| Lian Hearn |
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| Escrito por Margarida Cruz | |||
| Domingo, 10 Julho 2011 21:53 | |||
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Estará a Saga dos Otori realmente terminada? Terá esta história de guerreiros, paixão, magia e vingança, passada num Japão feudal nunca antes conhecido, chegado ao fim? A autora contou tudo ao Segredo dos Livros, numa entrevista concedida, como não podia deixar de ser, no Museu do Oriente, em Lisboa, durante a sua visita a Portugal, em Maio, para participar na 81ª Feira do Livro de Lisboa e conhecer os seus fãs portugueses. Quem é a Lian Hearn? Como descreve a autora da Saga dos Otori? Essa é uma pergunta difícil... Bom, eu escolhi este pseudónimo porque sempre escrevi livros infantis e quando comecei a escrever a Saga dos Otori pareceu-me algo completamente diferente daquilo que alguma vez tinha feito. Por isso, comecei a pensar em quem estaria a escrever estes livros e lembrei-me de "Lian", a alcunha da minha infância, que corresponde à última parte de Gillian (o meu nome verdadeiro). Já "Hearn" tem a ver com o seu significado no inglês antigo, que é garça (cuja simbologia é crucial nos livros dos Otori), e com Lafcadio Hearn, um famoso americano que viajou para o Japão no século XIX e que mergulhou por completo nesta cultura. Sou uma grande fã sua porque ele fez isto numa altura em que grande parte do Ocidente tinha imensos preconceitos raciais contra o Oriente. Portanto, também o quis homenagear com a escolha do seu apelido para apelido do meu pseudónimo. No início, a verdadeira identidade de Lian Hearn era segredo. Ninguém sabia quem era, na realidade, o autor - se era homem ou mulher, se era Americano ou Japonês... Porquê? Não sei bem... Ao início foi uma ideia das editoras. Pensaram que era uma boa ideia, mesmo em questões de marketing e de vendas. Mas, depois, eu própria comecei a gostar da sensação de poder escrever sem que o mundo soubesse quem eu era. Tornou-se muito importante para mim preservar todo este secretismo. E teve algum feedback de se, na altura em que não se sabia quem realmente era, as pessoas pensavam que era um homem ou uma mulher? Bom, eu nunca imaginei que ao escolher o nome Lian, fizesse com que as pessoas o lessem como Liam, que é um nome masculino. Havia mesmo leitores a dizerem que achavam fantástico o facto de eu conseguir escrever personagens femininas tão maravilhosas sendo um homem! (risos) Portanto, sei que houve de facto muita gente a ficar surpreendida quando se soube que Lian Hearn era, afinal, uma mulher. Ninguém fazia ideia! Houve até uma vez em que fui à Feira do Livro de Frankfurt, há uns anos atrás, e me encontrei com vários dos meus editores pela primeira vez, e eles ficaram embasbacados a olhar para mim porque tinham toda a ideia que eu era um homem! (risos) Muitos dos seus fãs portugueses chegaram a pensar que era um homem, tendo em conta as batalhas que descrevia e a carga de violência que os livros tinham... (risos) Mas isso é porque eu sempre fui do tipo de rapariga que sempre gostou de brincar às batalhas em vez de brincar com bonecas! "Havia mesmo leitores a dizerem que achavam fantástico o facto de eu conseguir escrever personagens femininas tão maravilhosas sendo um homem!" (risos) O que é que a levou, então, a revelar a sua verdadeira identidade? A certa altura, tornou-se inevitável. As coisas estavam a chegar a um ponto em que não conseguia nem podia esconder mais quem eu era. As coisas mudaram muito, para si, desde então? Sinceramente, preferia quando era segredo e ninguém sabia quem eu era na realidade. No entanto, também sabia que era um segredo que me impedia de ir a Feiras do Livro como esta, aqui em Lisboa, e a tantos outros eventos interessantes para os quais era convidada e onde podia encontrar e conviver com os meus leitores. De qualquer das