Fernando Alagoa

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Fernando Alagoa nasceu em Azeitão e cresceu em contacto com a natureza. Em criança, vagueou pela serra da Arrábida, onde "cada gruta e cada canto [lhe] aguçavam o imaginário". Estudou Direito em Lisboa, mas tem trabalhado em áreas diversas, dedicando-se atualmente ao turismo. Assume sentir-se "incapaz de permanecer muitos anos a fazer o mesmo ou a desenvolver uma carreira para toda a vida numa só área".
Tem preocupações de índole social, tendo, nomeadamente, desenvolvido o projecto «Sesimbra Jovem», com o objectivo de divulgar os trabalhos de mérito que se vão fazendo pelo concelho de Sesimbra, em várias áreas da cultura e do saber.
Começou a escrever aos 47 anos, embora a escrita «sempre tenha existido duma forma imaterial». A propósito do lançamento do seu novo livro "Os Senhores do Universo e a Princesa Demónio" publicado pela Alphabetum, acompanhado da republicação do seu livro anterior "Os Senhores do Universo e o Milagre de Fátima" em edição revista, apresentámos ao autor algumas questões com o objetivo de o dar a conhecer aos nossos leitores.
Agradecemos a sua disponibilidade para satisfazer a nossa curiosidade.

Segredo dos Livros: Nas informações que nos chegam a seu respeito, consta que cursou Direito. Pensamos que se terá licenciado. Assim sendo, exerceu alguma profissão da área do Direito? Já sabemos que não é capaz de permanecer muitos anos a fazer o mesmo, mas há alguma razão especial para não ter seguido a sua área de formação?

Fernando Alagoa: Quando iniciei os meus estudos universitários, já adulto, era já detentor duma carreira profissional, numa área distinta, sem necessidade de mudança e assim continuou durante alguns anos. Depois, o exercício da profissão jurídica é forçosamente nobre. Para mim, é como ser médico, não se podem correr riscos ou cometer erros. Fazer a Justiça e garantir a segurança é prosseguir o Direito. Prosseguir o Direito, a Ordem Jurídica, exige dedicação exclusiva, pouco adequada a mentes quixotescas.

"O exercício da profissão jurídica é forçosamente nobre. Para mim, é como ser médico, não se podem correr riscos ou cometer erros."

SdL: Cresceu numa Quinta de Azeitão, à beira da serra da Arrábida. Certamente que passeou e brincou muito na serra e tem muitas memórias das suas aventuras entre as rochas, os velhos palacetes, a mata, as ribeiras. Pode contar-nos algumas dessas recordações, especialmente as que mais o tenham marcado e influenciado a sua escrita?

F.A.: Sinceramente, não tenho, ou não recordo uma aventura em especial que me tenha marcado ou influenciado, talvez porque as experiências me marcassem de forma diferente. Transpor a Arrábida, por atalhos que nos levavam de Azeitão à praia do portinho, era apenas isso, uma longa caminhada. Porém, sem que os companheiros de viagem se apercebessem, ou disso tomassem parte, a partir de certa altura, já não éramos nós, mas um grupo de descobridores à procura dum tesouro perdido. Uma visita ao Convento da Arrábida depressa deixava de o ser, para se transformar numa aventura no meio de uma civilização perdida no seio de uma floresta misteriosa. O pelourinho da vila era uma forca da idade média, onde foram executadas bruxas maléficas. Uma visita às caves JMF era uma demanda pelo elixir da vida. As coisas passavam-se mais desta forma, alucinada. É o Quixote ou a Alice, que existe um pouco em todos nós!

SdL: Optou por escrever num género em que há bons, mas não muitos autores em Portugal: a ficção científica. O que o levou a optar por este género? Que autores mais o influenciaram?

