a levou a escrever um quarto livro? Inicialmente, planeava-se que a série “Caçadores de Sombras” fosse uma trilogia.

É verdade. Eu decidi escrever um quarto livro porque, depois de terminar “A Cidade de Vidro”, fui contactada por uma companhia que fazia banda desenhada. Perguntaram-me se eu gostava de fazer uma versão banda desenhada dos Caçadores de Sombras e eu disse que sim, que adorava banda desenhada e que era uma ideia fantástica! Entretanto escrevi a história e enviei-lhes um esboço do que é que acontecia, para eles se poderem guiar e planear o que iriam fazer.

Quer dizer que escreveu a série toda de novo?

Não, não. O que eles queriam era uma história diferente, uma história depois de “A Cidade de Vidro”. Também me pediram para eu me focar numa personagem, eu escolhi o Simon e escrevi uma história com o que é que lhe acontecia depois de “A Cidade de Vidro”. No entanto, o acordo não chegou a fazer-se porque a companhia acabou por falir. Fiquei frustradíssima! Quer dizer, tinha feito aquele trabalho todo para nada! Só que depois pensei: agora que sei o que é que acontece depois de “A Cidade de Vidro”, posso escrever um novo livro sobre isso. Fui logo ter com o meu editor e perguntei-lhe o que é que ele achava de um quarto livro. Eu sabia que a história que tinha escrito sobre o Simon não era suficiente para um livro inteiro, mas depois fui acrescentando aquilo que acontecia à Clary e ao Jace, ao Alec e à Isabel… O editor ficou maravilhado com a ideia, eu acabei o livro e agora é só esperar que ele chegue às livrarias! Além de tudo isto, confesso que também queria criar problemas à Clary e ao Jace. (risos)

Então isso significa que não vai haver um romance perfeito entre o Jace e a Clary?

Bem, eles não são, definitivamente, irmãos. No entanto, vai haver uma nova revelação que os vai abalar. Esta ideia veio do novo final de “A Cidade de Vidro”, que livro já estava terminado quando tivemos esta ideia de um quarto livro, mas ainda não estava impresso. Por isso, pedi para fazer umas alterações e dei-lhe um outro final, desta vez em aberto e com outros acontecimentos.

Já está a caminho uma nova trilogia, “The Infernal Devices”, que será uma prequela de “Caçadores de Sombras”. Como é que chegou a esta ideia?

Bom, em “Caçadores de Sombras” há uma coisa que é extremamente importante e que todos são obrigados a seguir: os acordos que regulam a paz entre os habitantes do mundo à parte e os caçadores de sombras. Nos livros diz-se que estes acordos foram feitos há 150 anos, por isso pensei que seria uma grande ideia contar a história de como é isso aconteceu. Se os habitantes do mundo à parte se uniram aos caçadores de sombras, sendo seus inimigos, é porque eles deviam ter um inimigo em comum. Portanto, achei que seria muito interessante conhecer o mundo dos caçadores de sombras quando estes estavam em guerra com os habitantes do mundo à parte e quando, ao mesmo tempo, se uniram a eles.

Quais são, então, as principais diferenças entre as duas séries – “Caçadores de Sombras” e “The Infernal Devices”?

A principal diferença é que esta nova série decorre 150 anos atrás. A acção passa-se na época Vitoriana, em Inglaterra, e há também um novo conjunto de personagens. Quando eu escrevi a história da Clary, ela era uma caçadora de sombras, mas agora queria a perspectiva de alguém que não fosse caçador, que fosse uma criatura do mundo à parte. Por isso, desta vez a protagonista é Tessa, uma feiticeira que consegue mudar de forma e assumir a aparência de outras pessoas. No primeiro livro da série, “The Clockwork Angel”, ela vai até Londres, à procura do irmão desaparecido, onde descobre que é uma feiticeira com poderes muito especiais e se apaixona por dois rapazes caçadores de sombras, portanto, dois inimigos.

A história será, assim, muito idêntica à de “Caçadores de Sombras”, não é verdade?

