Gabriel Magalhães

O professor de literatura e escritor Gabriel Magalhães voltou a mostrar a Portugal que a magia das palavras lhe flui das mãos para o papel sob a forma de histórias repletas de mística e suspense. Depois de “Não Tenhas Medo do Escuro”, vencedor do Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores, o autor presenteia os portugueses com “Planície de Espelhos”, uma obra de extraordinário exotismo onde o leitor vai aprender a distinguir a vida real da vida depois da morte. Profundo conhecedor das culturas de Espanha e Portugal, Gabriel divide o seu tempo entre a Covilhã, cidade onde actualmente reside com a família e lecciona Literatura Espanhola, e Salamanca, onde lecciona Filologia Hispânica e Portuguesa. Numa entrevista ao Segredo dos Livros, o autor revelou quem está verdadeiramente por detrás da surpreendente história de Marta Valadares, protagonista deste seu último romance.

SOBRE O AUTOR

Como se define o Gabriel? Primeiro professor, depois escritor…? Quem é, afinal, este autor que guia os leitores através de uma “Planície de Espelhos”?

Confesso que não sei quem sou. Sinto-me como uma janela, através da qual passam luzes estranhas. O único espelho em que me vejo de corpo inteiro é esta minha relação com a luminosidade. De resto, gosto muito de escrever e também gosto de dar aulas. Se soubesse quem sou de uma forma exacta, se calhar não seria capaz de escrever.

Numa biografia sua, li que são precisas sete vidas para sobreviver a uma aventura literária. Porque diz isto?

O trabalho de escritor é como metermo-nos dentro de uma bola de sabão e depois irmos por aí fora. Está a imaginar a sensação? Em qualquer momento, basta um pequeno sopro para tudo rebentar. Ao mesmo tempo, no meio de tanta fragilidade, essa bola de sabão vai-se transformando num planeta em que se mora. Um processo fascinante, mas que exige de nós uma grande capacidade de fé. Para quem ler esta entrevista, fica esta ideia: não tenham medo das bolas de sabão da vossa biografia; receiem, sim, uma vida fechada entre as quatro paredes dos vossos medos.

Por hábito escreve de manhã, acordando de madrugada para o fazer. O que é que de melhor encontra nesta altura do dia para escrever?

De madrugada, a minha casa toda está à espera de que eu escreva. Olho para os objectos e eles sussurram: “Vai escrever, anda lá”. O silêncio daquela hora é o melhor papel: o mais completo programa informático. Noutras horas do dia, a minha casa já me pede outras coisas.

Fale-me de quando começou a escrever romances. Como é que tudo começou? Teve aulas de escrita ou aprendeu a escrever através daquilo que leu?

Primeiro, há muitos anos, passava horas a caminhar e a flutuar nas minhas histórias. Tardes inteiras. Mas ainda não sabia escrever. Só sabia sonhar. Isto na minha adolescência. Depois, pouco a pouco, fui aprendendo a pôr as minhas fantasias em palavras. Digo-lhe uma coisa, Margarida: é preciso escrever mal para aprender a escrever bem. Uma obra-prima é um erro harmonioso. O fundamental é a humildade, abraçada a uma grande fé. Também se torna muito importante ler, mas é preciso ter algum cuidado, porque os livros mais relevantes estão meio escondidos. Se não tivermos uma certa cautela, passamos anos inteiros a folhear cangalhada.

O que é que acha que teve mais influencia em fazer do Gabriel o escritor e, inevitavelmente, a pessoa que é hoje?

É a tal relação com a luminosidade. Quando uma pessoa vê a luz da manhã a crepitar sobre o mar, tem vontade de se ajoelhar. Se as pessoas olham para um escritor, imaginam-no grande, importante – como se fosse uma estátua. Quem escreve, porém, ajoelhou perante a beleza e, mesmo sem querer, as suas palavras são a oração de que é capaz. Mas essa luz chegou à minha vida também através da Rosário, a minha esposa. É muito curioso: hoje vive-se o amor, sem se acreditar nele. Seria como imaginar romances, sem nunca os escrever. A minha mulher acendeu uma candeia especial na minha vida.

Quando escreve, preocupa-se com algo em particular – numa mensagem a transmitir ao leitor, num ensinamento ao mundo, por exemplo?

