| Fábio Ventura |
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| Escrito por Margarida Cruz | |||
| Quarta, 19 Janeiro 2011 22:16 | |||
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Onde te inspiraste para criar o mundo e a história de Orbias? Em tudo um pouco. Mais especificamente em filmes, séries de televisão, videojogos e outros livros que leio, embora em relação a estes últimos eu tente manter uma certa distância para que não haja grande influência. Quer se queira quer não, ao lermos muitos de um determinado autor ou género, ficamos com essa escrita digamos que carimbada nos nossos cérebros. E, ao manter esta distância, conseguimos evitar que as pessoas digam que se nota a influência deste ou daquele autor. Além disso, também me inspiro muito em música e na sua sonoridade enquanto escrevo… Só na sonoridade em si ou também nas letras? Mais na sonoridade do que as letras. Bom, no caso dos Evanescence, de quem sou um grande fanático, confesso que as letras, de facto, inspiraram-me muito. No geral, inspiro-me em tudo um pouco e não tenho grandes problemas com falta de ideias ou inspiração. Quer dizer que nunca lidaste com bloqueios? Já. Mas, no meu caso, não são bloqueios por falta de inspiração. Tem, sim, a ver com o facto de começar a escrever sem planificação. Há alturas em que as coisas não batem certo e em que sou obrigado a reflectir sobre tudo aquilo que está para trás, a ver o que não está a fazer sentido. Portanto, não se trata de falta de ideias mas sim de um puro bloqueio de escrita. É isso que tende a acontecer-me com mais frequência. A inspiração não, até porque ainda sou muito novo e ainda estou muito fértil a nível de imaginação! (risos) A tua história gira, essencialmente, à volta de raparigas. Nunca sentiste necessidade de adicionar mais personagens masculinas ao enredo? Não. Eu parti para o Orbias precisamente com a ideia de que seria uma história de personagens femininas e fortes, até porque não há disso no género fantástico. Vejamos “O Senhor dos Anéis”, por exemplo. Há, talvez, duas personagens femininas e, mesmo assim, não são muito fortes. No meu caso é o contrário! Há, aliás, muita gente que compara a história de Orbias à Sailor Moon, que era também deste género. Havia as guerreiras, todas muito bonitas, com personalidades diferentes, e, no meio de tanta rapariga, só um rapaz – o Gonçalo. Tinhas noção dessa semelhança enquanto escrevias? Claro! Aliás, eu tomei como grande fonte de inspiração, precisamente, a Sailor Moon! A verdade é que é uma série que está no imaginário de todo o público-alvo do Orbias. Eu não conheço ninguém que não tivesse gostado – quer rapazes, quer raparigas. Achei que seria de todo o interesse e que teria a sua piada usar como influência uma série que faz parte do nosso imaginário e que, acima de tudo, era muito rica a nível de história. E sei que os Orbias têm agradado muito às pessoas precisamente por isso – fá-las lembrar-se da Sailor Moon e sentir uma certa nostalgia. Ainda assim, o feedback que tens é essencialmente feminino. Porque é que achas que os rapazes não aderem tanto, ainda por cima sendo um autor masculino? Só o facto de a história estar escrita do ponto de vista de uma personagem feminina afasta logo alguns leitores masculinos. Eu, pessoalmente enquanto leitor masculino, não me deixo influenciar por isso e leio qualquer história, seja ela contada por uma rapariga ou por um rapaz. No entanto, estatisticamente, também há mais leitoras do que leitores em Portugal, de maneira que, logo aí, fico condicionado. Depois, também acho que o género fantástico tem é agradado muito às leitoras. Não é por acaso que houve o fenómeno Stephenie Meyer. Mas também temos casos do fantástico que estão mais direccionados para o género masculino. O George R.R. Martin, por exemplo… Sim, mas, lá está, são mais épicos e ligados à guerra. Os Orbias têm guerra, sim, mas são guerras muito à base de magia e cativam essencialmente raparigas. Não é que eu não tenha leitores masculinos, porque tenho. A questão é que são em escala muito reduzida comparativamente com o número de leitoras! (risos) Mas eu percebo! Eu sei porque é que isto acontece. Aliás, eu