Sim, embora aqui os dois rapazes não se odeiem como o Simon e o Jace, nem existem problemas de parentesco! (risos) A história é parecida porque eu queria escrever uma série integralmente separada da dos “Caçadores de Sombras”. É por isso que não é preciso ler a dos “Caçadores de Sombras” para ler a “The Infernal Devices”. São as duas muito diferentes. São independentes uma da outra. Por esta razão, a Tessa é uma personagem que, como a Clary, não sabia nada acerca do mundo dos caçadores de sombras e que o vai apresentar ao leitor. Para aqueles que não leram a série “Caçadores de Sombras” será uma nova experiência, mas para aqueles que o fizeram será uma comparação entre duas protagonistas: a Tessa, que é uma habitante do mundo à parte, e a Clary, que é uma caçadora de sombras. E até mesmo o triângulo amoroso é diferente porque, no caso da Clary, ela não chegou a apaixonar-se pelo Simon. Havia aquele sentimento especial e intenso, mas não era amor. No caso da Tessa, aquilo que ela sente pelos dois rapazes de quem gosta é mesmo amor.

Em “Caçadores de Sombras”, as personagens são maioritariamente adolescentes. Nesta nova série não pensou em tentar uma história com adultos?

Não pensei em tentar uma história com adultos, mas pensei em tentar com jovens mais crescidos. Em “The Infernal Devices”, os protagonistas têm entre 19 e 21 anos enquanto que nos “Caçadores de Sombras” as idades apenas variavam entre 15 e 16. Portanto, embora não sejam adultos, são já um pouco mais velhos, mais crescidos. Eu quis que eles tivessem já uma certa carga de responsabilidades e que já não precisassem de pedir ajuda aos pais para resolver os problemas. Pode-se dizer que “The Infernal Devices” é igualmente sobre jovens, mas, desta vez, jovens mais crescidos e maduros que, ainda para mais, vivendo em plena época Vitoriana, já se comportam como adultos.

Outro aspecto característico dos seus livros é a presença invariável de uma heroína. Em “Caçadores de Sombras” é Clary e agora em “The Infernal Devices” será Tessa. Porquê sempre raparigas?

Por várias razões. Quando eu estava a crescer e lia este género de livros, só havia heróis e nunca uma heroína. Revoltava-me ser sempre um rapaz, por isso assim que pude fiz questão de mudar isso! Agora, se nós olharmos para as histórias da Clary e da Tessa, elas são perfeitamente leais às histórias clássicas de como um rapaz normal se torna um herói. Porque eu quis mostrar que as raparigas também são capazes de ser heroínas! Elas têm exactamente as mesmas hipóteses de se tornarem heróis como os rapazes! Contudo, a verdade é  que vamos a olhar e só temos: um Harry Potter e nenhuma Harriett Potter, um Frodo e nenhuma Froda... (risos).

Quer então dizer que é feminista?

Claro! Eu acredito em raparigas fortes e corajosas. Porque é que não o haveriam de ser? Eu fico encantada quando os meus fãs me dizem que adoram a Clary por ser forte e destemida. Sem querer ser spoiler para aqueles que ainda não leram o terceiro livro, vão haver situações em que a Clary pensa que só quer desistir e morrer, que tudo aquilo é demais para ela, etc. Mas ela nunca chega a desistir! Ela ergue sempre a cabeça e obriga-se a seguir em frente porque é uma heroína exactamente com as mesmas capacidades de todos os outros heróis. É engraçado que os editores digam que as raparigas vão ler um livro que tenha um herói e que os rapazes não vão ler um livro que tenha uma heroína, porque não é verdade. Aliás, os meus livros são a prova viva de que é mentira! Eu recebo imensos e-mails e cartas de rapazes a dizer que adoram os meus livros! A minha personagem pode ser uma rapariga, mas ela é forte, dura e lutadora. Além do mais, a história está cheia de demónios e guerras, coisas que os rapazes gostam!

As personagens de “The Clockwork Angel”, o primeiro volume da nova série, estão relacionadas com as do quarto volume da série “Caçadores de Sombras”. Que tipo de relação é esta?

Bem, uma das personagens em “The Clockwork Angels” será Magnus. Ele é imortal e eu quis que ele entrasse nesta prequela, onde tem uma namorada cujo nome é Camille. Esta rapariga vai aparecer em “A Cidade dos Anjos Caídos” e, quem leu “The Clockwork Angel”, saberá o quão importante ela foi para a história. Quem souber quem ela é vai pensar: “Oh meu Deus, é a Camille! Ela voltou! Vêm aí problemas…” Se não, não há problema, pois vão acabar por saber quem ela é. Mas a verdade é que não é tão divertido para aqueles que não sabem. Quem leu o “The Clockwork Angel” tem noção de que a Camille só arranja sarilhos e vai estar à espera das suas artimanhas. Por sua vez, quem não leu vai apenas dizer “Oh, olha uma nova personagem. Chama-se Camille. Vamos ver o que acontece…”

Era muito conhecida pelas fan-fics que fazia de Harry Potter e de O Senhor dos Anéis. Sente saudades desses tempos?

