| Joanne Harris |
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| Escrito por Margarida Cruz | |||
| Quarta, 13 Outubro 2010 21:44 | |||
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Joanne Harris quase que dispensa apresentações. Depois dos best-sellers “Chocolate”, “Vinho Mágico” e “Cinco Quartos de Laranja”, a autora presenteia os seus fãs portugueses com “O Rapaz dos Olhos Azuis”, o seu mais recente trabalho. Num adeus às alusões à gastronomia que caracterizavam as suas histórias, Joanne Harris dá-nos agora a conhecer o poder da música e da cor. Baixista desde os seus dezasseis anos, a autora conta já com doze livros publicados em Portugal pela editora ASA, incluindo dois de receitas gastronómicas que fazem a delícia dos milhares de fãs da autora. Numa visita a Portugal para promover o seu último trabalho, a autora contou ao Segredo dos Livros o que é que se esconde por detrás da história de “O Rapaz dos Olhos Azuis” e o que vai na alma da “autora de ‘Chocolate’”. Este seu novo livro distingue-se de todos os outros que já escreveu – é muito mais negro e cruel… Não sei se será bem assim. Eu já escrevi outros livros com um lado mais negro, como o “Xeque ao Rei” e o “Cinco Quartos de Laranja”, por exemplo. Para mim o “Xeque ao Rei” é como que um parente de “O Rapaz dos Olhos Azuis” e de “Cinco Quartos de Laranja”. Todos eles têm elos bastante fortes entre si e falam de famílias muito singulares e de infâncias problemáticas. “O Rapaz de Olhos Azuis” é mais a continuação de uma área que eu tenho vindo a explorar do que, propriamente, algo novo. Mas, sim, agora que penso nisso, acho que é capaz de ser o mais negro deles todos. E perturbador… Exacto. Mas aí já tem que ver com o facto de eu ter escrito tanto sobre relações de contos de fadas entre pais e filhos. Como este vai contra esse ideal, o impacto nas pessoas é maior. O que é que, na Internet, a inspirou para criar uma personagem como o protagonista desta obra? Eu queria trabalhar com alguém que não se preocupasse, de todo, com o facto de mentir ou manipular, de ser cruel ou rude, ou seja, com o género de coisas que se podem fazer facilmente na Internet. Além disso, queria também explorar uma personagem que tivesse uma vida de tal forma insatisfatória que se sentisse motivada a viver noutro lugar – num lugar criado por ela. E onde se sentiria alguém diferente daquilo que é na realidade… Exacto. A Internet é um mundo que nos permite não só ser diferentes em vários aspectos, mas também criar um “eu” fictício! Acha que isso acontece com muita frequência hoje em dia? Mais vezes do que aquelas que imaginamos! A verdade é que estão sempre milhões de pessoas on-line a fazer mil e uma coisas diferentes. Algumas são muito abertas e honestas, outras nem por isso - depende muito daquilo que se quer fazer. Por exemplo: se estamos ali para discutir um determinado tópico, então é isso, e só isso que vamos fazer. Se, por outro lado, formos pessoas com, digamos, cancro, então vamos a um fórum ou website de doentes com cancro, onde possamos dizer como é que nos sentimos e partilhar essa experiência com outras pessoas que estão nas mesmas condições. Ou seja, quando estamos on-line, estamos concentrados num único assunto e, na vida real, as relações interpessoais implicam que abordemos outros mais. Na Internet, podemos olhar para alguém como um fã de Star Trek ou então como uma pessoa que tem uma criança muito doente - a mesma pessoa pode ser estas duas coisas ao mesmo tempo, dependendo da abordagem redutora em que se insere! O que é que escolheu primeiro: a história que queria criar ou o protagonista? Reuni aspectos das duas coisas na Internet. Mas, entretanto, também tinha viajado para Itália, onde, um dia, conheci este taxista que me contou tudo e mais alguma coisa sobre a sua família: disse-me que tinha muitos irmãos, que eram todos muito próximos em idades, que a mãe era uma viúva muito pobre, e que decidira que cada um dos irmãos havia de vestir cores diferentes, de maneira a poupar dinheiro em vestuário e lavagens. Assim, se algum deles perdesse qualquer coisa, ela saberia exactamente de quem era e não haveria qualquer tipo de complicações acerca do que é que pertencia a quem. Entretanto, olhei com atenção para o senhor e não é que ele vestia um fato, uma gravata e uma camisa azuis?! Perguntei-lhe se ele ainda fazia isso e ele disse que sim, mas que a sua mãe já morrera há 20 anos! Soube desde aí que, um dia, ia