José Miguel Parra Ortiz

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Natural de Madrid, José Miguel Parra Ortiz dedica a sua vida ao estudo da civilização egípcia há quase vinte anos. Graças ao insaciável fascínio que nutre pelo Antigo Egipto, são já vários os trabalhos que o autor nos presenteou sobre esta época e cultura. Em Portugal, a Esfera dos Livros não deixou de satisfizer a curiosidade dos leitores, pelo que podemos desde já contar com “A Vida Amorosa No Antigo Egipto”, à venda nas livrarias desde Março de 2010. Depois de uma aventura à descoberta dos segredos que se escondem por detrás desta civilização de elite, José Miguel Parra Ortiz veio a Lisboa para participar no IV Congresso Ibérico de Egiptologia e aproveitou a oportunidade para nos falar mais do seu trabalho numa entrevista exclusiva ao Segredo dos Livros.

Porquê o interesse por esta temática da sexualidade no antigo Egipto?

Primeiro que nada porque é um dos temas menos estudados da antiguidade no Antigo Egipto e eu sempre tive alguma curiosidade pelo mesmo. Aliás, eu já tinha escrito um artigo sobre ele. No entanto, agora sentia uma necessidade de aprofundar o estudo e, graças ao apoio da editora, pude partir à aventura. Já havia uns tantos artigos sobre o tema disponíveis aqui e ali, mas nunca ninguém tinha pegado neles e criado um livro em que pudéssemos pegar e ler!

E como foi este desafio? Quais foram as maiores dificuldades e vitórias atingidas?

Acima de tudo foi isso mesmo: um desafio. Foi muito difícil recolher a informação necessária porque, até há um par de anos ela era muitíssimo escassa! Entretanto lá começaram a surgir alguns artigos sobre a temática e até organizaram, em Lisboa, um congresso para jovens egiptólogos onde o tema principal era, precisamente, a vida social e amorosa no Antigo Egipto. A partir daí as coisas tornaram-se mais fáceis: houve um maior interesse, uma maior curiosidade da parte dos historiadores, dos arqueólogos e dos egiptólogos, de maneira que o material disponível se tornou mais diversificado. Aliás, no fim, até fiquei surpreendido com aquilo que vi: mais de seiscentas notas e mais de quarenta páginas de bibliografia!

E foi ao Egipto para recolha de algumas informações em concreto?

Não foi necessário. Para este género de trabalho e de investigação não é preciso fazer esse género de viagens visto que já está tudo estudado e não é preciso analisar nada do ponto de vista artístico (escavações, túmulos, peças, etc.). Portanto, tendo em conta que a informação de que eu precisava já se encontrava toda publicada, o problema foi reuni-la e conseguir relacioná-la de maneira a conseguir escrever este livro.

Com tão pouco material disponível, enveredar neste trabalho foi, provavelmente, como iniciar uma caminhada no escuro. Qual foi o primeiro passo a dar?

Arranjar uma capa para guardar tudo quanto encontrasse a respeito deste tema. (risos) O primeiro artigo que li abordava a homossexualidade no Antigo Egipto e, a partir daí, seguiram-se outros tantos que abordavam a questão da sexualidade nessa altura. A mim competia-me apenas pesquisar e juntar tudo o que encontrasse numa pasta de arquivo onde, futuramente, pudesse pegar e analisar. Felizmente, como já tenho muitos anos de estudo do Antigo Egipto, já sei onde encontrar a informação de que preciso e quais as fontes de referência que tenho de consultar. Além disso, também tenho uma ideia do que é que foi falado em certos textos e sei, mais ou menos, quais os que falam concretamente sobre esta temática e quais é que fogem ao que pretendo. Ainda assim é difícil, requer paciência e pode assustar um pouco ao início, mas não é nada que não se consiga fazer.

Quer então dizer que não recorreu a nenhuma peça para a investigação levada a cabo neste livro?

Não, não foi necessário. A análise de documentação, de registos em papiro, de peças e esculturas alusivas ao tema em questão já estava feita. Só tive de a encontrar.

Então e o papiro de Turim?

Isso foi diferente. Eu fiz questão de ir a Turim ver o papiro, não estudá-lo. Ele já se encontrava estudado e publica do, de maneira que, digamos, foi mais um capricho meu do que outra coisa qualquer. (risos) Aliás, estudar papiro não é fácil! Para o fazer precisamos da licença do Estado e do museu para o trazer e, quando esse trabalho já foi feito por outra pessoa, não se justifica.

Fale-me deste material. Do que se trata exactamente? E o que é que o atraiu tanto nele?

