Maria Dueñas

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É apontada como o grande sucesso espanhol depois de Carlos Ruiz Záfon. Ao fim de vinte anos de ensino universitário, Maria Dueñas descobriu o talento que a catapultou para os tops das livrarias de todo o mundo. Com “O Tempo Entre Costuras” já vendeu mais de meio milhão de cópias, vinte e sete edições e já conta com doze traduções diferentes e uma série televisiva a caminho. A história de Sira, uma modista e agente secreta que viaja entre Espanha, Marrocos e Portugal, começou por atrair alguns curiosos, mas o boca-a-boca tornou-o um autêntico fenómeno de vendas. Para a autora, foi uma questão de sorte. Para os leitores, uma surpreendente questão de talento. Em visita a Portugal, Maria Dueñas contou ao Segredo dos Livros mais daquilo que envolve a intriga histórica de “O Tempo Entre Costuras”.

O que é que a levou a dedicar-se à escrita?

Bom, a verdade é que, ao fim de 20 anos como professora universitária, sentia que já tinha a minha carreira consolidada. E isso levou-me a querer fazer algo diferente. Nas aulas e na Universidade, quer se queira quer não, acomodamo-nos a uma rotina, a uma matéria a leccionar, a um saber específico. Como sempre fui uma leitora fugaz, uma grande curiosa na área das Letras e das Humanidades, vi na escrita uma saída, digamos, uma aposta quase que natural e impossível de ignorar.

E como é que surgiu a ideia para esta história?

A primeira coisa que eu tive em mente, muito antes de ter uma história em si, era que queria recuperar os cenários do norte de África, mais concretamente de Marrocos. Os meus avós viveram lá durante muito tempo e a minha mãe também nasceu lá, de maneira que todas estas memórias, todas estas recordações estiveram sempre muito vivas durante toda a minha infância. Eles estavam sempre a contar histórias daquela altura, sempre cheios de nostalgia… No entanto, cá fora, poucos ou nenhuns eram aqueles que sabiam do que se tratava! Por isso, fiz questão de recuperar essa época, de a retratar mais uma vez - pesquisei, li imensos documentos e livros sobre a mesma, comecei a pensar numa história possível de adaptar ao assunto em questão e tudo o resto se desenrolou a partir daí.

O que é que a sua família lhe contava para ficar tão interessada neste período da história?

Não era tanto as histórias que me contavam, até porque as vidas que eles levavam lá eram vidas normais, completamente banais. Era, sim, a maneira como eles evocavam aquela época e falavam da mescla de culturas, das pessoas com um futuro incerto ou com um passado muito pouco claro e das pessoas com passados tão diferentes que se uniam e levavam uma vida em comum. Portanto, era mais o ambiente vivido que propriamente as histórias concretas que me contavam que me atraía.

E o que é que a levou a usar o nosso país como um dos panos de fundo da acção do livro?

Primeiro porque gosto muito de Portugal. Acho que tem uma grande relação com a Espanha. Afinal de contas, são os “nuestros hermanos”! (risos) Só que também acho que esta relação está muito ausente da literatura contemporânea. É algo de que se fala muito pouco! Além disso, também achava muito interessante falar do papel de Portugal durante a II Guerra Mundial. Afinal, apesar de o vosso país não ter participado oficialmente na guerra, a verdade é que foi palco de numerosas conspirações, acções de serviços secretos e histórias clandestinas muitíssimo interessantes. E quando se fala em II Guerra Mundial, as pessoas só se lembram do que fez a Alemanha, a Inglaterra, os EUA, a França e a Itália. Ninguém pensa naquilo que aconteceu durante esse período em Espanha ou em Portugal. Por isso, achei que seria de todo o interesse que a protagonista viesse a Lisboa. Até porque também era um contraste que se evidenciava entre as capitais portuguesa e espanhola, uma vez que, depois da guerra, em Espanha as coisas estavam muito cinzentas e tristes e em Portugal imperava o orgulho.

Viajou muito para recolher informação para esta obra?

Sim, sim! Fui a Marrocos, a Tanger, a Lisboa… Até fui várias vezes a cada um destes sítios, pois tinha necessidade de olhar para os edifícios, para as cidades, as ruas, tudo, e imaginar como é que seriam há 60 anos atrás.

Mas para esse tipo de informação recorreu a documentação e a testemunhos reais, não foi?