ter de criar uma história onde as cores tivessem um papel crucial e onde esta mãe, de que ouvi falar, fosse a base da acção. Numa outra entrevista disse que este protagonista foi a personagem mais complexa e difícil de compreender com que alguma vez lidou. Porquê? Bem, ele é uma pessoa muito difícil e nem se compreende a si mesmo. É muito confuso e, embora ache que tem tudo sob controlo, na verdade não tem. Aliás, no fim, o leitor fica mais a par daquilo que se passa com o protagonista do que ele próprio. Além disso, ele é também uma pessoa de tal maneira perturbada e revoltada com a vida, que ninguém se sente sequer tentado a gostar dele! E como pessoa que não gosta daquilo que é, decide reinventar-se numa personagem anti-herói, cuja escrita de sede sanguínea lhe oferece amigos e pessoas por quem acaba por sentir afeição. Mas é engraçado, porque eu até achei fácil simpatizar com ele! Dei-me conta que, em alguns aspectos, ele parece-se comigo! (risos) Por exemplo: ele escreve ficção de modo a expressar coisas que não seria capaz de expressar de outra forma e isso significa que ele tem a alma de escritor! Não foi nada fácil escrevê-lo na primeira pessoa, mas, quando dei por mim, notei estes pequenos elos de ligação entre nós. E porquê associar crime e assassínio à Internet? Existem muitos textos ligados ao crime na Internet. A Internet é um mundo onde não há inibições, onde podemos ser completamente anónimos, escrever e publicar tudo aquilo que nos apetecer. Eu cheguei a conhecer pessoas que eram muitíssimo respeitáveis na vida real e que, na Internet, publicavam as suas fantasias selvagens, sem que nem a família, nem os amigos mais próximos dessem conta. Tudo isto fez-me pensar que a Internet acaba por funcionar como um confessionário, onde não vemos com quem estamos a falar e onde dizemos coisas que, muito provavelmente, não diríamos a alguém com quem estivéssemos cara a cara. Nesta história a música tem um papel crucial. O que é que a fez escolher listas de reprodução como uma das bases mais importantes do livro? Eu adoro música. É algo que é tão importante para mim como escrever. Desde pequena que toco em bandas, orquestras e afins, de maneira que a música tem um enorme poder em tudo o que me diz respeito. Aliás, fiquei surpreendida comigo mesma por nunca antes ter recorrido à música nos meus outros livros! Quer dizer, é tão natural que se crie a banda sonora da nossa história! Toda a história contada no ecrã é acompanhada de música e, para mim, também aquela que eu escrevo é acompanhada de uma determinada lista de reprodução! Desta vez, o que eu quis fazer foi trazer a banda sonora deste livro para dentro da própria história, de maneira que a lista de reprodução do BB fosse, no fundo, a banda sonora da sua vida – ele vive a maior parte do tempo dentro da sua própria cabeça, com os auscultadores do iPod nos ouvidos, porque não quer ouvir, nem saber o que é que se passa à sua volta. No final, aquilo que toca nos seus ouvidos - na sua cabeça - acaba por ser um reflexo daquilo que se está a passar com ele. E o que é que acha que a fez recorrer à música desta vez e não numa outra oportunidade antes? Eu acho que sempre quis pôr um pouco de música nos meus outros livros, mas o facto de ter tantas outras coisas sobre as quais tinha de falar fazia com que me desconcentrasse desse aspecto - dessa perspectiva - e acabasse por me esquecer. Neste caso era inevitável. Quando nós estamos on-line e entramos num blogue, é certo e sabido que vai ter um leitor de áudio a passar as músicas que o autor está, naquele momento, a ouvir, ou então um quadro com aquilo que anda a ler, as séries que anda a ver, etc. E tudo isto são coisas que fazem parte do nosso estado de espírito! Ao entrarmos num blogue com este género de informação publicada, nem é preciso ler nada daquilo que o autor escreveu para se saber o que se passa na vida dele e como é que ele se sente – ficamos a sabê-lo a partir daquilo que anda a ouvir, a ler, a ver, etc. É então uma abordagem completamente diferente daquela que fazia com a comida nos outros livros… (risos) Bem sei! Mas, desta vez, eu quis olhar para outras sensações, ter outra perspectiva daquilo que sentimos e ir mais além nos nossos interesses que, felizmente, não se ficam pela comida. Sinceramente, acho que as pessoas ficaram um tanto obcecadas com isso, o que não é lá muito saudável… Há tantas outras coisas que nos despertam interesse para além da