formas, a meu ver, é de extrema importância que um autor não se deixe tornar demasiado famoso. Um autor é alguém que absorve ideias do exterior e a melhor forma de o fazer é sem ter ninguém a saber quem somos e, dessa forma, a distorcer a realidade. Felizmente, acho que eu ainda o consigo fazer, pois não há assim tanta gente a saber o meu nome. (risos) Porquê este interesse no Japão? O que a atrai tanto neste país e cultura orientais? Bom, eu sempre me interessei pelo Japão. Desde criança que tenho esta grande paixão e, para ser sincera, não sei ao certo de onde veio nem como pode mesmo ter começado. Afinal, eu nasci em plena Segunda Guerra Mundial e o Japão era um inimigo na altura. Mas a verdade é que fiquei fascinada com esse mesmo "inimigo"! E, à medida que fui crescendo, este interesse e fascínio foram-se mantendo. Depois, quando me mudei para a Austrália, pude começar a visitar o Japão. Adorava a arte e a estética, achava a história muitíssimo interessante, a natureza era de uma beleza que nos tirava o fôlego... Mas mais fantástico ainda era ver a forte ligação que as pessoas tinham com a natureza. Há um grande sentimento de mercê à mãe natureza, uma extraordinária ligação de submissão às suas forças, sejam elas boas ou más. "Preferia quando era segredo e ninguém sabia quem eu era na realidade." Apesar de fictício, o universo fictício da Saga dos Otori remete-nos para o Japão feudal... Sim. O cenário da acção está muito próximo da História japonesa em si, mas eu achei ainda mais interessante aplicá-lo a uma história de fantasia. Deu-me liberdade para me manter fiel à minha própria história e fez com que não tivesse de me preocupar em seguir à risca os factos verídicos. Foi difícil escrever sobre uma cultura que não conhecia, que não era a sua? Bom, senti várias coisas a esse respeito. Por um lado não conseguia parar de me perguntar porque é que eu estava a fazer tal coisa - a escrever sobre uma outra cultura. Por outro, estava aterrorizada, pois era um grande risco. Eu não queria fazê-lo. Aliás, ao longo de todo o processo, nunca o aprovei. Quer dizer, era uma coisa que podia ofender outras pessoas, que podia vir a ser mal visto! É por isso que digo que isto é algo que só se deve fazer com um grande cuidado. Temos de ter cuidado com aquilo que dizemos e como o dizemos, tentar não deixar que os estereótipos da nossa cultura se sobreponham... Diz que, se alguma vez quisermos fazer isso, devemos aprender parte da língua do país sobre o qual queremos escrever. Porquê? A meu ver, deve-se ter uma ideia de como é que são os nativos, daquilo que os move, e a melhor maneira de o fazer é estudar a sua língua. Todas as culturas escrevem a sua História na sua própria língua e de acordo com a sua visão dos acontecimentos. Para mim é crucial ser-se capaz de ler a História de uma cultura escrita por ela própria em vez de por outros que não a integram. Se formos a ver, é óbvio que um ocidental não vai escrever a história do Oriente da mesma maneira que um oriental, por muito bem que o conheça. Há diferenças. "Escrever sobre outras culturas é algo que só se deve fazer com um grande cuidado." Para além da língua, o que é que considera crucial para se escrever sobre outra cultura para além da nossa? Visitar o país e ter a possibilidade de passar algum tempo nele. Para mim isso foi muitíssimo importante pois permitiu-me reunir vários amigos japoneses a quem eu, depois, pude fazer várias questões sobre traduções e pedir ajuda com ideias que tinha. A interacção é crucial nesse sentido. Os detalhes que encontramos na história são imensos e a acção chega-nos de uma forma extremamente realista e complexa. Deve ter feito uma pesquisa muito profunda e minuciosa... Sem dúvida. Tratou-se, acima de tudo, de reunir uma série de detalhes e organizá-los de forma coerente na história que queria contar. Para escrever, precisamos