É considerada uma das melhores oradoras do Brasil e conta já com uma carreira de 16 anos no ensino daquilo a que chama “Artes Sensuais”. Numa tentativa de partilhar com as portuguesas o “elixir” que descobriu para as relações entre casais, Nelma Penteado escreveu “Os Segredos das Mulheres Brasileiras”. Uma vez publicado este livro um tanto ou quanto polémico pelo seu discutível conteúdo, a ex-funcionária pública brasileira veio a Portugal explicar o que faz das mulheres brasileiras um modelo a seguir e como é que a sensualidade pode ser a solução para uma vida feliz e isenta de inibições.
O que é, afinal, esta sensualidade de que nos fala no livro?
A sensualidade não é nada mais, nada menos do que ter amor pela vida e viver com intensidade. É sensual quem ama a vida, a pessoa que é, o trabalho, as relações interpessoais, etc. Quando isto acontece, uma pessoa torna-se magnética – a sedução é feita, de forma involuntária, através desta energia e determinação que chamam a atenção de todos os que nos rodeiam.
Quer dizer que não tem nada a ver com o uso de roupas ousadas e atitudes provocadoras?
Sim. Essa é uma ideia muito errada que as pessoas têm do conceito de sensualidade. Toda a gente pensa que sensualidade é usar decotes, mini-saias e botas de tacão para se exibir. Ela é vista como algo errado e inapropriado quando, na verdade, é a fonte de felicidade de muita gente. Não percebo porque é que teimam em alimentar este preconceito e viver nesta mentira…
Então e onde é que se encaixa esta ideia errada, afinal?
Isso do charme, da vaidade e de se ser boa na cama são tudo consequências da libertação dessa energia, dessa intensidade que habita em nós. Ninguém que não goste daquilo que é pode ser bom na cama. É impossível! E o mesmo acontece em termos profissionais – a partir do momento em que uma pessoa não gosta daquilo que é, então também não pode ser uma boa profissional.
E acha que não é possível distinguir diferentes tipos de sensualidade? Por exemplo, a sensualidade física e a sensualidade psicológica?
Para mim as duas formam um todo. Se uma pessoa tem sensualidade psicológica então o seu andar é mais confiante, as suas atitudes são mais determinadas, a vontade de se arranjar é maior, etc. É ela que nos faz experimentar coisas mais ousadas, querer fazer coisas novas, dar asas à nossa imaginação. Não tem nada a ver com a atitude sexy de que se fala. Tem, sim, a ver com a determinação de uma pessoa, a atitude de decisão, de conquista, de estar bem com a vida, de encará-la com um sorriso… A sedução vem da alma, da alegria de viver, não do aspecto físico.
Vistas as coisas dessa forma, a sensualidade é algo que se aprende ou que nasce connosco?
Toda a gente nasce com esta energia, esta intensidade e amor pela vida. O dia-a-dia e as coisas que nos acontecem ao longo do tempo é que a vão desgastando e destruindo.
E o que é que, a seu ver, é preciso fazer para fazer sair, de novo, essa energia?
Acreditar em nós mesmos e, por mais que custe, olhar para o lado bom da vida. Assim que readquirimos a nossa auto-estima, a sensualidade renasce e voltamos a ser as pessoas carismáticas, felizes e intensas que éramos. E quando alguém é sensual então também é, com toda a certeza, mais carismático no trabalho, na cama, na relação com os outros, etc.
E toda a gente consegue? É assim tão simples?
Dos dois milhões de mulheres para quem eu já falei, não me lembro de uma única a quem eu não tenha conseguido fazer sair e brilhar essa energia e força que é a sensualidade. Aliás, eu tenho casos interessantíssimos de mulheres que chegaram aos meus cursos a dizer que não tinham nada, que não tinham vontade de viver e que queriam acabar com a vida, mas que depois saíram com uma alegria enorme e mudaram as suas vidas de forma radical. Ainda antes de vir para Portugal, por exemplo, houve uma senhora que me entregou aquilo que era para ser a sua carta de despedida.
E como é que se sente quando alguém lhe diz que mudou a sua vida ou, neste caso, que a demoveu do suicídio? Acredita mesmo que foi isso que fez – mudar a vida de uma pessoa?