comida! A música é só uma delas. De acordo com a Joanne, a herança francesa é o que liga de uma maneira especial à comida e a inglesa à escrita. Então e a sua relação com a música vem de onde? Eu não acho que tenha assim uma relação tão especial com a comida, como as pessoas costumam dizer. Na verdade, toda a gente tem uma relação especial com a comida. O que eu fiz nos meus livros foi relembrar o quanto a comida pode significar para nós, para além de “aquilo que nos enche o estômago”. Mas, respondendo à questão, a minha relação com a música vem do meu avô, que era músico e tocava imensos instrumentos. Penso que ele era o único músico na família, mas ainda assim encorajou-me e eu segui-lhe os passos. Gosta de experimentar diferentes géneros e todos os seus livros diferem muito entre si, não é verdade? Sim, completamente. E nunca pensou em seguir um só género literário? Não. Prefiro experimentar e tentar criar coisas novas a fazer a mesma coisa repetidamente, até porque ia ficar terrivelmente aborrecida. É muito melhor andar nesta adrenalina constante, que é a experiência do novo e do desconhecido. Acho que, se me deixasse cair nesse tipo de conforto, ia começar a alucinar! E como é que decide se irá escrever um romance ou um thriller? Não decido. Aliás, eu nem sequer classifico os livros dessa maneira. As editoras é que gostam de etiquetá-los assim. Eu limito-me a começar uma história a partir das minhas personagens e a deixar a acção fluir à sua volta. Quer dizer que não faz um plano da história antes de a começar a escrever? Faço, mas só até um certo ponto. E não é um risco começar algo sem saber onde é que nos vai levar? Claro que sim! Mas é por isso que é divertido! Já aconteceu não gostar de onde a história foi parar e ter de reescrever tudo de novo? Várias vezes. Mas é perfeitamente normal! Quando isso acontece, volto atrás, escrevo tudo de novo e, se ainda assim, continuar a não gostar, volto a reescrever tudo outra vez e faço-o as vezes que forem precisas para conseguir aquilo que pretendo! Eu, normalmente, tenho uma ideia geral de onde é que a história me deve levar. O problema está nos detalhes! Eles é que me dão autênticas dores de cabeça! Mas, para mim, isto faz parte da diversão, porque é arriscado e me dá imensa adrenalina! Se eu soubesse exactamente onde é que a história devia acabar, o processo de escrita ia ser muito aborrecido. Assim, é antes um processo de descoberta e de experimentação. Guarda um sentimento especial por algum dos seus livros? Eu tenho um sentimento especial por todos eles, embora de diferentes maneiras, visto que cada um corresponde a uma determinada altura da minha vida e a diferentes níveis de especialização da minha escrita. Não consigo, de todo, dizer que tenho um favorito e qual deles é. Uns foram mais divertidos de escrever, outros foram mais difíceis. Os mais difíceis deram-me um sentimento especial de vitória quando os terminei, mas não é por isso que passam a ser os meus preferidos. Quais foram os mais difíceis? Acho que foram aqueles que são mais obscuros, mais negros. O “Cinco Quartos de Laranja”, “O Rapaz dos Olhos Azuis” e o “Xeque ao Rei” foram, sem dúvida, os mais difíceis de escrever e, daí, também aqueles que tenho mais orgulho - as histórias exigiram demasiada atenção e cuidado e eu nunca tive a certeza de ser capaz de as tornar devidamente coerentes. Preocupa-se com as críticas? Só com as que faço a mim mesma. É claro que gosto de saber se os meus fãs gostaram do novo livro que saiu ou não. Aliás, dou-lhes muito mais importância do que a todas as críticas do mundo, mesmo que sejam as melhores. Mas aquilo que me importa realmente é a minha auto-satisfação. O resto vem depois… Qual será o seu próximo projecto? Ainda é muito cedo para falar sobre ele. Comecei-o mesmo agora e ainda não sei onde é que me vai levar. Contudo, terminei há pouco tempo uma sequela de “A Marca das Runas” – está previsto sair no próximo ano em Inglaterra. É a primeira vez que escrevo uma verdadeira sequela das minhas histórias: a acção parte, precisamente, do ponto em que terminou em “A Marca das Runas”, com as mesmas personagens, cenários, etc. A minha filha disse-me que eu não estava autorizada a deixar a história ter um final como o de “A Marca das Runas” e obrigou-me a continuá-la! (risos) Mas pronto, acho que ela até tinha uma certa razão!
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| Actualizado em Sexta, 22 Outubro 2010 17:31 |