O papiro de Turim tem uma coisa muito curiosa que é o facto de não sabermos o que é que nos está a contar. Há pessoas que consideram que é uma história divertida, que nos fala de um senhor que foi prostituto e de como foi conquistando todas as senhoras que trabalhavam com ele. Por outro lado, há quem também leve as coisas mais para a política devido à presença de certos elementos, como a lira, que retratam momentos eróticos levados a cabo naquela época pelos membros da corte. No entanto, não se sabe ao certo se é um conto ou um relato verídico e há diversas interpretações deste material: uns autores escrevem uma coisa sobre ele, outros escrevem outra completamente diferente. Sabemos que sob as imagens chegaram a haver textos onde as mesmas eram descritas, mas esses textos desapareceram e é difícil saber qual o veredicto. E foi isso que me atraiu - uma pessoa tem sempre curiosidade de ver o que é que, afinal, esconde aquele misterioso documento e a inevitável esperança de lhe encontrar um sentido lógico…

No seu livro conta-nos que os antigos egípcios não tinham qualquer tabu para com a sua vida sexual, mas que, ainda assim, não gostavam de a expressar publicamente. Porque seria?

Porque as civilizações e as culturas eram muito diferentes. Em Espanha, até há cerca de vinte e cinco ou trinta anos também era um escândalo ver uma mulher nua numa capa de revista ou fazer qualquer tipo de alusões de cariz sexual publicamente. E não era por isso que as pessoas não gostavam de sexo! Com os Egípcios passou-se o mesmo. Embora não fosse ético explicitar o acto sexual, eles apreciavam-no. Os únicos sítios onde eram feitas alusões às práticas sexuais eram os túmulos e os sarcófagos. Os Egípcios eram um povo muito secreto mas também tinham as suas obscenidades - há imagens e retratos incrivelmente impudicos!

Mas será que havia uma explicação para tamanho secretismo?

Não. Eles pura e simplesmente gostavam de sexo mas não gostavam de falar dele. Pelo menos não através da arte oficial, ou seja, a que dizia respeito à corte, ao faraó e à sua família. Nesta arte eles eram muito contidos. Aliás, todas aquelas ilustrações de mulheres nuas ou vestidas com roupas transparentes que podemos encontrar nos caixões e túmulos egípcios fazem parte da arte oficial, daí que não sejam cenas explícitas, indiscretas e apenas sugiram uma tendência para o erotismo. Contudo, na arte não-oficial já era diferente. Aí encontravam-se diversos desenhos obscenos de práticas sexuais praticadas pelos egípcios, sendo esses desenhados por um escriba oficial mas não com fins oficiais - eram desenhos única e exclusivamente feitos por gosto, por vontade!

Há quanto tempo se dedica aos estudos egípcios?

Há quase vinte anos. Licenciei-me em História em 1992 mas em 1990 já lia tudo e mais alguma coisa que abordasse o Antigo Egipto. Assim que entreguei a tese e terminei o curso pude, finalmente, entregar-me de corpo e alma à investigação deste povo, já não só por prazer pessoal mas também profissionalmente.

O que é que tanto o fascina nesta civilização?

Não sei! Interesso-me por ela desde que me lembro. Mesmo quando eu ainda era pequeno, os meus livros preferidos já eram o “Tintim e os Charutos do Faraó” e o “Asterix e Cleópatra”! É uma coisa que não tem explicação…

Mas, comparando-a com as civilizações grega e romana, o que é que acha que esta tinha de especial?


Os Egípcios são muito mais divertidos, misteriosos e intrigantes. Além disso, em Espanha nem sequer existe o curso de Egiptologia e eu fiz questão de contornar isso trazendo mais desta civilização para o país.

Quando é que fez a sua primeira viagem ao Egipto?

Em 1999, pouco depois de ter entregado a tese de doutoramento. Mas não foi logo em trabalho. Esta primeira viagem foi como turista. Mal podia esperar para ver as pirâmides e, mesmo assim, cheguei ao último dia sem o ter feito! A verdade é que tinha agendado duas viagens numa só – uma delas era sozinho e outra com a agência, ou seja, com um guia -, de maneira que tinha muitos sítios onde ir. Quando cheguei ao último dia e a agência ainda não me tinha levado às pirâmides, estava desesperado e fui até à sede reclamar. Eles lá me meteram num autocarro, sozinho, e mesmo no último dia pude visitar os ditos edifícios que andava a estudar há quase dez anos.