F.A.: Bem, a minha geração cresceu com séries de culto como o "Espaço 1999" e o "O Caminho das Estrelas", e foi brindada com filmes como "2001 Odisseia no Espaço" de Kubrik e Artur C. Clarck.  Na literatura, também Júlio Verne teve a sua quota de responsabilidade. E até mesmo os clássicos da banda desenhada, como os heróis da Marvel com os seus super poderes e os seus mundos fantásticos, exerceram forte influência. Mais tarde e já no contexto destes meus livros, marcaram-me imenso obras como a "Ilha da Páscoa" de Francis Mazière ou "Os Segredos da Atlântida" de Andrew Tomas. Também não foram estranhas na formação deste interesse as séries e as obras "protagonizadas" por Artur C. Clark e Carl Sagan.
Todavia, não diria que optei por um género. São antes os géneros literários que me escolhem a cada momento e consoante a inspiração. A ficção científica foi apenas o primeiro e por mero acaso. Outros géneros e autores com que cresci e aprendi a apreciar, como Salgari, Agatha Christie, Conan Doyle, Thomas Mann, Camilo, Júlio Dinis e Eça de Queirós, entre outros, não serão, certamente, alheios ao meu imaginário e não tanto ao que escrevo e à forma como o faço, mas ao que me condiciona e impele.
Com a idade e com a experiência, vamos adquirindo outros gostos ou refinando-os e, assim, tal como gosto de ler outros géneros, também me sinto capaz de escrever sobre outros temas. Neste momento, já tenho depositado na minha editora um manuscrito que é algo muito diferente do que fiz até agora, quer a nível da escrita, quer a nível da ficção. Trata-se duma crónica de costumes, um tema muito actual e muito acutilante, sobre a vida, o amor, os desencontros, a amizade, a perda e o recomeço, dando mais particular atenção à descrição dos cenários e à vida interior das personagens.
Mas tenho outras coisas em mãos, assim tenha arte e engenho para as concluir.

"São antes os géneros literários que me escolhem a cada momento e consoante a inspiração. A ficção científica foi apenas o primeiro e por mero acaso."

SdL: Os seus livros versam o tema de "Os Senhores do Universo" que se insere nas teorias criacionistas, segundo as quais o homem não é um simples fruto da evolução das espécies, mas algo de superior interferiu na criação e na história da humanidade. Para os leitores que não conhecem, pode explicitar um pouco estas teorias e mais concretamente quem são "Os Senhores do Universo" e como os concebe?

F.A.: A sua pergunta não deixa de ser curiosa, porque esse é, de alguma forma, o tema do terceiro livro da saga.
Não me choca enquadrar a teoria dos antigos astronautas na categoria das teorias criacionistas, se bem que com algumas ressalvas. Não se trata duma teoria de cariz religioso, nem se pode considerá-la na versão clássica do Criacionismo versus Evolucionismo. Não rejeita uma nem a outra, considerando até a sua complementaridade, duvidando sobretudo da História tal como nos tem sido transmitida, questionando-a e apontando várias lacunas.
De uma forma breve, diria que a teoria a que dou voz nestes livros, a “Teoria dos antigos astronautas”, defende que o Homem foi criado ou modificado geneticamente por seres superiores – extraterrestres – que visitam o nosso planeta há milhares de anos e que, por incapacidade de compreensão, consideramos como deuses e veneramos como tal. É uma teoria que vai ganhando expressão e que se vale de vários factos históricos, inexplicáveis, para comprovar o que defende. Quem construiu as pirâmides egípcias e como? Como foram transportadas as pedras para o local onde foram edificadas? Como explicar a construção de Stonehenge? Qual a explicação para as bolas de pedra encontradas nas florestas da Costa Rica? As caveiras de quartzo do méxico, quem as talhou? O chamado “big bang” do cérebro humano, como explicá-lo? São apenas alguns exemplos, mas existem dezenas deles. Porém, apesar disso, não existem provas evidentes! Quem foi esse povo? Porque não nos continua a visitar? Serão os óvnis uma tentativa de comunicação? Porque não o fazem abertamente? É o que vou tentar explicar de forma ficcionada neste terceiro livro, depois de, no segundo, já ter aberto o caminho a novos mundos e a novas interrogações.  
Prevejo uma obra mais complexa! Assim espero!

"Nunca pensei em ser escritor ou fiz qualquer preparação para o ser. Escrevo o que me surge mentalmente e por acaso!"

SdL: Escreveu novelas com histórias medianamente desenvolvidas. Porque não optou por escrever romances de maior fôlego, com mais páginas, mais personagens e mais desenvolvidas e situações mais complexas? Foi propositado, ou outro motivo impediu que deixasse correr mais longe a sua imaginação?