até escrevi a história a pensar num público feminino e não num público masculino. Porque é que decidiste escrever na pele de uma rapariga? Acho que consigo exprimir-me melhor numa história escrevendo na primeira pessoa. Acho que sou mais bem sucedido a transmitir emoções, a estimular os sentimentos e creio que consigo fazer com que o leitor se sinta parte da história, se identifique e crie uma empatia mais forte com aquela personagem que conta a história. Ironicamente, neste meu novo livro vou optar por uma personagem masculina e por contar a história na terceira pessoa. Vai ser um desafio, mas eu gosto de me desafiar a mim próprio. Não sei se vai resultar e, se vir que não estou a gostar e que não está a funcionar como eu quero, então aí opto novamente pela primeira pessoa. O objectivo é explorar a minha versatilidade e ver do que é que sou capaz. E onde te baseias para construíres as tuas personagens? São todas muito diferentes… Eu pensava que criava as personagens única e exclusivamente a partir da minha cabeça. No entanto, vim a descobrir que inconscientemente estava a ir buscar determinados aspectos a pessoas que conheço. (risos) Primeiro, começo por definir os principais traços da personalidade das minhas personagens e anoto-os. A partir daí é que as construo, à medida que escrevo, e que tento, ao máximo, que sejam diferentes entre si de modo a enriquecer mais a história - até porque cada uma contribui de diferente forma para o desenrolar da acção. Então e os nomes? És tu que os inventas, certo? Sim. Para mim, criar e atribuir nomes às personagens é a parte mais difícil do processo de escrita. Até que me decida, ficam como Ana, Joana, etc. Só no fim de ter tudo pronto é que reflicto sobre que nomes lhes dar, uma vez que tento sempre que sejam nomes originais e que tenham um significado - Lorelei corresponde a uma lenda do norte da Europa de uma rapariga que vive no mar mas que não é bem sereia; Lily Violet são nomes de flores; Rouge tem que ver com a cor vermelha e todo o seu simbolismo; Belladona está relacionado com beleza e com sedução mas também com o veneno, uma vez que ela é a guerreira da Morte e, por fim, Noemi é uma flor pura que está a desabrochar. Identificaste com alguma em especial? Eu identifico-me um bocadinho com todas, até porque todas têm um bocadinho de mim. Mas talvez me identifique um pouco mais com a Noemi porque, lá está, escrevi-a na primeira pessoa e isso tem sempre um grande impacto no autor. Também tenho um bocadinho de Lily Violet, porque sou assim um bocadinho louco e extrovertido. Da Rouge tenho o espírito competitivo e perfeccionista e, depois, também tenho aquele lado do… Hum, não. Eu é que gosto de pensar que tenho aquele lado sedutor do Sebastian, mas na verdade não tenho lá muito! (risos) O Sebastian é o que eu gostava de ser! É o meu alter-ego! (risos) Quais são as principais diferenças entre os teus dois livros? Bom, acho que o primeiro é, acima de tudo, um livro introdutório, onde são apresentadas as personagens, o mundo de Orbias, o conflito, etc. Já o segundo foca-se no desenvolvimento dessas mesmas personagens e nas relações que se criam entre elas. Portanto, é um livro mais envolvente, no sentido em que exploro mais as personagens em si e não tanto a história que está por trás. Ainda assim, “O Demónio Branco” é um livro bastante mais negro. O que é que te levou a fazer isso? Bom, ele é mais negro mas também conserva a sua magia. De qualquer das formas, uma outra crítica que me tinha sido feita com o primeiro livro dizia que as minhas personagens, para a idade que tinham – entre 17 a 23 anos – eram muito infantis e “cor-de-rosa”. Então eu tentei mostrar um outro lado - um lado que surgiu depois do que se passou no primeiro livro e depois de terem crescido mais um pouco. Agora as personagens são mais íntegras e encaram tudo com muito mais seriedade – os mistérios, os dramas, etc. E achas que as pessoas estão a gostar mais deste livro por causa dessa nova faceta das personagens? Não só, mas também. A verdade é que, de acordo com o feedback que tive até agora, penso que melhorei muito em termos de escrita. Não me consigo distanciar o suficiente