Luís Miguel Raposo

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Apaixonado pelo mar, conquistou Portugal com a sua primeira obra – marés de inverno -, numa homenagem a toda a magia que envolve o surf, desporto que tem vindo a praticar toda a vida. Através da melancolia e de um estilo de escrita alternativo, lida com a realidade e demais variantes das relações humanas em cada um dos seus três romances já publicados. Embora fã de romances históricos e intrigas policiais, só escreve sobre o que o incomoda e fascina. Nostálgico por natureza, anseia por uma sequela de marés de inverno. Ainda assim, para já, é altura de presentear os já fiéis seguidores com mais um perturbador e extraordinário romance – o teu relâmpago na minha paz. Numa entrevista ao Segredo dos Livros, Luís Miguel Raposo conta o mais que está por detrás do surfista que já conseguiu um lugar de destaque nas prateleiras das livrarias portuguesas.

O seu primeiro livro enquanto autor publicado envolve o mundo do surf e este volta a estar presente neste novo livro. É um mundo em que se identifica? Que o deixa confortável enquanto autor?

por ser uma paixão antiga, o surf plantou-me raízes difíceis de explicar. o surf, o relacionamento com o mar e com as ondas e connosco próprios nesses instantes, amortalhados de mar e de fascínio, faz-me ver como somos pequenos, de certo modo, ridículos, perante a imensidão da natureza, vazando-me de tudo o que não transporto para o mar e expondo-me aos meus medos mais primários, aqueles que residem dentro de nós e não encontram relação com o exterior. e, por isso, o surf estimula a vontade última de ultrapassar os muros da alma, de nos vencermos a nós próprios e, simultaneamente, permite uma harmonia com os elementos naturais da terra que não tem réplica. ou seja, uma paz que, no meu caso, não encontro em mais lado nenhum. daí que, naturalmente, me sinta confortável a escrever neste contexto. não tendo uma imaginação prodigiosa, vou vasculhar nas minhas experiências, relacionais, emocionais e sensitivas, a matéria para escrever. além disso, procuro transmitir ao leitor que existe uma essência no surf que transcende a vaidade e a indústria que são actualmente a face visível e que contrasta com a intimidade, a fraternidade, a mística dos primeiros dias, os dias que recordo tão claros nas minhas memórias mais antigas e que só recupero no ciclo mais estreito dos meus amigos, também eles surfistas.
 

A sua forma de escrever é peculiar, não obedecendo às regras de aplicação de maiúsculas e minúsculas. Porque o faz? O que pretende transmitir ao leitor?

gosto de olhar para uma massa de texto homogénea, densa, sem lugares que se destaquem para nenhum efeito senão obedecer a formalismos e deixar-me impressionar. quando nada se destaca, o efeito é mais poderoso e intenso, como, por exemplo, um imenso mar vazio. as maiúsculas destacam-se em lugares onde não encontro razão para tanto, é uma componente não estética da comunicação escrita. de certo modo, é como uma cor berrante que sobressai numa tela e nos desvia a atenção. prefiro usá-las para destacar personagens importantes, lugares importantes ou uma outra coisa que seja realmente relevante para o narrador, como, por exemplo, no ‘marés de inverno’, os nomes dos amigos do vasco que, para ele, são o fulcro da própria amizade. pretendo que o leitor partilhe com o narrador aquilo que, para este, é verdadeiramente importante. depois há ainda a questão do ritmo e da musicalidade do texto. sinto as maiúsculas como uma interrupção do compasso e um ruído distractivo.

A sua escrita é sempre sentimentalmente muito intensa, relevando personagens masculinos sem medo de sentir e amar. Poderão estas emoções ser um reflexo seu?

os meus personagens são seguramente muito mais interessantes do que eu, mais reveladores e mais dependentes do coração do que da cabeça. não me identifico com nenhum deles e identifico-me com todos. o que eu faço é escrever sobre aquilo que sinto dificuldade em expressar doutro modo. é como um grito interior de revolta sobre aquilo em que não tenho domínio e, portanto, amealho no meu relacionamento com as pessoas e depois recupero com a escrita.

O que podem os seus leitores esperar deste novo livro?

neste novo livro [o teu relâmpago na minha paz] há sentimentos expostos que despertarão as emoções do leitor, como também há situações quase absurdas que provocarão risos. há lugares reais, lugares da minha terra, de Almada, em que podemos sair de casa para revisitar ou conhecer. há também um homem que não regressou da morte da mulher e onde o joão pedro já não reconhece o pai. há um joão pedro dividido entre três mulheres, um relâmpago na sua paz de sempre, exposto a todas as coisas absurdas da sua vida adulta. não há vampiros nem lobisomens, nem magias impossíveis, nem personagens fantásticos ou com poderes sobrenaturais, nem conspirações que só têm cabimento na imaginação do autor. há apenas pessoas que podiam ser eu ou qualquer outra pessoa e coisas que nos podiam acontecer. não me faz sentido escrever se não for para agitar a paz do leitor. porquê escrever de uma forma neutra se é possível fazê-lo doutra mais bela, violenta, insurgente? escrever de modo alternativo ao estabelecido é só por si um estímulo e um fim. tenho, contudo, consciência de que isso acarreta riscos, como, por exemplo, reduzir o espectro dos meus leitores e expor-me mais facilmente às opiniões. mas reajo tão bem aos elogios ao meu trabalho como quando alguém me diz que não é capaz de me ler. em ambos os casos cumpri o meu objectivo. tenho clara consciência de que não escrevo para toda a gente.

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"Quase todos os homens vivem inconscientemente no tédio. O tédio é o fundo da vida, foi o tédio que inventou os jogos, as distracções, os romances e o amor."
Miguel de Unamuno