Exacto. Li muita documentação histórica, muitos livros, muitas obras daquela época… Sobre Lisboa, por exemplo, lembro-me que li imensos livros escritos por ingleses que trabalhavam para os serviços secretos britânicos e que contavam as suas memórias. Há, por exemplo, o livro sobre o embaixador britânico em Portugal, na altura, que foi escrito por um funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Enfim, as minhas fontes são, essencialmente, testemunhos, relatos pessoais.

Foi difícil conseguir que “O Tempo Entre Costuras”, o seu primeiro livro, fosse publicado? Ou as editoras ficaram logo interessadas no seu trabalho?

Não. Tive muita sorte. Muita sorte mesmo! Primeiro procurei uma agente literária, em Barcelona e depois, quando o livro ficou finalmente pronto, foi ela que ficou de tentar a sorte com as diferentes editoras. E quando fui a ver, ao fim de dois meses, já tinha os direitos adquiridos e o livro editado!

O livro chegou quase despercebido às livrarias, mas entretanto o boca-a-boca tornou-o um best-seller e hoje já conta com mais de meio milhão de exemplares vendidos. O que é que acha que impressionou tanto os leitores?

Talvez o facto de ser um livro que aborda mais do que um único género. “O Tempo Entre Costuras” é, na verdade, uma mescla de diferentes géneros literários e tem vários ingredientes distintos entre si - História, personagens históricas reais, aventura, espionagem e muita acção. Por outro lado, tem também esta recriação de cenários muito evocadores e desconhecidos, como é o caso do Norte de África, e a história pessoal desta jovem protagonista, muito inocente e mal preparada, que vai crescer e superar obstáculos, vai sofrer amores e desamores, traição, paixão, amizade… Creio que, no final, a junção de todos estes ingredientes é aquilo que faz com que as pessoas gostem e recomendem a história.

E porquê uma modista? Como é que chegou à ideia da moda como base da história?

Uma modista, porque eu queria uma mulher que, nos anos 30 e 40, fosse independente, autónoma e tivesse a sua própria forma de ganhar a vida. E naquela época, ou seja, há cerca de 80 anos, as mulheres tinham muito poucas possibilidades profissionais. No entanto, a moda - a costura - dava às mulheres a oportunidade de ganharem o seu próprio dinheiro e de serem economicamente independentes. Havia outras ocupações possíveis, como a de professora, maestrina, música, etc. Só que eram todas profissões que impossibilitavam qualquer um de viajar pelo mundo como no caso de uma modista, uma vez que implicavam um trabalho fixo. Uma modista dava-me outra liberdade, por ser independente em todos os sentidos.

Gosta de moda?

Bem, pode-se dizer que sim. Não de forma exagerada, até porque não percebo muito do assunto. Para ser sincera, até me considero uma “fashion victim”. (risos)

E este livro não veio aguçar o interesse?

Nem por isso. A moda é uma coisa que eu sigo com agrado, mas não é, nem passou a ser, uma paixão.

De onde veio esta ideia de recorrer à costura como via de comunicação e espionagem?

A espionagem é um dos meus géneros preferidos, não só de literatura, como também de cinema. Acho as tramas fantásticas! E pensei que a espionagem e a moda fossem dois mundos que se complementassem entre si. Além disso, quando se fala em espionagem, as pessoas tendem a associá-la, invariavelmente, a homens. De maneira que quis revolucionar essa ideia e escolhi uma jovem modista como espia e protagonista da história, jovem essa que, aparentemente, pertence a outro mundo, completamente distinto.

E foi fácil?

Sim. Para mim foi, de facto, muito fácil e gratificante. Quando escrevia, tinha sempre vontade e ideias para escrever mais e mais pois encontrava-me inteiramente imersa na história e certa do que ia acontecer a seguir.

Então, mas como é que sendo, ao mesmo tempo, mulher, esposa, professora e mãe, consegue arranjar tempo para escrever uma trama como esta?

(risos) Foi, de facto, complicado. Tinha de estar sempre a roubar um bocadinho de tempo aqui, outro bocadinho de tempo ali… E quando estava a trabalhar, ou seja, quando tinha de largar a escrita, estava sempre a pensar na história: como é que a ia continuar, o que é que ia acontecer no fim, porque é que acontecia isto e aquilo… Assim, quanto começava a escrever, já tinha tudo definido na minha cabeça sobre como é que a acção ia decorrer, o que fazia com que também não houvesse bloqueios, momentos de reflexão, etc., durante o processo de escrita. Era mesmo só sentar e escrever sem parar! (risos)

Já conhecia as personagens históricas que encontramos no seu livro antes ou só depois da investigação que fez para o escrever?