e dizer ao certo o que é que mudou, mas acredito que tenha sido a prática, a responsabilidade e a pressão. Não é que eu não tenha levado o primeiro Orbias a sério, porque levei. Mas talvez tenha levado o segundo ainda mais a sério. O sucesso que “As Guerreiras da Deusa” teve no mercado em Portugal e todas aquelas expectativas dos fãs perante o segundo volume influenciaram, de alguma forma, o rumo da história de “O Demónio Branco”? Influenciou sobretudo as personagens de que as pessoas mais gostavam. É, por exemplo, o caso dos entes padroeiros, onde eu tomei como inspiração as personagens históricas portuguesas. Como toda a gente gostou muito destas personagens, fiz questão de as inserir também na história do segundo livro, coisa que, à partida, até nem estava prevista. E isto também aconteceu ao nível das personagens. É o exemplo da Belladona. Como tinham ficado muito curiosos com ela, por ter sido uma personagem muito pouco explorada no primeiro volume, peguei nela e acabei por lhe dar bastante relevância na história d’ “O Demónio Branco”. E na história em si, houve mudanças? Não, a nível de história não… A única coisa de que me estou a lembrar é que, numa opinião que li d’ “As Guerreiras da Deusa” num blogue, disseram que os meus vilões não eram muito carismáticos. Então agarrei-me a isso e neste segundo volume já criei uma vilã com um carisma bem forte. Ou seja, neste aspecto até houve uma certa influência. Mas isso é porque eu dou sempre muita atenção ao que os meus leitores e os bloguers – e principalmente os bloguers – dizem do meu trabalho. Baseias-te, então, no que eles dizem para melhorares o teu trabalho? Sim. Aliás, o segundo livro é, no fundo, um crescimento que teve como base todas as críticas construtivas que me foram feitas com “As Guerreiras da Deusa”. Tentei melhorar em tudo o que me foi apontado e acho que até fui bem sucedido. Eu sei que há muitos autores que são um pouco egoístas e que se recusam a aceitar as críticas dos outros e a deixarem-se influenciar porque dizem que aquele é que é o estilo deles, etc. Mas eu acho que não! Nós temos de ouvir os leitores, até porque estas histórias são para eles. Os leitores são muito importantes para mim e confesso que estou ansioso pelas opiniões deste segundo volume para saber o que posso melhorar ainda mais no meu próximo livro. Ainda não sei é se haverá um terceiro volume do Orbias… Então? É assim… Por minha vontade, não. A verdade é que, os Orbias, antes de serem a história deste mundo de fantasia, são a história da Noemi e da sua relação com o Sebastian. Só que a relação deles n’ “O Demónio Branco” ficou como que “fechada”, ou seja, acabou ali um ciclo. Se eu voltasse a pegar neles, provavelmente ia ter de engravidar a Noemi! (risos) Mas aí as coisas iam perder o seu interesse e ia estar a inventar coisas onde elas não existem. Vejamos a Stephenie Meyer. Ela é, para mim, a prova de que é um perigo explorarmos demasiado uma história. O primeiro livro funcionou muito bem, o segundo enrolou imenso, o terceiro foi “mais do mesmo”… A partir do momento em que não se adicionam elementos inovadores ao longo dos diferentes livros de uma saga, ela perde o interesse! Mas já pensaste numa possível história para um terceiro Orbias – caso ele venha a existir? Já. Aliás, já pensei em duas possibilidades. Uma é continuar a história - há ali coisas em que eu ainda consigo pegar para voltar a explorar Orbias. A outra hipótese é contar a história do ponto de vista de outra personagem. Mas isso pode-se tornar demasiado rebuscado… Não sei, ainda não pensei muito sobre isso. Agora ando é muito entusiasmado com um livro novo que já tenho projectado, também do género fantástico. Tenho imensas ideias novas, assim bem originais. Podes-nos dar uma pista? Hum… Não. Não, porque ainda não tenho nada estruturado! Tenho as ideias todas, sei mais ou menos como é que vai ser a história, mas ainda não está bem estruturado e ainda precisa de ser melhor pensado. Vai ser ligeiramente mais maduro e menos fantasioso que os dois volumes do Orbias, pelo que penso que irá agradar não só ao mesmo público leitor como também a um mais velho. Fala-me dos contos que foste