É preciso deixar o leitor ser também escritor. Este é um dos segredos dos romances: deixá-los abertos. No fundo, o escritor toca piano e o leitor canta: todos os livros são um dueto. Quem lê, julga que está calado – mas isso não é verdade. O leitor está a cantar com a sua imaginação. É claro que, quando projecto um livro, tenho algumas ideias em mente, mas escrever não é martelar essas ideias – é atirá-las ao leitor como quem lança um avião de papel. Os romances são isso: aeroplanos de papel. Não se pode pretender deles que tenham escalas e rotas demasiado exactas, como os aviões de metal. Por outras palavras: a ideia de um romance terá de ser sempre uma ideia em movimento: uma música – e não uma pedra que cai sobre o leitor e o esmaga.

Quais são os maiores desafios que a escrita lhe apresenta?

A verdade, a simplicidade, a harmonia. Isso por um lado, porque agora que penso melhor, apercebo-me de que os problemas são muitos… Por exemplo: não é nada fácil chegar ao fim de uma história. Esse é outro problema: conseguir acabar. Depois descobre-se que afinal o livro não acabou e custa muito reerguê-lo através do trabalho de revisão, que uma obra tem sempre de sofrer. E aqui deixe-me dar um abraço ao Rui Augusto, o editor da Difel que trabalha comigo. Um livro são milhares e milhares de carreirinhos de formigas que têm de ser equilibrados – um pesadelo que se vive com toda a paixão.

SOBRE “PLANÍCIE DE ESPELHOS”

A história que apresenta ao leitor, já no final do livro, como sendo a sua, não é inteiramente verdade, pois não? O Gabriel não é nenhum jovem que fez, recentemente, a tese de mestrado pois é sabido que dá aulas na UBI e que tirou já o doutoramento em Espanha! Porquê inventar uma história para si mesmo? O que o levou a fazer tal coisa? Qual a história verdadeira que fez nascer “Planície de Espelhos”?

Quem é que lhe disse que aquele Gabriel Magalhães não sou eu? Bem, é certo que não sou exactamente aquele personagem: é verdade. Mas este ficcional Gabriel era o tal jovem que eu fui: aquele Gabriel Magalhães que sonhava romances pelas ruas. O Gabriel Magalhães do livro representa aquele momento juvenil de luz total que todos temos na nossa biografia e ao qual depois muitas vezes não conseguimos ser fiéis. E vou contar-lhe mais um segredo. O livro está feito assim para que cada um tenha a coragem de ser quem é. Portanto, a Margarida é o Gabriel Magalhães do romance, se o desejar. Qualquer leitor o será, se assim o desejar, mas terá de o ser com o seu próprio nome e à sua maneira. No caminho de cada pessoa existe uma aventura que é só sua e cuja descoberta este livro pretende sugerir e encorajar. E aqui é importante aprender a distinguir os nossos sonhos daqueles que a sociedade imprime em nós. Muitas vezes sonhamos sonhos que não são nossos. Como distinguir os nossos próprios sonhos destes que são falsos, que vêm de fora? É muito fácil. Os nossos sonhos mais verdadeiros doem-nos; cravam-nos numa cruz. Mas depois a felicidade é cada vez maior e não nos doem os pregos que temos nas mãos.
Quanto à história do fantasma, ela é mesmo verdade. O Antonio Sáez Delgado e a Susana, sua esposa, viram comigo esse fantasma numa noite fria de Évora. Apareceu-nos duas vezes a pedir-nos boleia.

Ao longo do livro, deparamo-nos com incríveis e fiéis descrições dos locais por onde Marta Valadares passa. Desde a sua viajem até Évora e depois até Monforte, a faculdade eborense, a pensão, o convento, a barragem de Fratel… Conte-me, o Gabriel fez precisamente estas viagens e visitou todos estes locais? Se sim, quando o fez foi já com a intenção de escrever “Planície de Espelhos”?

Sim, os locais foram todos visitados, até várias vezes. Inicialmente, não era para escrever o livro. Mas, nas minhas últimas deslocações, já tinha essa intenção. Acontece-me fazer viagens e estar a pensar em livros sem dar por isso. As viagens metem-se-me nos livros e os livros nas viagens. Por vezes, encontramo-nos num cenário de um futuro romance, mas ainda não sabemos que aquele lugar se vai tornar matéria escrita. Os livros que escrevemos desenham um atlas muito curioso dos sítios por onde passámos, mas os meridianos desta geografia que se escreve são um pouco casuais.