F.A.: Foi propositado por várias razões. É comum referir-se que, no nosso país, não existe um hábito de leitura muito enraizado, se bem que, actualmente, as coisas estejam muito melhores. Será que livros muito volumosos não "assustarão" as pessoas? Pequenas histórias, mas interessantes não serão mais fáceis de digerir? Por outro lado, eu próprio nunca gostei de ler histórias muito longas. Os Maias, por exemplo, são um clássico extraordinário e incontornável da nossa literatura. Li o livro com 15 anos e adorei-o. Ainda hoje me lembro de Crujes e do Euzebiozinho, da viagem de Lisboa a Sintra e da montanha de ovos com cebola e chouriço, mas não o leria uma segunda vez. Por outro lado, eu imagino as histórias como filmes, o que me leva a escrever só o essencial, porque o resto existe em cenário, convidando o leitor a imaginá-lo. Talvez tenha de desenvolver mais os ambientes e as personagens para expressar aos outros o que visualizo. São opiniões certamente válidas que já me expressaram e que não desvalorizo. Talvez hoje os pudesse fazer de forma diferente, não sei, mas já não seriam os mesmos livros!? Será que “O principezinho” ou “A Metamorfose” seriam os mesmos livros com mais 200 páginas? Entendam que não estou a fazer qualquer comparação entre o meu trabalho e aquelas duas obras de referência. Quero apenas dizer com isto que nem sempre uma prosa extensa resulta melhor. Aceito, porém, que a escrita, como tudo na vida, é uma aprendizagem e que se possa melhorar com o tempo. Até porque nunca pensei em ser escritor ou fiz qualquer preparação para o ser. Escrevo o que me surge mentalmente e por acaso!

SdL: Parece-nos que a forma como construiu a ideia de fundo e caracterizou as personagens principais tem condições para se transformar numa grande saga, capaz de manter o interesse dos leitores por muito tempo. Vai continuar a escrever sobre "Os Senhores do Universo"?

F.A.: Pretendo continuar a escrever, mas, como sabe, os novos autores em Portugal têm um caminho difícil pela frente. Assim, apesar de pretender continuar a escrever, será o "sucesso" de cada um dos livros que, certamente, ditará o interesse da minha editora, ou de futuras editoras, na continuidade do meu trabalho. Estou neste momento a escrever o terceiro volume da saga "Os Senhores do Universo", que espero seja melhor que o segundo. Se vou continuar a escrever sobre este povo, é uma incógnita. Como já tive ocasião de dizer, eu não me sento à secretária para escrever. Escrevo ao sabor da imaginação. Enquanto as histórias forem surgindo, eu terei que as escrever mesmo que ninguém as queira ler. Agora que apanhei o gosto de brincar aos deuses, enquanto isso me der prazer, não vou parar.

"Escrevo ao sabor da imaginação. Enquanto as histórias forem surgindo, eu terei que as escrever mesmo que ninguém as queira ler."

SdL: Sente-se uma pessoa realizada, pessoal e profissionalmente, ou há algum sonho que não queria morrer sem ver realizado?

F.A.: Compreendo a sua pergunta e certamente compreenderá a minha resposta. Um Homem nunca está realizado, ainda que se sinta bem com o que tem, ou com o que alcançou. Embora a questão económica seja importante, não é a ela que me refiro, mas sim ao "ser". Por mim falo, eu preciso de estar constantemente a construir coisas, a desenvolver novos projectos, a conceber ideias. Não precisam de ser façanhas grandiosas, mas tão só que me preencham enquanto pessoa. Nesse aspecto, a realização é uma construção permanente e impossível de ser concluída.
Há muitas coisas que gostaria de ver realizadas antes de morrer, daqui por uns 60 anos, quer a nível pessoal quer social. Não sendo propriamente o sonho duma vida, no que respeita à escrita, gostaria de ver um dos meus livros passados ao grande ecrã!

SdL: Agradecemos a sua disponibilidade para satisfazer a nossa curiosidade e a curiosidade dos leitores que só agora entraram em contacto com a sua escrita e desejamos-lhe um futuro cheio de êxitos a nível literário (e não só). Quanto ao “sonho” de ver alguma das suas obras passado ao grande ecrã, não temos dúvidas de que a saga “Os Senhores do Universo” tem os ingredientes para dar bons filmes. Apareçam interessados.

F.A.: Obrigado eu, SDL e Sebastião Barata, pela entrevista e pela oportunidade concedida!

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