Lars Kepler

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Eles são um casal mas escrevem pelo nome de uma única pessoa. Alexandra e Alexander Ahndoril decidiram usar o nome de Lars Kepler naquela que é a sua primeira aventura no campo de literatura policial. “O Hipnotista” é hoje reconhecido internacionalmente pela genialidade do enredo e similaridade com o célebre trabalho de Stieg Larsson. Primeiro de uma série de oito volumes, este livro catapultou o nome de Lars Kepler para os tops literários de todo o mundo. Apesar de ser filha de mãe portuguesa, Alexandra nasceu e viveu toda a sua vida na Suécia, onde há dezoito anos divide casa com o marido e também escritor Alexander. Numa visita a Portugal, o casal não deixou de nos presentear com uma fantástica entrevista cheia de surpresas e empolgantes revelações.

Como é que surgiu a ideia para “O Hipnotista”?

Alexandra: Nós achámos que usar um hipnotista como chave de um policial era uma grande ideia. Afinal de contas, a solução para muitos crimes e mistérios exige entrar na cabeça do criminoso para perceber os seus passos e o seu comportamento. E um hipnotista consegue mesmo fazer isso. Ele entra realmente na cabeça das pessoas e vê as suas memórias através dos olhos de quem as viveu. Como o irmão do Alexander é hipnotista, - não um médico como no nosso livro, mas sim um entertainer – um dia assistimos a um dos seus espectáculos e ficámos chocados com o que vimos. Toda a gente corria para o palco porque queria ser hipnotizada! Mas aquilo era tão estranho porque quando as pessoas estavam hipnotizadas parecia que estavam a dormir. E depois o irmão do Alexander mandava-as fazer coisas tão ridículas que nós só conseguíamos sentir pena delas! Aquilo era mesmo violento. A hipnose é uma coisa muito poderosa e era um método que se encaixava perfeitamente no estilo de livro que queríamos escrever.

Mas a história é muito complexa e cheia de revelações surpreendentes. Como é que fizeram para chegar ao enredo final?

Alexandra: Nós queríamos uma história realmente emocionante em que os leitores nunca iam saber o que ia acontecer a seguir. Queríamos que as pessoas desesperassem a pensar se o criminoso era um ele ou uma ela, o que iria fazer a seguir…
Alexander: E para isso era preciso manter o mistério, portanto o thriller, o suspense, ao longo de toda a história.
Alexandra: Sim, e para definir a história e chegar ao enredo final discutimos muito. Falámos e falámos sobre a intriga, dávamos ideias novas, discutíamos essas ideias, tentávamos encontrar algo mais inovador para certas partes. Quando finalmente começámos a escrever foi como se as personagens ganhassem vida própria e soubessem o que tinham a fazer.
Alexander: Além disso, nós todos os dias escrevíamos no nosso caderno de notas e sem darmos por isso tínhamos definido diferentes ângulos para o enredo e diferentes maneiras de as coisas acontecerem. Quando achávamos que alguma coisa não estava bem ou queríamos que ficasse ainda melhor, íamos ler essas notas e ver se havia ideias que podiam funcionar melhor numa determinada parte da história.

Eram os dois escritores independentes antes de se juntarem e darem vida a Lars Kepler. O que é que vos juntou?

Alexandra: Essa decisão veio do facto de termos acabado de escrever os nossos livros ao mesmo tempo. O Alexander tinha acabado o seu livro, eu tinha acabado o meu e, dessa vez, sentámo-nos, perdidos, sem saber o que fazer. “O que é que vamos fazer agora?”, perguntámos. Até que tivemos uma ideia: “Devíamos tentar escrever juntos outra vez!”. Nós já tínhamos tentado escrever juntos antes, só que nunca funcionou! Passávamos o tempo a discutir e nunca nos entendíamos porque tínhamos estilos muito diferentes. Só que desta vez foi diferente: decidimos criar uma terceira pessoa através da nossa união como escritores. Quisemos, portanto, fazer algo totalmente diferente, que nem era meu nem do Alexander. Era, sim, da terceira pessoa que criámos. E assim demos vida a um novo estilo e a um novo género porque nunca tínhamos escrito um policial! Éramos escritores de romances.

O que é que vos levou a escrever um policial desta vez?

Alexandra: Oh, isso está relacionado como o nosso estatuto de maníacos cinematográficos! (risos) Nós já vivemos juntos há dezoito anos e todos os dias vimos, pelo menos, um filme. Os escritores precisam de imagens e é um autêntico alívio quando, depois de um dia inteiro a escrever, nos sentamos a ver um filme: é ter alguém a contar-nos uma história em vez de nós a contarmos a nossa. Além disso, não é texto mas sim imagens e é extremamente reconfortante ter os nossos olhos a olhar para um filme em vez de a ler um texto.
Alexander: É verdade, nós vemos muitos, muitos filmes e no fim de cada um discutimos o enredo e falamos das personagens chave. Gostamos de saber o que cada um de nós gosta mais e menos. E desta vez escolhemos escrever um policial porque o género de filmes que mais gostamos são aqueles cheios de mistério e thriller. Além de que, ao fim de tanto tempo a escrever romances, queríamos experimentar algo novo e completamente diferente. Por isso, quisemos criar o nosso próprio mistério, o nosso próprio thriller.