Recorre imenso a adjectivos. O que é que o leva a classificar tudo aquilo que nos rodeia? Ao fazê-lo, é sempre sob o seu ponto de vista?

Na minha maneira de escrever, há quem veja um poema escondido. Não me parece que use demasiado os adjectivos. Aquilo que acontece é mais isto: os meus adjectivos são fluorescentes. É essa fluorescência que lhe deve dar a sensação de serem muitos.

Outra coisa que me despertou imensa curiosidade foi o igual recurso a metáforas e algumas delas chegaram mesmo a deixar-me perplexa! Por exemplo: “a voz meiga e triste que lembrava teias de aranha” e “como se a garganta descascasse um pêssego”. Quanto a mim, nunca me iria lembrar de tal coisa para fazer este tipo de associações! Conte-me, como é faz para construir estas metáforas? E o que é que o leva a recorrer tanto a este recurso estilístico?

Eu adoro metáforas. São elas que me salvam do mundo. Cada uma constitui uma bóia que me ajuda a não me afogar na realidade. As metáforas também são pontes que utilizo para compreender as coisas de um modo diferente. São relâmpagos: iluminam com uma luz especial, que não é a do Sol, nem a da Lua. Mas, confesso-lhe: gostava de escrever um romance que não tivesse cabriolas de linguagem – feito só com o osso do idioma. Se Deus quiser, será mais lá para a frente.

Uma das bases em que assenta a história da professora Marta Valadares é o processo de Bolonha. Pergunto-me o que é que o Gabriel acha desta mudança no Ensino Superior? Será que, por exemplo, esta nova liberdade de que fala no livro, relativamente às teses de mestrado, é uma coisa boa?

Bem, ainda não sei de ninguém que tenha feito uma tese de mestrado que seja um romance. Gostaria que acontecesse aquilo que o meu livro profetiza e que é possível, em termos teóricos, embora na realidade não se faça. Queria dizer-lhe uma coisa: fiz trabalhos científicos de grande exigência, teses de doutoramento e investigações de muita complexidade, e posso garantir-lhe que a escrita romanesca ainda pede mais de nós do que a escrita científica. Num estudo académico, tentamos perceber o mundo melhor, com a nossa pesquisa. Na escrita de ficção, inventamos um mundo todo novo. Os escritores são investigadores que têm de criar, eles próprios, os ratos com que depois fazem as suas experiências. Um artista é um cientista absoluto.

Tenho alguma curiosidade em saber como é que o Gabriel baptiza as suas personagens. Confesso que tudo começou com o nome Leocádia, pois achei-o tão invulgar que desde então me pergunto como é que o Gabriel escolhe os nomes para as personagens que vagueiam pelas suas histórias!

As personagens aparecem já com um nome. É um nome escondido que elas trazem na alma. Se lhes damos um nome que não seja esse, elas protestam – começam a portar-se mal no livro. Muitas vezes não percebemos imediatamente o nome que elas trazem consigo. Ele está lá, implícito, mas nós ainda não demos com ele. Então temos de escavar um pouco na nossa figura e, de repente, o nome salta. Não se põe um nome: descobre-se o nome que a personagem já tinha.

A meio de “Planície de Espelhos”, as suas personagens debatem se será possível que aquilo que se escreve/pinta aconteça na realidade. Já tinha pensado nisto? Acredita que seja possível?

Absolutamente possível! Quando o António Nobre escreveu o “Só”, a celebrar as emoções decadentes da tuberculose, ainda não era tuberculoso. Teve essa mesma doença depois disso. Parece-me que foi o Rodrigues Lobo quem narrou um naufrágio no Tejo e depois morreu lá afogado. Enfim, os exemplos são muitíssimos. A verdade é que as palavras têm um poder especial hoje em dia muito esquecido. Elas podem mudar a nossa vida, mas têm de ser termos que carreguem com o peso da nossa alma. A alma cabe melhor na linguagem do que no nosso corpo.