publicando no teu blogue ao longo deste tempo entre o primeiro e o segundo “Orbias”. Qual era o objectivo inicial? Sempre foi o de fazer uma ponte entre os dois livros? Foi. Eu acho que um intervalo de um ano entre cada livro é muito. No mercado literário as coisas funcionam assim, mas eu acho que é muito e tive receio de perder o interesse dos leitores. Tive medo que eles se esquecessem do mundo de Orbias, das personagens, da história… De maneira que, como faltava tanto tempo para o lançamento do segundo volume, decidi lançar, mensalmente, um conto sobre uma guerreira para os leitores a ficarem a conhecer melhor e para fazer uma espécie de ponte entre os dois livros. Deu muito trabalho e houve alturas em que eu pensei mesmo “Onde é que eu me fui meter?”. Havia personagens que eu não estava a conseguir desenvolver, como, por exemplo, a Rouge - que era uma personagem que eu não tinha explorado muito n’ “As Guerreiras da Deusa” e que me deu grandes dores de cabeça. Aparte disso, acho que foi uma boa estratégia e que acabou por resultar, até porque consegui conquistar novos leitores a partir dos contos. Além disso, as pessoas ficavam cada vez mais curiosas com o segundo, porque eu ia dando algumas pistas. Foi difícil ser-se original no meio das centenas de obras de fantasia que enchem as prateleiras das livrarias? Foi, foi muito. A minha prioridade, mais do que escrever bem e ser coerente, é a originalidade. Se descubro que há algum autor com uma ideia igual à minha, então não a uso. Achas que é isso – a tua originalidade - que distingue os teus livros dos restantes do género? Penso que sim. Eu acho que tenho um estilo muito próprio. Se formos a observar esta explosão de romance sobrenatural, é tudo muito parecido ao “Crepúsculo”. Temos o “Hush, hush”, o “Eternidade”, etc. Isso é uma mais-valia para as editoras, porque sabem que conseguem vender, que é uma fórmula que vende. Mas a verdade é que peca pela falta de originalidade! Por outro lado, também é um risco ser-se original porque não se sabe se vai resultar ou não. Não sabemos se as pessoas vão gostar, se as editoras vão querer apostar em nós, etc. Eu lembro-me que quando o primeiro Orbias saiu, houve muitos comentários em blogues a dizer que o meu mundo era muito diferente e estranho. Mas isso para mim é excelente porque era precisamente esse o objectivo! Como achas que foi o impacto de “Orbias” no panorama do fantástico em Portugal? Achas que o teu livro abriu portas a novos talentos portugueses? Que, de certa forma, foi uma fonte de esperança para aqueles que querem publicar em Portugal? Penso que sim. Eu, de certa forma, fui bem sucedido e orgulho-me disso porque fui capaz de superar o habitual preconceito contra tudo o que é de autor português. Hoje em dia, infelizmente, está muito presente a ideia de que - e especialmente em fantasia - o autor português não sabe escrever, não tem valor, não tem qualidade… A Sandra Carvalho e o Filipe Faria, embora sejam bastante reconhecidos, não deixam de ser também muito estigmatizados por serem portugueses. Mas isso faz parte da cultura que já está entranhada no nosso país e que estipula que tudo o que é português não é bom. De maneira que eu acho que consegui, de certa forma, mudar um bocadinho esse estereótipo. E a prova de que consegui influenciar alguns jovens autores é o facto de semanalmente receber vários e-mails a pedir-me conselhos. E o que respondes? Antes de mais digo que ainda não tenho muita experiência na área e que os conselhos que eu lhe posso dar podem não ser os mais correctos e as melhores apostas. Depois, o maior conselho que dou é a persistência. Pode ser muito frustrante escrever, tentar publicar e ver que as editoras não estão muito receptivas aos nossos trabalhos. As editoras recebem manuscritos às centenas e não há recursos humanos para dar resposta a tudo. Eu já dei conselhos a autores que depois, mais tarde, me voltam a enviar e-mails, todos frustrados porque ninguém lhes responde. Mas é normal! É difícil dar resposta a tanta gente e há muitos bons livros que se perdem no caminho.
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| Actualizado em Quinta, 31 Março 2011 00:16 |