De onde veio o nome Lars Kepler?

Alexandra: Bem, ao início era para ser Lotta Kepler. Lotta é um nome feminino na Suécia. Eu sugeri Lotta e o Alexandre sugeriu Kepler.
Alexander: O Johannes Kepler foi um investigador alemão, do início do século XVII, que resolveu um dos maiores mistérios de todos os tempos. Como eu sou um grande fã do seu trabalho, quis que o apelido fosse Kepler.
Alexandra: Exacto. E quando ele sugeriu Kepler como apelido eu pensei em Lotta porque tínhamos pensado que esta terceira pessoa seria uma mulher. Mas o nome Lotta não servia! Não conseguíamos imaginar a cara da escritora com este nome. E foi aí que eu soube que não era Lotta, mas sim Lars. Porque o nosso trabalho é também um tributo a Stieg Larsson e a sonoridade do nome “Lars” era perfeita.

Então não estranham que muitos comparem o vosso trabalho e estilo com o de Stieg Larsson.

Alexandra: O trabalho do Stieg Larsson inspirou-nos muito. Não propriamente a escrita em si, mas sim o seu estilo inovador e o facto de ter escrito algo que revolucionou o policial na Suécia. Ele escreveu uma grande história e criou também um thriller magnífico entre várias personagens.
Alexander: Sim, a única diferença é que nós queríamos uma história com mais intervenção policial.
Alexandra: Isso mesmo. O Stieg Larsson tinha o seu estilo e fez algo mesmo extraordinário no mundo da literatura policial. Mas o Lars Kepler quis trazer este lado mais cinematográfico e expressivo ao leitor. Nós queríamos que lessem a história como se estivessem a ver um filme porque, quando nós estávamos a escrevê-la, era isso mesmo que acontecia: sentíamos que estávamos a ver um filme, que estávamos dentro da história. Para nós era importante escrever um livro com uma grande carga emocional e de acção porque, para além de um bom livro, queríamos que fosse um bom filme, sem partes chatas e paradas. 
Alexander: É por isso que a nossa intriga é tão diversificada e cruzamos personagens, períodos de tempo, etc. Num capítulo temos a perspectiva de uma personagem, noutro temos de outra. Portanto, fazemos com que o leitor siga diferentes pessoas, descubra diferentes segredos, opiniões e tendências. E tudo isto convida-o a criar a sua própria história a partir do que já descobriu e do que vem a descobrir ao longo do livro. 
Alexandra: Mas mesmo as personagens que criámos são muito diferentes das do Stieg Larsson. Nós fizemos questão que elas não fossem só boas ou só más. Quisemos que elas fossem reais, que agissem tal e qual como nós agimos na realidade e nas nossas relações do dia-a-dia. Por isso é que há fraquezas e traições. 
Alexander: Sim, mas isso também tem a ver com o facto de ser um homem e uma mulher a escrever. Nós queríamos que os leitores fossem igualmente homens e mulheres, por isso é que fizemos questão que as nossas personagens tivessem esta dose de complexidade.

No início, vocês não revelaram a vossa identidade. Ninguém sabia quem era o Lars Kepler, nem nunca se tinha ouvido falar dele. Porque é que não contaram a ninguém?

Alexander: Queríamos que fosse segredo! (risos)
Alexandra: Exacto! Nós nunca tínhamos escrito um policial e não queríamos que as pessoas lessem o livro como sendo nosso. A verdade é que nós somos relativamente conhecidos na Suécia como escritores de romance e não queríamos que as editoras soubessem quem estava por detrás deste policial. Hoje em dia é cada vez mais fácil fazer juízos de valor sem sabermos o suficiente para isso. Quando enviámos o rascunho para as editoras, ele foi completamente anónimo. A única forma de contacto que disponibilizamos foi o endereço de e-mail que inventamos para o Lars Kepler. Durante imenso tempo essa foi a única forma de comunicação entre nós e a editora.

Mas depois quando o livro foi publicado as pessoas ficaram muito curiosas. Conseguiram manter o segredo?