de recolher todo um conjunto de detalhes que, depois de organizados, construam um mundo – o nosso mundo. Quantos anos demorou a fazê-lo? À volta de seis anos. A ideia para a história me surgiu em 1993 – ainda me lembro exactamente do momento em que a tive -, mas só comecei a escrever em 1999, que foi quando visitei o Japão pela primeira vez. No início, a Saga dos Otori estava pensada para ser uma trilogia – o "As Cinco Batalhas" era para ser o último volume da série. O que é que aconteceu para decidir escrever mais dois livros (uma nova sequela e ainda uma prequela)? (risos) Foi muito estranho... A verdade é que quando cheguei ao local onde ia começar a fazer a pesquisa para o meu novo livro, Blossoms and Shadows, fui invadida com inúmeras ideias para a história do Shigeru. E desde então que, onde quer que fosse, tinha esta massa de ideias às voltas na minha cabeça! Não conseguia deixar de pensar nelas! Por isso, decidi que tinha de escrever não só uma prequela mas também um novo livro que pusesse um fim definitivo à história. Sentiu que, afinal, ainda não estava terminado? Sim, acho que senti algo do género. As personagens ainda tinham muito para dizer e havia coisas nas suas histórias que tinham de ser esclarecidas. Além disso, houve muita gente, no fim da trilogia, a escrever-me e a dizer que queriam saber o que acontecia ao Takeo e ao filho, como é que a história continuava... Por isso, como tinha várias ideias e algumas pontas soltas em que pegar, decidi continuar e completar esta lacuna na série. "Quando terminei As Cinco Batalhas, as personagens ainda tinham muito para dizer e havia coisas nas suas histórias que tinham de ser esclarecidas." E foi fácil chegar a estas duas histórias finais tendo que em conta que não estavam inicialmente previstas? Sim. Escrevi os dois livros muito rapidamente. Terminei-os a ambos antes que qualquer um fosse publicado. Já com os primeiros três tinha acontecido o mesmo. Escrevi-os a todos mesmo antes de o primeiro ter sido sequer publicado, como se os três fossem um todo. No caso destes dois últimos (O Fio do Destino e O Voo da Garça), eles estavam como que pré-definidos, o que, a meu ver, também facilitou as coisas. Na prequela, por exemplo, eu tinha de me manter fiel a certas coisas que já tinham acontecido na trilogia. Caso introduzisse novas personagens que não aparecessem, mais tarde, na trilogia, tinha de as matar ou desaparecer com elas antes do fim do livro. E sente, agora, que a Saga dos Otori está definitivamente terminada? Bom, eu tenho dito sempre que sim... Mas há pouco tempo tive umas novas ideias, pelo que já não sei ao certo o que dizer. A verdade é que, durante muito tempo, parecia ter acabado, que as personagens tinham ido mesmo embora e há uns dias, assim de repente, surgiram-me novas ideias outra vez. Num momento parece que estava tudo arrumado e no outro a seguir tenho as personagens a falar comigo outra vez e eu a ter de escrever o que elas estão a dizer. Foi exactamente isto que aconteceu com a última sequela e a prequela da série. Acho que está a acontecer outra vez... Durante o processo de escrita costuma desenhar mapas, fazer plantas de cidades e de casas, calendários com as fases da lua... Porquê? São um suporte para si? Sim, ajudam-me imenso a manter-me a par do que é que está a acontecer. Além disso, eu trabalho em termos muito espaciais, pelo que preciso de ter uma noção exacta de onde se encontram as minhas personagens. De maneira que, embora eu escreva num caderno, tenho sempre à minha frente uns grandes quadros onde faço esquemas da acção com vários círculos, setas e assim. Ao fim e ao cabo, acabo por escrever duas vezes a história, embora em suportes diferentes. Mas é a forma como trabalho. Não me imagino sequer a fazer as coisas de outra maneira. Não que os meus desenhos sejam bons, porque não são. Antes pelo contrário, são