| Martin S. Braun |
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| Escrito por Margarida Cruz | |||
| Segunda, 29 Novembro 2010 22:36 | |||
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Começou a escrever aos doze anos. O que é que o levou a escrever a sua primeira história? Eu já criava, desde muito cedo, histórias na cabeça. Eu até tinha a mania de ter uma brincadeira com o meu irmão que era a de inventarmos uma história em conjunto e trazê-la para a realidade. Lançávamos as ideias, desenvolvíamos a história nas nossas cabeças e depois definíamos quem é que ia ser quem. Ou seja, no fim da história estar pronta, dávamos vida às personagens que faziam parte dela. No entanto, à medida que fomos crescendo, passámos a brincar menos frequentemente, o que me dava tempo para tornar as histórias ainda mais elaboradas. E ele foi-se fartando das minhas “complexidades”. (risos) E foi aí que comecei a escrever romances de espionagem. Mas aí já estamos a falar de treze/catorze anos, certo? Não, não. Aos doze eu já escrevia histórias elaboradíssimas de espiões e afins. Só que tinha um problema e por isso é que nunca os acabei: é que eu escrevia o primeiro capítulo e depois, quando chegava ao terceiro, já estava num estilo completamente distinto e já estava tudo uma grande confusão! De maneira que acabei por perceber que começar a escrever romances com aquela idade não era muito boa ideia e resolvi passar aos contos. Porquê? A ideia era experimentar diferentes estilos para ver se estabilizava e ganhava experiência para que, quando escrevesse romances, o conseguisse fazer de uma ponta à outra, sem problemas. É claro que, depois, o romance acabou por vir muito mais tarde. Como eu tinha na ideia que cada conto tinha de ser diferente, que o objectivo era experimentar estilos diferentes, escrever contos acabou por se tornar um desafio. Ou seja, fiquei-me por aí durante anos e anos. E adorei! Ainda hoje os contos são o meu estilo literário preferido. Então e como é que passou para o romance? A certa altura comecei, finalmente, a aperceber-me de que os contos eram interessantes, mas não me permitiam explorar as personagens como queria. Ou seja, eram engraçados, davam para trabalhar o enredo, mas não permitiam a exploração das personagens, ou seja, o seu aprofundamento. Então comecei a fazer novelas que, para mim, é o tipo de literatura mais perfeito que existe. O enredo é muito mais controlável do que num romance e, ao mesmo tempo, permite explorar as personagens ao máximo. Contudo, é o estilo que eu menos gosto de fazer e que menos gozo me dá. Fica tudo perfeitinho sim senhor, mas não dá aquela pica dos contos de mexer com o enredo e com as personagens, nem aquele prazer dos romances que é o de “chafurdar na lama”. Ou são as personagens que não querem fazer aquilo que queremos que façam, ou é o enredo que não segue o rumo que deveria seguir… Enfim, é duro, é um investimento muito grande em termos emocionais e em termos de tempo, mas que, no fim, nos dá um imenso gozo, coisa que eu até há um tempo não achava. Não gostava? Não, porque antes de escrever a história da Alex, (o meu primeiro romance bem sucedido), escrevi outros quatro que estão agora na gaveta. Eram uma porcaria, não prestavam, não funcionavam. E por causa desses insucessos, eu achava que escrever um romance era muito pesado e exigia esforço exagerado. No entanto, no fim de escrever a o primeiro volume da trilogia da Alex, o prazer foi tão grande que hoje posso dizer, com toda a certeza, que gosto de escrever romances. E porque é que a “Alex 9” funcionou e os outros não? Isso é uma excelente pergunta… (pensa durante uns momentos) Vou contar-lhe um segredo: eu desde pequeno que tinha uma história na cabeça - a minha história. Se a minha mãe se atrasasse a ir-me buscar à escola, se eu ia ao médico e tinha de ficar meia hora à espera na sala de espera, o que é que eu fazia? Punha-me a magicar, a desenvolver as minhas histórias. E lembro-me que em 1990 ocorreu-me uma história com esta comando do século XXI que era transportada para a época medieval e que se tornou, digamos, a minha história de estimação. Quando tinha insónias, magicava. Quando estava à espera de alguma coisa ou sem fazer nada, magicava. No fim, foram 20 anos a pensar nas aventuras daquela que viria a ser a nossa Alex. Não admira, então, a complexidade da história… Sim, mas