(fica muito emocionada) É difícil falar… O que eu ensino – procurar e libertar a sensualidade de cada um – tem um impacto enorme na vida das pessoas. A sensualidade envolve tudo: desde o trabalho, aos filhos, à família, ao casamento, etc. Ela dá-nos um grande impulso para cima! E isto não se aplica só a quem não está bem na vida.
Então?
É tanto para quem não está bem como para quem está. Se estamos bem, há que tratar de ficar ainda melhor. Se não estamos, então vamos tratar de estar porque enquanto respiramos temos essa hipótese. A cada novo dia que acordamos, Deus está-nos a dar uma nova oportunidade para lutar, mudar e sermos felizes! Isto tem de ser aproveitado ao máximo!
Porquê? A sensualidade é efémera?
Não, ela é eterna. Ela está sempre dentro de nós. Pode não ser visível, mas está lá. A vida dá-nos muita “pancada” e pensar que é possível estar sempre a sorrir e bem com a vida é uma ilusão. No entanto, há que saber como enfrentar essas “pancadas” e isso foi uma coisa que eu aprendi desde pequena. A minha mãe estava sempre a chamar-me a atenção para as escolhas que eu fazia nas alturas menos boas da minha vida. Ela sabia que o meu futuro dependia delas e desde cedo me ensinou o quão importante são as opções que tomamos.
Acha, portanto, que o importante é a forma como superamos os nossos problemas?
Exacto. Isso é que faz de nós as pessoas que somos. Podemos escolher fraquejar, desistir, deprimirmo-nos, enterrarmo-nos nos nossos problemas ou podemo-nos erguer, enfrentá-los e superá-los de uma maneira que nos traga vida, que nos dê energia.
Então e o que é que torna as mulheres brasileiras especiais? É essa auto-estima de que fala?
É importante frisar que todas as mulheres são especiais à sua maneira. No mundo inteiro, elas passam a vida a correr de um lado para o outro, a viver os mesmos dramas, a tentar serem felizes, a esfolar-se a trabalhar para terem dinheiro ao fim do mês, etc. Contudo, as mulheres brasileiras têm uma outra força: elas lutam constantemente para conseguir essa auto-estima, essa intensidade de viver. Não o conseguem na totalidade, claro, até porque ninguém é a super-mulher. Mas são muito festeiras, encaram tudo como um desafio, tentam sempre estar melhor na vida e não se deixam ir abaixo com facilidade.
Está a dizer que considera as mulheres brasileiras um modelo de mulher a seguir?
Não vou dizer que as mulheres brasileiras são um modelo a seguir mas vou, sim, dizer para que as outras peguem nas coisas boas que vêem em nós (as mulheres brasileiras) e as usem em seu benefício. Nós fazemos o mesmo! Agarramos em tudo aquilo que nos interesse nas mulheres portuguesas e nos pareça poder jogar em nosso favor e tentamos usufruir disso.
Como, por exemplo?
A vossa garra, a força, a determinação, o não deixarem os homens fazer de vocês gato-sapato, a beleza natural – mais natural que a das brasileiras, mas linda e encantadora -, etc. As mulheres portuguesas têm tanta coisa que as brasileiras podem e devem seguir!
Mas ainda assim, acha que não temos a mesma atitude que as brasileiras…
Mas isso tem que ver com a cultura em que se inserem, que é mais fechada e repressiva que a do Brasil. A meu ver, acho que as mulheres portuguesas estão muito subjugadas à Igreja. Não têm tanta expansividade para mostrar o que sentem como as mulheres brasileiras: são como que crianças presas que, quando têm a oportunidade de brincar, de rir, de desfrutar um momento de alegria e de felicidade, não o fazem.
E o que é que acha que podia ser feito para contrariar isso?
Primeiro que nada é preciso sair dessa amargura ancestral em que o povo português tem vivido. Depois, é preciso encarar a vida de uma outra forma e não nos reprimirmos das vontades que temos. Há que dizer “Amo-te” e “Adoro-te” as vezes que quisermos e nos apetecer, abraçar os que amamos, fazer os que nos rodeiam sentirem-se melhor, conquistar caminhos para sermos mais felizes e deixar a vida levar-nos para um lugar melhor. Há que avaliar a vida, fazer uma lista de tudo o que gostaríamos de fazer para sermos felizes, não ter medo nem reprimir as nossas vontades, fazer as pessoas à nossa volta rirem-se mais e sentirem-se bem connosco…
É isso que nos conta neste seu livro, “Os Segredos das Mulheres Brasileiras”?