Mas só foi em turismo dessa vez, não foi? A partir daí tem ido sempre em trabalho…

Sim. Em 2001, que foi quando lá voltei depois desta primeira viagem, já fui numa viagem de estudo. Fui assistir, juntamente com quatro colegas, a uma conferência dada por uma professora da minha área que se interessava pela mitologia deste povo. Depois disso, visitamos umas pirâmides, fizemos alguns estudos, recolhemos alguns dados... Mais tarde, em 2002, fui convidado a ir ao Egipto como guia turístico, em representação de uma empresa espanhola que tinha organizado uma viagem para os executivos.
Como eles gostavam de ser acompanhados por um egiptólogo, convidaram-me. E a partir daí começaram a surgir outras oportunidades, até que me foi proposta a integração neste grupo de investigação que vai ao Egipto todos os anos, durante várias semanas, fazer escavações, investigar, etc.

Já foi este ano?

Sim, em Janeiro. Por norma, vamos todos os anos, entre Janeiro e Fevereiro, durante seis semanas.

E esse período de tempo que o grupo lá passa é suficiente?

É! Aliás, mais do que suficiente. A informação recolhida durante as seis semanas que lá estamos é tanta que nos dá trabalho para mais de um ano em Espanha! Sempre que lá vamos temos à nossa disposição um determinado número de campas para estudar e, uma vez que muitas delas estão incutidas nas montanhas, temos de escavar à sua volta e moldar o terreno da melhor forma. No final, as coisas que descobrimos enquanto escavamos juntamente com a avultada quantidade de informação recolhida das urnas em si proporcionam-nos tempos infinitos de trabalho fora do campo.

Quer então dizer que, a cada ano que lá vão, regressam com informação nova?

Exacto. O material que nos é disponibilizado para análise já é, por si, diferente todos os anos, mas depois há sempre outras descobertas. Por exemplo, houve um ano em que descobrimos uma campa completamente intacta. Ninguém sabia da sua existência! Nós é que a encontrámos. Foi absolutamente impressionante! Numa outra vez, encontrámos uma câmara funerária que tinha uma passagem secreta, nunca antes descoberta, que ia dar a outra câmara que, por sua vez, tinha outra passagem… Enfim, foi uma experiência alucinante, única mesmo!

Dos trabalhos que realizou até hoje, é possível escolher um que seja particularmente importante para si?

Sim. Tenho um carinho especial por este último que foi publicado em Espanha, que é sobre múmias. Além de ser uma das temáticas que mais gozo me dá estudar, consegui refutar, por completo, a teoria da maldição da múmia. No meio de todos aqueles registos de pessoas que foram apontadas como vítimas mortais da maldição da múmia, consegui provar, através da minha investigação, que todas elas, na verdade, morreram de causas naturais. Um exemplo muito rápido: os célebres irmãos Carter que, movidos pela curiosidade, quiseram explorar a urna de Tutankhamon. Acreditava-se que quem perturbasse o descanso do faraó morria e Lord Carnarvon, um dos irmãos, ficou registado como vítima da maldição. Mas não é verdade. Ele morreu porque estava cego e alguém lhe disse que, para curar a cegueira, tinha de arrancar todos os dentes. Isto em 1923, quando não havia antibiótico e anestesia alguma! Ou seja, arrancou-os sem qualquer tipo de anestesia ou tratamento posterior, pelo que acabou por morrer com uma septicemia.

E o que é que está a escrever agora?

Uns artigos para a revista da National Geographic, com a qual já colaboro há algum tempo, e um livro cujo título provisório é “Isto também acontecia no Antigo Egipto”. Neste livro falo de várias práticas que também eram levadas a cabo no Antigo Egipto como, por exemplo, a violência doméstica. É, no fundo, um conjunto de pequenas curiosidades que quero apresentar ao público para que seja possível conhecer mais e melhor esta civilização.

E tem algum sonho por realizar?

Claro: descobrir uma pirâmide! (risos)

Acha que há alguma por descobrir?

Tenho a certeza que sim. Há um investigador búlgaro que fala de um faraó cuja pirâmide ainda não foi descoberta. Por norma, na civilização egípcia, as pirâmides, embora pertencessem a dinastias diferentes, eram construídas em linha recta e, com base nesta convenção, já houve um grupo que determinou as coordenadas e decidiu iniciar as escavações em busca desta pirâmide perdida. Pelo que sei, já foram até encontradas pistas que provam a existência desta pirâmide desconhecida uma vez que, antigamente, as pessoas eram sepultadas em redor das pirâmides e isso se está a verificar. A meu ver há sempre coisas por descobrir. Resta haver tempo e paciência para as encontrar.

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