Alexandra: Não. Nós decidimos que não íamos mentir a ninguém. Se alguém viesse ter connosco e nos perguntasse se éramos o Lars Kepler nós admitíamos. Ainda assim, conseguimos esconder a verdade daqueles que não perguntavam. Por exemplo, nós nunca contámos aos nossos filhos! Só que, entretanto, as coisas atingiram dimensões inimagináveis. Toda a imprensa se pôs à procura do Lars Kepler, toda a gente queria saber quem era aquele escritor. Bem, o mistério que se criou foi tal que pareceu que nos tínhamos enfiado no nosso próprio thriller! (risos)
Alexander: Foi de loucos mesmo. Uma noite, no Verão, estávamos na nossa casa de campo, já a deitar-nos, quando, de repente, uma forte luz branca entra pela janela do nosso quarto! Fomos ver e era uma equipa de jornalistas que nos tinha descoberto. Quando eles nos viram gritaram: “Admitam! Vocês são o Lars Kepler!” (risos) E pronto, saímos e confessámos.
Alexandra: Eu acho que, se as pessoas soubessem a verdade desde o início em vez de termos mantido segredo, o livro não teria o sucesso e a fama que tem hoje. Além do mais, foi um desejo nosso: nós quisemos criar uma nova voz, ter um novo começo, completamente diferente e refrescante, sem juízos de valor, sem expectativas, sem nada. Quisemos, sobretudo, que “O Hipnotista” tivesse uma leitura justa.

Estavam à espera de tanta atenção e entusiasmo à volta do livro?

Alexander: Não. Pelo menos não desta maneira. Para nós isto ainda parece um sonho, uma fantasia. Foi muito emocionante escrever “O Hipnotista” e quando o acabámos pensámos, de facto, que era um bom livro. Mas não deixava de ser o nosso primeiro policial! Não sabíamos se as pessoas iam gostar, quais seriam as suas reacções… Enfim, tem sido tão positivo que nem dá para acreditar!

O filme de “O Hipnotista” já está em produção, não é verdade?

Alexandra: Sim, sim! Mas nós não sabemos nada sobre como é que vai ser. Queremos que seja surpresa! Como grandes fãs de filmes e cinema que somos, quando acabámos de escrever o livro esperávamos que a história pudesse vir a dar um filme. Quando nos deram a notícia de que tal ia mesmo acontecer, ficámos entusiasmadíssimos!

A série em que se insere “O Hipnotista” será constituída por oito volumes. Decidiram que seria assim antes ou depois de ser publicado e de ter todo este sucesso?

Alexander: Decidimos isso assim que começámos a escrever. Nós queríamos uma história grande, longa, onde pudesse haver mais mistério e onde o pudéssemos aprofundar. Entretanto escolhemos o nosso detective como aquela personagem que terá esse maior mistério e optámos por o ir solucionando ao longo dos livros. Desta maneira, vamos apresentando a personagem e revelando os seus segredos do passado aos poucos e poucos ao longo dos oito livros. No quinto e no sexto, essencialmente, muita coisa vai ser revelada.

Que tipo de mistério podemos esperar no próximo volume?

Alexandra: O título do segundo volume da série é “O Contrato de Paganini”. Neste livro já não vai haver hipnose. Desta vez a história vai focar-se sobre contratos que não deviam ser assinados, pesadelos, música e armas. É, de certo modo, mais psicológico.

E a acção dos livros vai decorrer sempre na Suécia?

Alexandra: Não! E até estamos a pensar em Portugal como um dos possíveis locais para a história de um próximos livros. Nós estamos sempre a tirar fotografias e a recolher notas dos sítios que visitamos. Uma vez que aqui estamos e que já estivemos antes, na nossa lua-de-mel, estamos a pensar seriamente em fazer de Portugal um dos nossos locais de mistério e crime.

Depois desta série, já pensaram no que vão fazer? Vão retomar os romances e recomeçar a escrever sozinhos ou continuarão juntos como Lars Kepler?

Alexandra: Ainda não sabemos. Contudo, uma coisa é certa: vamos fazer aquilo que nos der mais gosto na altura. Se quisermos escrever como Lars Kepler, é isso que vamos fazer. Se nos apetecer voltar aos romances e escrever cada um o seu livro, então deixamos o Lars Kepler por um tempo e dedicamo-nos a isso mesmo. Neste momento, estamos a adorar trabalhar juntos e é isso que vamos continuar a fazer. É mesmo muito bom trabalhar em conjunto e ter alguém ao nosso lado. De outra maneira estaríamos sozinhos e estaria tudo por nossa conta. Se não tivermos inspiração não temos outro remédio a não ser ir buscá-la a um sítio qualquer porque estamos sozinhos e temos de nos desenrascar. No entanto, se forem dois, as coisas são muito mais fáceis: podem-se discutir ideias, trocar opiniões, dar as nossas impressões… Nós, mesmo quando viajamos à procura de novos lugares, vamos falar com certas pessoas ou conhecer determinadas instituições, vamos sempre juntos! Tudo isto é muito importante. Além de que somos duas pessoas que sabemos como o Kepler pensa e isso facilita imenso o trabalho. É fantástico, fantástico mesmo.

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"Acredito que, assim como na nossa vida se vão sucedendo acontecimentos de todo o tipo, também na literatura se sucedem esses acontecimentos, que são expressão do que sentimos e pensamos: a criação é a forma que temos de colocar cá fora as nossas esperanças, as nossas certezas, dúvidas, as nossas ideias."
José Saramago in A Estátua e a Pedra