era para ser bem mais complexa ainda, até porque inicialmente a história estava pensada para sete volumes! Eu, até começar a escrever a história da Alex, por volta de 2007/2008, andei sempre a mastigá-la! Conhecia muito bem as personagens, a história, aquilo que eu queria fazer com ela… Quer dizer que aquilo que lemos nos seus livros é, na verdade, a história com que sonhou durante vários anos. Para minha grande surpresa, não. Logo quando a comecei a escrever, deparei-me com determinados problemas de que não me tinha apercebido enquanto a desenvolvia na minha cabeça. Por exemplo, chegava a uma cena e não sabia se a Alex tinha ou não a espada e começava logo a pensar que, se ela tinha, então onde é que a foi buscar, se não a tinha, porquê, etc. A verdade é que, quando se está a imaginar a história, estas coisas passam-nos despercebidas, porque só pensamos em termos estéticos e nos grandes diálogos entre as personagens. Só que, depois, quando se começa a escrever, deparamo-nos com estes pequenos obstáculos que temos, obrigatoriamente, de encaixar. E isso conduz a uma modificação da história, quer se queira, quer não. Por exemplo, a versão original da Alex não tinha nem o Garic de Cary, nem o Hert de Bavra, que hoje até são personagens das que eu mais gosto. Como assim? O Garic e o Hert são das personagens mais importantes na história! Pois são. Mas a minha mulher é que, quando leu o livro, me disse que faltava um bocadinho de “24”. (risos) Nós naquela altura éramos completamente loucos pela série “24”, comprávamos os DVDs de todas as temporadas e víamos que nem uns viciados! Então, quando ela me disse isso, eu soube logo do que é que ela estava a falar e, só depois de magicar um bocadinho sobre o assunto, é que me surgiu o Garic de Cary e o Hert de Bavra, que são hoje, como disse, personagens fulcrais no livro. Ou seja, só este pequeno reparo dela veio mudar quase por completo a história da Alex. Quem leu o primeiro volume sabe o quão importantes são estas duas personagens no decurso da narrativa e consegue, portanto, imaginar o quão diferente a história devia ser sem elas. A literatura sempre fez parte do seu dia-a-dia, mas, ainda assim, não optou por uma formação nessa área, na literatura. Pois não, porque eu não sei se alguma vez quis fazer da literatura a minha vida. No outro dia, viraram-se para mim e disseram “Então tu gostas muito de escrever, não é verdade?”. E eu fiquei a pensar “Gosto de escrever? Não! Para mim, escrever é algo como ir à casa-de-banho e comer. É algo que faz parte da minha vida e, até há muito pouco tempo atrás, eu nunca pensei nela como uma opção de vida. Sempre a vi como parte dela. É uma coisa tão intrínseca em mim como um processo fisiológico! Porquê um pseudónimo estrangeiro? Não acho que seja assim tão estrangeiro! (risos) Eu senti necessidade de um pseudónimo diferente porque, se formos a ver, aquilo que eu tinha escrito antes destacava-se por completo do estilo que eu tinha agora adoptado. Mas, vistas as coisas dessa forma, o Martin S. Braun não será antes um heterónimo? Se quiser, sim. Mas eu acho que dizer que se tem um heterónimo é muito pomposo e as pessoas também começam a dizer que me estou a armar em Fernando Pessoa! (risos) Enfim, não sei o que lhe chamar. Só sei que é o nome com que eu escrevo fantasia e ficção científica! Já o Bruno Martins Soares escreve coisas completamente diferentes! E quanto às mil e uma vertentes que podemos encontrar nos seus livros: tecnologia de ponta, físico-química, estratagemas de guerra, cultura japonesa, armamento (quer medieval quer futurista)? Como é que é possível, num livro tão pequeno, incutir tamanha dose de conhecimentos? Bom, isso não era de todo a minha intenção. Foram tudo coisas que foram surgindo com o tempo… A minha intenção era pura e simplesmente contar a história da Alex, de uma forma que transmitisse um ritmo rápido e que tivesse umas especificidades interessantes. O resto foi surgindo por acaso. Eram tudo coisas que eu já sabia, que tinha aprendido com as minhas leituras. Quer dizer que não houve qualquer tipo de pesquisa? A maior parte das vezes não! A colocar as coisas nessa perspectiva, eu já faço a pesquisa para este livro há mais de 30 anos, que é há quanto tempo eu leio livros de ficção científica, espionagem, fantasia, etc! (risos) Todas essas coisas que eu conto no livro são coisas