Jean M. Auel

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A editora Clube do Autor publicou recentemente A Mãe Terra, 6º volume da magistral série Os Filhos da Terra, que a autora Jean M. Auel demorou 30 anos a escrever e foi a obra de uma vida.
Jean Marie Untinen Auel é uma escritora norte-americana, nascida em 1936, em Chicago, no estado do Illinois. Originária de uma família pobre, de imigrantes finlandeses, terminado o curso secundário, casou e foi mãe de cinco filhos. Mas não desistiu de estudar e exerceu diversas profissões para financiar os seus estudos universitários, que concluiu aos quarenta anos de idade. Apaixonada pelos tempos pré-históricos, decidiu então dedicar-se inteiramente à escrita. Após dois anos de pesquisas pormenorizadas, escreveu o livro O Clã do Urso das Cavernas, que foi publicado em 1980 e constituiu um sucesso imediato.

Embalada pelo êxito e pelas possibilidades económicas que as vendas lhe proporcionaram, viajou por toda a Europa, percorrendo os locais de habitação humana na Pré-História e recolhendo material para continuar a escrever. Assim nasceu a série Os Filhos da Terra, constituída pelo já referido O Clã do Urso das Cavernas (1980), O Vale dos Cavalos (1983), Os Caçadores de Mamutes (1985), Planícies de Passagem (1990), O Abrigo de Pedra (2002) e A Mãe Terra (2011). Conta a história de uma menina Cro-Magnon orfã, de nome Ayla, que é adotada por um clã de hominídeos Neanderthal de cariz tradicionalista e repleto de tabús. Tida como desadaptada, Ayla revolta-se e inicia uma viagem em que conhece novos povos e adquire conhecimentos que lhe permitem regressar e tornar-se na líder espiritual e na curandeira do seu povo das cavernas.

Sendo uma obra tão importante que foi traduzida para 35 idiomas e já vendeu mais de 45 milhões de exemplares em todo o mundo, teve em Portugal até agora um percurso algo atribulado. A Europa-América iniciou a sua publicação em 1982 e fez várias reedições, mas só chegou ao 4º livro. A Esfera dos Livros publicou O Clã do Urso das Cavernas em 2006, mas, ao que parece, ficou-se por aí. Se não estamos em erro, O Abrigo de Pedra, nunca chegou a ser editado em Portugal e os poucos exemplares que terão circulado no nosso país pertenciam a uma edição brasileira da Record.

Em boa hora o Clube do Autor decidiu recuperar Os Filhos da Terra. Desconhecemos a razão que levou a começar pelo último volume, mas desejamos que A Mãe Terra seja um êxito de vendas tal que decida a editora a lançar todo o conjunto dos seis volumes. É um conjunto de romances que o merece, pelas suas características em que alia a História ao romance e à fantasia, pelo rigor da investigação que os suporta e pela época pouco explorada em que a ação se situa. Jean M. Auel dá-nos a conhecer o nascimento da humanidade e os primórdios da civilização ocidental.

Com a devida vénia, aqui fica uma breve entrevista à autora que nos foi cedida pelo Clube do Autor, a propósito do novo lançamento:

É conhecida mundialmente pelo rigor científico com que escreve acerca das suas investigações arqueológicas. Quais são as suas fontes?

A maior parte da informação resulta de horas e horas de trabalho em bibliotecas, mas também tenho aprendido muito perguntando, frequentando cursos e viajando. Participei, por exemplo, num curso de sobrevivência no Ártico e num outro sobre os indígenas, em que aprendi, por um lado, como viviam e, por outro, como preservar a pele de veado e aproveitá-la para criar peças de vestuário. Frequentei igualmente alguns seminários para aprender a identificar plantas silvestres e também um curso de cozinha em que aprendi a utilizá-las. As capacidades da Ayla enquanto curandeira resultam de aprendizagens várias recolhidas em livros que ensinam a prestar os primeiros socorros, em manuais sobre ervas medicinais e naquilo que aprendi ao longo do tempo com médicos, enfermeiras, paramédicos, etc.

Neste livro, as pinturas rupestres ocupam um lugar de destaque. Visitou algumas das cavernas de que fala em A Mãe Terra?

Sim, visitei todas as cavernas descritas no livro e posso dizer que a sensação de ali estar é indescritível. No seu interior sente-se uma ligação muito forte com quem fez aquelas pinturas. Aliás, visitar esses locais faz parte do meu trabalho de investigação histórica, e é algo que me dá particular prazer. De todos os espaços que já tive oportunidade de visitar, destaco a visita ao Abrigo do Lagar Velho, na zona de Leiria, a primeira sepultura do Paleolítico Superior da Península Ibérica. Nesse local foi descoberto o «Menino do Lapedo», cujo esqueleto provou o contacto entre o homem de Neandertal e o Homem Moderno (Homo sapiens) e o cruzamento entre espécies.

Quanto de ficção e quanto de realidade encontramos na sua obra?

Embora baseados em factos reais, os meus livros são um trabalho de ficção. De há 30 000 anos restam-nos apenas alguns objetos feitos em pedra ou osso, ADN recolhido de alguns vestígios de sangue de animais ou pólen de plantas medicinais encontrado em túmulos dessa época.
É apaixonante investigar um esqueleto do Neandertal: estudando os seus ossos podemos descobrir, por exemplo, se o falecido perdera um olho quando era jovem, se fora amputado de um braço ou coxeava. Com estas características seria impossível, por exemplo, que este homem participasse na caça aos mamutes. E a partir daqui podemos questionar-nos: por que razão perdeu o braço? Quem lhe estancou a hemorragia? Como conseguiu sobreviver com estas limitações e chegar à velhice? Com certeza tinha alguém a seu lado, alguém que o amava. Ou será que a sua cultura protegia os mais débeis e desprotegidos? Em qualquer dos casos, facilmente se percebe que os nossos antepassados não eram brutos.

E depois deste livro, o que se segue?

Continuo a investigar e tenho já muitas ideias. Todavia, neste momento, não tenho qualquer plano em concreto. Mas não tenho dúvidas: vou continuar a escrever.

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