Só mesmo quando estava a investigar e a recolher informação para o livro. A verdade é que são personagens muito desconhecidas, que passam despercebidas a muita gente. Ironicamente, têm histórias fantásticas! Posso até dizer que as suas histórias são das mais interessantes que eu já li! Só que vamos a ver e nunca ninguém ouviu falar, por exemplo, da Rosalinda Fox.

E quando é que soube que as queria usar na sua história?

Soube desde logo, pois eram todas personagens que viveram um período crucial da história, não só de Espanha, como também da própria Humanidade – a II Guerra Mundial – e que tentaram alterar o rumo da História do Mundo. A Rosalinda Fox e o Juan Luis Beigbeder, por exemplo, lutaram para que a Espanha se juntasse aos Aliados e não aos do Eixo, através de uma tentativa de derrube do governo de Franco. Não o conseguiram fazer, mas ao menos lutaram por isso, o que, para mim, é algo de grande mérito.

Porquê a junção de personagens reais e fictícias e não se ficar só pelas fictícias ou pelas históricas?

Ao início pensei em ficar-me apenas pelas personagens histórias. As suas histórias eram, só por si, tão interessantes que só elas davam para escrever um livro inteiro, daqueles para devorar do princípio ao fim. Só que entretanto também pensei que gostava de escrever alguma ficção, pelo que decidi misturar as duas coisas: realidade e ficção.

O que é que faltava sem a ficção?

Havia certas coisas sobre as vidas das personagens históricas, coisas mais pessoais, que eu não conhecia nem tinha forma de lhes aceder. Então, precisava de inventar determinadas situações, não de forma exagerada, mas sim sustentada – neste caso, sustentada em factos históricos. No entanto, tinha de estar sempre atenta a este equilíbrio entre ficção e realidade, de maneira a que as coisas não ficassem tendenciosas nem para o verídico nem para o irreal. Eu não queria que fosse um livro histórico, mas também não queria que fosse apenas um romance de ficção.

Nas descrições que encontramos sobre o seu livro podemos ler que, no cenário de “O Tempo Entre Costuras”, as aparências dizem pouco daquilo que de facto acontece. O que quer isto dizer? Estará só relacionado com a comunicação de informações através da costura?

Essencialmente sim, mas não só. “O Tempo Entre Costuras” baseia-se muito no oculto. Ninguém é quem diz ser. Há muitos impostores, muitos oportunistas e são várias personagens que nos surpreendem com coisas inesperadas e polémicas. Nenhuma personagem é estática e constante do início ao fim do livro. Todas mudam. Algumas porque a vida a assim obriga, outras porque têm uma dupla cara, como o Ramiro, que é o grande traidor, e o Marcus Logan que não é quem diz ser… Portanto, todos têm uma outra faceta e acabam por revelá-la num determinado momento do livro.

O livro conta-nos uma história de amor, de conspirações, de política, de espionagem, de sonhos, da guerra colonial… Porquê esta conjugação de tantos elementos?

Porque é assim que a vida é na realidade. Eu sempre quis fazer uma história com muitas vertentes, com muitas caras, pois só assim conseguiria um reflexo da vida, ou seja, um retrato fiel de como as coisas se passam na realidade. Todos nós podemos ser profissionais, familiares, amigos… A vida é uma mescla de muitas coisas. E, sendo o livro o relato da vida da Sira, era essencial pegar em todas estas facetas que fazem parte do nosso quotidiano.

Vamos poder contar com mais romances seus?

Com a Sira, não. Há imensos leitores a pedirem outra história com a Sira, uma vez que o final deste livro é deixado um pouco em aberto. Mas, por agora, não tenho programada nenhuma sequela. Estou, sim, a escrever um outro livro, muito distinto de “O Tempo Entre Costuras”. Será uma história que irá alternar entre o presente e o passado das personagens. Posso dizer que elas vão viajar até aos Estados Unidos, que vai haver muito amor, muitas memórias, muita nostalgia… Será, essencialmente, uma história de segundas oportunidades.

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