que eu fui estudando ao longo do tempo, porque me interessavam, porque eu gostava e achava que eram fora de série. Documentários sobre o espaço e os planetas, artigos sobre estratégia de guerra e afins são coisas que fazem parte do meu dia-a-dia! Então e porquê harmonizar uma época futurista com outra medieval? Eu sempre gostei de histórias onde há choque de culturas. O “Duna”, um dos grandes clássicos de choque de culturas, era a minha literatura de referência no final da minha adolescência. Depois também havia o “Senhor dos Anéis”, onde isso também acontecia, quando o Frodo é obrigado a deixar o Shire e a descobrir o resto do mundo, o “Tarzan”, o “Sandokan”, etc. Tudo aquilo que envolve a descoberta de um mundo completamente novo e viagens no tempo atrai-me. Se nós, imaginemos, fossemos, agora, transportados para a época medieval, o que os outros iam mais admirar em nós e mostrar mais interesse não eram os nossos objectos, mas sim o nosso conhecimento, aquilo que nós sabemos e podemos fazer. É isso que me interessa e que eu quis fazer na Alex. Alguma vez teve medo que não funcionasse? Não, até porque eu estive muitos anos a construir a história sem a mínima noção de que ela poderia vir a ser publicada. De maneira que, quando finalmente chegou o momento em que a decidi escrever, aquilo já fazia tanto sentido na minha cabeça, já estava tudo de tal maneira encaixado, que eu não tive, de todo, medo de que não funcionasse. Antes pelo contrário: eu achava que havia ali uma conjunção de várias técnicas de que as pessoas gostavam bastante. Uma vez no seu Facebook, comentou que fez a lista das personagens que podemos encontrar em “A Coroa dos Deuses” e que, no final, se deparou com 111. Porquê tantas? Não acha confuso – tanto para o escritor, como para o leitor? De facto, a minha esposa, que não está habituada a ler livros de fantasia, dizia logo que eram personagens a mais e que, ainda por cima, tinham todas uns nomes muito estranhos! Eu no primeiro livro já tinha sugerido à editora que se fizesse uma lista das personagens e a inseríssemos no livro. Eles não acharam necessário, mas desta vez era absolutamente crucial e, quando finalmente a resolvi fazer, dei por mim diante de cento e tal personagens! (risos) Ainda assim tenho a certeza que tenho muito menos que as do George R.R. Martin! E nunca pensou reduzir esse número? Pensei e já as tentei mesmo reduzir. Uma das coisas que eu comecei por fazer foi tentar reduzir as personagens mais pequenas: ou não lhes dava sequer um nome, ou dava, mas nunca mais lhes dava importância nenhuma. Eu acho que a proliferação de personagens acontece por uma razão muito simples: quando queremos dar importância a um determinado evento da história, fazê-lo ter um impacto brutal, tendemos a incutir-lhe um maior número de personagens. A partir do momento em que a Alex tem uma importância enorme na história, é crucial a existência de um grande número de intervenientes, para que o alcance da sua influência fique bem patente. Era impossível conceder-lhe toda a importância de que ela é digna, caso não lhe atribuísse todo este número de personagens. Os eventos não teriam metade do impacto, metade da importância desejada. Por isso, arrisquei. Percebo que pode não ser fácil, mas é preciso. Como é que baptiza as suas personagens? Onde é que vai buscar os seus nomes, os nomes dos exércitos, dos países...? Ah, eu queria que os países parecessem mesmo países e tivessem características diferentes entre si, atribuindo aparências distintas aos seus povos. Por exemplo, os tshiu têm um ar chinês, os de Tamur têm um ar mais árabe, os de Remon um ar mais francês, as tribos do Norte são um misto entre japoneses e mongóis… No final, a questão era atribuir nomes às pessoas, de maneira a que não parecessem nomes como aqueles que temos na Terra, mas que fizessem sentido naquela etnia, naquele povo. Normalmente, o que eu faço, quando estou "à rasca", é olhar para uma lombada de um livro, ver o nome do autor, trocar duas ou três letras e pronto. (risos) É claro que há nomes mais fáceis que outros. Por exemplo, tshiu e watsu foram nomes que inventei na hora. Agora Brodom, Remon e tantas outras cidades é que já são mais difíceis. Sempre pensou em Alex 9 como uma história virada para o púbico juvenil? Eu nunca pensei num público a sério. Achei sempre que as pessoas iam gostar de ler as