horríveis! Mas não é essa a questão. A verdade é que me ajuda imenso visualizar tudo aquilo que quero pôr por palavras. "Escrevo duas vezes a história, embora em suportes diferentes - esquema e texto." Além da cultura japonesa, o que é que a inspirou a escrever? Acho que, talvez, o meu interesse pela forma como as pessoas agem sob stress tenha tido alguma influência. Gosto imenso de ler sobre coragem, perseverança e todas as demais qualidades que ajudam as pessoas a sobreviver. E acho que todas as minhas personagens se pautam essencialmente segundo estas qualidades. Hoje em dia, são vários os jovens interessados neste género de cultura japonesa - livros manga, séries de anime, etc. Isto é estranho para si? Estranhíssimo! (risos) Na altura em que comecei a escrever a Saga dos Otori, as pessoas achavam-me excêntrica por gostar deste género de coisas. Depois, quando os livros foram publicados, parece que, de repente, toda a gente ficou a conhecer o Japão e a adorar a sua cultura de entretenimento! Quer dizer, é estranho quando uma coisa que parece ser só nossa passa, de repente, a ser de toda a gente! Acha que, de certa forma, mostrou o Japão aos seus leitores portugueses? Penso que sim. Eu quis, acima de tudo, fugir ao habitual estereótipo dos ninjas e samurais. Não quis sequer usar essas palavras nos meus livros. Aliás, a Saga dos Otori é até uma espécie de história anti-samurai porque eu o que eu queria era contar a realidade vivida neste país (o Japão) e não me deixar influenciar pelos clichés que existem sobre o mesmo. "A Saga dos Otori é uma história anti-samurai porque eu queria contar a realidade vivida neste país [o Japão] e não me deixar influenciar pelos clichés que existem sobre o mesmo." Nos EUA e na Austrália, a Saga dos Otori é publicada como fantasia adulta. Já no caso do Reino Unido, Alemanha e França, por exemplo, é considerada fantasia para jovens-adultos. Há ainda países que a vêem como uma série de romances históricos. Qual é a sua opinião relativamente a esta falta de entendimento entre as editoras? Não sei bem... A minha única certeza é que os livros não são, definitivamente, para crianças. Têm demasiada violência e sexo. De qualquer das formas, acho que os considero mais adultos do que juvenis. A única razão que vejo para serem considerados mais juvenis é a idade das personagens no início da saga, uma vez que são todas muito novas. Mas não sei como é que as editoras fazem este tipo de distinções, nem como é que isso afecta as vendas. Eu não penso nestes termos. Limitei-me a escrever o tipo de livro que gostava de ler. Li no seu website que não gosta de falar sobre o seu trabalho, ser entrevistada, ir a eventos, conferências e outros festivais do género, principalmente durante o processo de escrita. Porquê? Pode parecer um pouco supersticioso, mas a verdade é que sinto que, se falar no meu trabalho e nas minhas ideias enquanto as estou a trabalhar, elas podem desaparecer. Além disso, no caso da Saga dos Otori, estava preocupada em manter-me a mesma pessoa do início ao fim do processo de escrita. A verdade é que cada livro que escrevemos muda-nos enquanto pessoas. A reacção e o feedback que recebemos de fora, influencia-nos. Daí que, na minha opinião, se falarmos de mais e recebermos demasiado feedback, mudamos e deixamos de ser quem éramos. Os direitos cinematográficos da série já foram comprados. Tem notícias sobre o desenvolvimento do projecto que vai fazer da Saga dos Otori uma saga de filmes no cinema? Tenho, mas infelizmente não são boas. Parece que desistiram do projecto. É pena porque eles até tinham escrito diferentes versões do guião e as coisas até estavam a correr bem... Mas quem sabe numa outra altura? Não é algo que está completamente morto e fora de questão!
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| Actualizado em Sexta, 05 Agosto 2011 19:11 |