Não é que sinta falta, porque o que eu gosto mesmo de fazer é de construir o meu próprio mundo e escrever sobre ele. Às vezes sinto saudades de fazer parte de uma comunidade porque, quando escrevemos fan-fics, escrevemos para uma grande comunidade de pessoas que escrevem sozinhas ou em conjunto e que partilham connosco as suas ideias e os seus sonhos. Esse sentimento de comunidade nunca deixava que eu me sentisse só, que é coisa que acontece frequentemente agora que escrevo autonomamente. Isto já foi há mais de dez anos, mas ainda me rio daquilo que fazia porque era extremamente divertido! Só que, ainda assim, não dá para comparar. É como estar a dizer que tomar conta dos filhos dos outros é a mesma coisa que tomar conta dos nossos. Escrever fan-fics era tomar conta das personagens que alguém tinha criado, de maneira a não as deixar morrer, a não as esquecermos. Mas agora já criei o meu próprio mundo e já tenho os meus próprios livros, que são como se fossem meus filhos. É completamente diferente.

De momento só escreve fantasia. Já pensou em mudar ou, pelo menos, tentar outro género literário?

A minha autora favorita é, na verdade, Jane Austen e o livro da minha vida é “Orgulho e Preconceito”. Não tem nada a ver com fantasia e, ainda assim, é algo que faz parte dos meus planos para o futuro: uma das minhas ambições é escrever uma versão actualizada de “Orgulho e Preconceito”, passada em Los Angeles, que foi onde cresci. Gostava mesmo de fazer isso um dia.

Não gosta de trabalhar em casa e, por isso, normalmente vai até uma coffee shop com os amigos. Quanto tempo é que passa lá diariamente a escrever?

Normalmente, entre oito a dez horas. Eu não consigo, de todo, trabalhar em casa. Se fico em casa, simplesmente sento-me e vejo televisão! Além disso, é fantástico ter-se companhia porque podemos parar e pedir ajuda sempre que tivermos algum problema. Assim, vamos todos para esta coffee shop em Nova Iorque e escrevemos todos o mesmo género literário: fantasia para jovens-adultos. Uma vez, fizemos uma sessão de autógrafos numa livraria que ficava perto e as pessoas que trabalhavam na coffee chop apareceram lá com os cupcakes e os cafés exactamente como nós gostávamos de os tomar! Como nos conheciam, fizeram questão de lá aparecer e de nos levar os nossos pedidos habituais! Foi tão engraçado!

Stephenie Meyer é uma grande fã dos seus livros. Já teve oportunidade de a conhecer pessoalmente?

Infelizmente, não. Mas já falei com ela ao telefone uma vez. O meu segundo livro, “A Cidade das Cinzas”, tinha acabado de sair e eu andava em tournée. Um dia tive uma sessão de autógrafos numa livraria perto da casa dela e, como ela não podia sair (por causa dos fãs e de todo este histerismo à volta dela), ligou para a livraria e pediu para falar comigo. Quando o rapaz da livraria disse que estava alguém ao telefone para falar comigo pensei que fosse a minha mãe ou assim! (risos) Mas depois quando atendi ela apresentou-se, disse que adorava os meus livros e pediu-me imensa desculpa por não ter vindo.

Que conselhos pode dar àqueles que querem escrever fantasia?

Se quiserem escrever fantasia então, por favor, não leiam só fantasia. É um grande erro. Devem ler sempre vários géneros e, depois, misturá-los à vossa maneira, para que possam criar o vosso próprio estilo. Eu, antes de escrever “A Cidade dos Ossos”, li muita fantasia e mitologia, mas também li imensos livros de thrillers sobre cidades e ainda muitos romances, para conhecer melhor os sentimentos das pessoas. Se queremos que a nossa “voz” se distinga de todas as outras, temos de ler, ouvir e ver de tudo um pouco pois tudo nos influencia de maneira diferente e são essas mesmas influências que vão fazer de nós alguém diferente, com uma “voz” própria.

Actualizado em Segunda, 04 Outubro 2010 08:51
 
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