São feitas várias alusões ao passado da protagonista, Marta Valadares. Poderá a sua experiência de vida, o seu passado, ter inspirado a escrita de “Planície de Espelhos” e, portanto, a história de Marta? E a alusão ao Ensino Superior?

A minha relação com a Marta Valadares não é tão íntima quanto possa parecer. Nunca vivi em Madrid, mas sim em Salamanca, em Orense e no País Basco. Os meus pais não são ricos, como o foram os pais de Marta. Quanto à representação do Ensino Superior feita neste livro, esse não foi o objectivo principal. O que eu quis foi mostrar a dimensão ficcional da vida contemporânea: escolas que fazem de conta que ensinam, tribunais que fazem de conta que são justos, hospitais que fazem de conta que tratam da saúde das pessoas. O que se passa em certas dimensões da universidade acontece também noutros âmbitos sociais. A nossa sociedade está a perder a dignidade de as coisas corresponderem aos seus nomes. Tudo é um pouco uma farsa e este é um problema ocidental. A recente crise comprovou que nem sequer as casas que temos, em muitos casos, são reais.

A sua escrita sofre visíveis oscilações ao longo do livro. Quando escreve como Gabriel Magalhães, não faz um único parágrafo, escreve tudo corrido e, por vezes, sem a habitual pontuação. Já como Marta, tudo é diferente pois são inúmeros os parágrafos, a pontuação é a tradicional, os diálogos são feitos na forma habitual. Porquê distinguir estas duas formas de escrita? E porquê a adopção do primeiro, menos tradicional?

A sua pergunta é extremamente arguta! O livro tem, de facto, duas vozes – duas músicas verbais. Uma, aquela que é mais impulsiva, o texto em itálico, que nunca pára, representa a vida, a coragem de viver e de ser. A outra, a parte em letra redonda, cheia de cortes, com frases mais curtas, encena a morte que pode haver numa vida morrida de forma conformista. “Planície de Espelhos” é um livro escrito com a música da vida e também com a melodia sinistra da morte. É uma escrita em contraponto: luz e sombra, feita de palavras.

A sua relação com Espanha é notável nas diversas alusões que faz a este país ao longo do livro. Como é que a descreve?

Gosto muito de Espanha, mas quanto mais gosto de Espanha mais gosto também de ser português. É um amor lúcido que se maravilha com a cultura do país vizinho, sem deixar de lhe conhecer os dramas.

Em certa altura diz que os espanhóis comportam-se como se fizessem parte de uma ópera enquanto os portugueses parecem mais habitar os bastidores de um pequeno teatro. É mesmo isto que sente?   Porquê?

Os espanhóis vivem a celebrar-se a si mesmos e isso tem algo de operático. Claro que há também os espanhóis que não o querem ser, em certas regiões. Mas o espanhol mais normal é como se tivesse, por baixo, o pedestal da sua hispanidade. Isto não é mau: dá-lhes vibração e coragem. O português duvida mais de si mesmo. O lusitano existe numa subtileza de que o castelhano, normalmente, não é capaz. Não estou a ver nenhum grande autor do país vizinho a perder-se num labirinto de heterónimos. Um espanhol é sempre e sobretudo ele mesmo. Nós, portugueses, somos muitas coisas que, depois, não conseguimos ser.

Diz ainda que a Espanha consegue ser tão triste por dentro quanto alegre por fora. Porquê tal afirmação? É mesmo verdade?

É verdade. Certamente, a Espanha é um país fantástico, mas tem, como a pintura de Goya, a sua fase negra. Muitos portugueses imaginam o país ao nosso lado como uma festa permanente: praia, discotecas, boa vida. Trata-se de uma concepção ingénua dos nossos vizinhos. Experimentem viver em Espanha dois anos seguidos e ficarão a conhecer-lhe as sombras. Perceberão que o melancólico Portugal é bem mais suave, tranquilo e repousante do que a colorida Espanha.

O que é que mais o atrai no país vizinho e o leva a escrever sobre ele nos seus livros?