minhas histórias visto que, afinal, elas iam de encontro àquilo que eu gostava de ler desde os meus catorze/quinze anos. Portanto, o facto de escrever a minha história para um público juvenil nunca foi uma decisão consciente, uma vez que nunca pensei assim - nunca pensei que fosse para este ou para aquele. Antes da publicação do segundo volume desta trilogia, já dizia que “A Coroa dos Deuses” estava bastante melhor que o primeiro e as primeiras opiniões já o comprovaram. O que é que nos espera, então, nesta sequela das aventuras de Alex 9? Eu costumo dizer “A Coroa dos Deuses” corresponde a “O Império Contra Ataca”, da Guerra das Estrelas, na trilogia da Alex. Não só porque os maus acabam a ganhar, mas também porque, tal como na Guerra das Estrelas, o primeiro livro é uma apresentação e só no segundo é que as coisas começam a ficar mais complexas e se começa a ir um bocadinho mais fundo. As personagens começam a ser mais complexas, mais emocionais. Como o meu público leitor é maioritariamente feminino, recebia muitas vezes pedidos de fãs a dizer que “A Guardiã da Espada” tinha batalhas a mais e romance a menos. Então, aqui, n’“A Coroa dos Deuses”, tratei de mudar isso, embora, de certa forma, também fosse inevitável. Contudo, apostar mais na componente do romance implica adensar as personagens, torná-las mais profundas, mais complexas. Mas eu acho que isso correu bem, de maneira que terminei este segundo livro a sentir que era muito mais complexo e esclarecedor, na medida em que coloca as personagens nos sítios certos para o desenlace da narrativa. Além disso, o primeiro livro é essencialmente acção, enquanto que este, para além do romance que tem a mais, implica também uma maior reflexão. Embora tenha o mesmo ritmo que o primeiro, torna-se mais denso e exige um bocadinho mais da concentração do leitor. A questão em Marte, por exemplo, vai abordar muito mais a temática da espionagem do que propriamente as batalhas, que eram tão características do primeiro volume. Segue-se, agora, o último volume de Alex 9. Já tem um final definitivo para as aventuras desta nossa heroína? O que é que nos pode revelar? Já, já tenho um final perfeitamente delineado e já o estou a escrever. Posso dizer que só se vai perceber aquilo que se passa com a Alex na última linha do último volume da trilogia, “A Magia dos Ventos”, que, por sua vez, vai ser um livro bastante diferente dos anteriores. Diferente como? Diferente porque, embora toda a linha da trilogia se foque na tentativa de saber quem é a Alex, só no último é que isso é, de facto, o propósito do livro. Em “A Guardiã da Espada”, o propósito do livro era saber como é que a Alex chega a Brodom, conhece o rei e chega à corte. Por sua vez, em “A Coroa dos Deuses”, todas as coisas são importantes: desde o casamento com o Dael, o seu relacionamento com o Jikard, a invasão dos tshiu, etc. O propósito assenta, basicamente, na união que acaba por se estabelecer entre eles os três (a Alex, o Dael e o Jikard), tornando-os uma família. No terceiro, o propósito é, indiscutivelmente, saber quem é a Alex – coisa que ela própria não sabe. E escrever exclusivamente com base neste foco confere-me oportunidades únicas que me estão a dar imenso prazer, como é o caso de poder revisitar e reescrever a infância e a adolescência dela. Já há uma possível data? O meu editor gostava que eu o acabasse até ao final do ano e eu estou a fazer os possíveis para isso. Ainda assim, o meu deadline pessoal é Março de 2011, porque sei que vai ser muto difícil acabá-lo até ao fim do ano, embora, como disse, esteja a fazer de tudo para que tal aconteça. Se não conseguir, já fico muito contente se o conseguir acabar em Março do próximo ano, porque, nestas coisas, convém sempre dar cerca de dois ou três meses de tolerância – a qualquer momento posso ter de parar e arranjar forma de resolver um determinado obstáculo com que me depare durante a escrita. A verdade é que eu sempre tive uma série de surpresas preparadas para o terceiro volume, e sempre achei que isso era bom. Contudo, estou também a descobrir uma série de oportunidades e de coisas que podem funcionar ainda melhor, e isso está-me a atrasar um pouco o ritmo da escrita, visto que tenho de perceber bem quais são todas as consequências.
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| Actualizado em Quarta, 01 Dezembro 2010 18:09 |