Devo a minha relação com Espanha aos meus pais, que viveram a globalização muito antes de ela ter sido inventada. A minha família passou por muitos sítios no país vizinho. Assim, a Espanha faz parte de mim – da minha biografia. Eu sou um português de biografia espanhola. Não é nada estranho em Portugal esta experiência de se ser português e passar intensamente por outro país. Isto não nos reduz a nossa portugalidade. O meu amigo Onésimo Teotónio de Almeida, por exemplo, é um português norte-americano, tal como o Eça de Queirós era um português francês. E até temos portugueses chineses como o grande Camilo Pessanha, ou portugueses japoneses como o Venceslau de Morais. Isto para não falar no Pessoa: o nosso grande português inglês. Ser português a sério implica estas duplicidades. Quem é português sendo só português acaba por não saber muito bem quem é.

Relativamente às crianças conseguirem ver os mortos, porquê esta distinção entre os adultos e as crianças?

As crianças vêem muito melhor do que nós. A minha filha Maria Teresa ajuda-me muito a ver o mundo. Às vezes sinto-me um cego que ela vai guiando. É verdade que os pequenitos também conseguem ser cruéis, mas quem me dera voltar a ter os olhos dos meus cinco anos. A luz do Verão era tão grande – e agora é tão pequena. Cabe num bolso.

Na biografia que acompanha este romance, diz-se que “através da alquimia da literatura”, tornou-se outra pessoa. Como é que isso aconteceu?

Quem escreve não é quem é. E o escritor talvez escreva para não ser quem é. E quem lê também não é quem é. E talvez leia precisamente para isso: para não ser a pessoa que é. Sabe, nós todos estamos nesta vida como num exílio. Puseram-nos fora de algum lugar, que era a nossa verdadeira pátria. A literatura é um modo de corrigir um pouco esta situação. Uma maneira de saber qual é o bilhete de identidade da nossa alma.

Na entrevista que deu ao jornal “La Vanguardia”, disse que “hoje não é fácil estar verdadeiramente vivo” e aponta a ficção como a culpada de isso acontecer. Fale-me desta sua ideia. Em que medida é que acha que podemos viver como fantasmas?

É muito simples: é-nos passada a mensagem de que vamos morrer sem remissão, e isso deixa-nos já meio mortos por dentro. O ateísmo é de uma falta de imaginação prodigiosa e de uma grande crueldade. A partir daí as pessoas querem agarrar-se a todo o tipo de garantias: empregos certos, poder, dinheiro, essas coisas! Quando viver, viver verdadeiramente, é uma pessoa a ir-se soltando de tudo, até voar finalmente. Nós fomos feitos para voar: um voo por dentro. Um voo da alma. Se não assumirmos esse voo, enterramo-nos vivos. Mas a culpa disto não é da ficção, quero dizer, da literatura de ficção. É, sim, dessas outras ficções, as piores que existem: as que afirmam a pés juntos serem verdade, de uma forma fundamentalista. A televisão, por exemplo, é um universo ficcional, que não assume essa sua ficcionalidade. Isto é que é perigoso: desfoca o pensamento das pessoas. O mundo de imagens em que vivemos é uma materialização da caverna platónica.

Em certa altura no livro é dito que “nos espelhos não há muito que ver”. É verdade? O que é que o Gabriel vê quando se olha ao espelho?

Eu olho pouco para o mundo, e muito para dentro. Às vezes, é um defeito. Tenho por exemplo alguma dificuldade em reconhecer pessoas que só vi uma ou duas vezes. Os meus olhos são mais interiores do que exteriores. Muitas pessoas hoje estão demasiado fascinadas com os espelhos. Esquecem-se de que aquilo é água que corre. No quarto de banho, as pessoas deveriam ter, em vez de espelhos, rios a correr, onde se olhassem sem nunca esquecerem que as imagens são água em movimento.

Para terminar, acredita na vida depois da morte? Receia esta última?

Cada vez tenho menos medo da morte. Sinto que ela será o meu melhor livro, se Deus quiser, e vai ser uma alegria vê-lo a ser editado e publicado na eternidade. Um livro de puro e liso silêncio. Saber morrer é a prova definitiva de que soubemos viver. As pessoas têm uma relação errada com a fé: pensam que se trata de algo que as vai limitar. Uma espécie de freio. Mas, na verdade, não é assim. Só quem acredita na sua eternidade acreditará verdadeiramente em si mesmo. Só quem se sentir eterno chegará a contemplar o seu rosto autêntico.

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