Também, mas não só. Este livro foi escrito, pura e simplesmente, como uma partilha de amiga para amigas. Eram tantas as mulheres que, nas minhas viagens, me perguntavam como é que as brasileiras conseguiam chamar tanto a atenção, como é que nos arranjávamos, agíamos, o que é que fazíamos com os homens, etc. E qual não é o meu espanto, quando eu vou à Internet ver da informação que havia sobre nós, e me deparo com este preconceito generalizado de que as mulheres brasileiras são todas umas putas, umas cabras, não valem nada, dançam em bares, despem-se para todos os homens… Fiquei passada! Literalmente passada!
Por ser um preconceito generalizado?
Exactamente! É claro que há mulheres brasileiras com este tipo de conduta errada. Estaria a mentir se dissesse que não. Mas também as há portuguesas, japonesas, italianas, suíças, russas, etc., não há? Nós somos 96 milhões de mulheres no Brasil. Alguma vez era possível que fossemos todas iguais umas às outras? É completamente impensável e intolerável que se generalize uma situação de milhares ou, no máximo, de um milhão para 96 milhões e acusar-nos de sermos algo que não somos. Desde quando é que 1% de uma população pode ser uma referência para essa mesma população?
E acha que o seu livro deita por terra esse preconceito?
Eu penso que sim. Pelo menos eu fiz de tudo o que tinha ao meu alcance para que isso acontecesse. Para que os homens e as mulheres do resto do mundo deixassem de olhar para as brasileiras como este tipo de material de consumo. Eu fiquei a saber de mulheres brasileiras que, lá fora, se fazem passar por espanholas para conseguir alugar uma casa ou um quarto, que vão no elevador e falam espanhol para não serem discriminadas. Mas o que é isto?!
Mas, assim, há duas perspectivas das mulheres brasileiras: uma positiva e uma negativa…
Pelos vistos sim. Mas eu não estava, de todo, a par da negativa. No entanto, apesar do choque, agarrei-me a essa ideia deturpada que têm de nós e dei-lhe a volta por cima, dando a conhecer todas as coisas boas que temos e que nos fazem felizes. Quem ler o livro só vai encontrar o que é que nós fazemos bem, ou seja, o que é que nós temos de bom e pode fazer as outras mulheres felizes.
A Nelma diz que “seduzir” implica tornar um momento comum num momento único, extraordinário. Como é que isso se faz?
É muito simples. Note-se que não é preciso ser sempre, até porque, sendo o objectivo sair-se da rotina, não podemos deixar que a fuga se torne uma nova rotina. No entanto, quando percebermos que dá para fazer qualquer coisa de diferente, há que aproveitar a oportunidade. Não estou a falar de viagens! Não é preciso ir por aí. Por exemplo: ele pediu-me um copo de água. Eu podia ter dito “Vai tu buscá-la!”. Mas, em vez disso, eu enchi o copo, peguei numas pétalas de rosa, espalhei-as pelo pires onde ia o copo e escrevi um bilhete a dizer “És o único capaz de matar a minha sede de amor”. Só aí lhe levei o copo. E era uma simples água! Mas acha que ele a vai esquecer assim tão cedo? Não vai, porque eu transformei um momento comum, completamente banal, em algo de extraordinário e especial. A vida dá-nos muitas oportunidades para podermos fazer coisas destas. Nós é que não as aproveitamos!
E porque é que acha que isso acontece?
Porque as pessoas são muito cinzentas, ignoram estas oportunidades e deixam as relações caírem na rotina. Só que é um erro tão grande. Há muitos casais que se separaram e que podiam continuar juntos se alimentassem a relação através destes pequenos gestos. Eles são a chave para que o fogo da paixão não se apague. E se nós formos a ver o quanto as pessoas ficam atentas, a importância que elas dão a este tipo de gestos, não é difícil fazê-los. A verdade, embora não pareça, é que toda a gente carece deste tipo de carinho. E nós temos de viver o nosso filme! Temos de o trazer para a nossa vida!
Sim, mas nos dias de hoje qualquer um é criticado por estar a querer viver um sonho em vez de encarar a realidade…
Pois é, mas quem é que vai morrer feliz? São essas pessoas? São elas que nos dão um ombro para chorar e bater à porta para perguntar “Está tudo bem? Precisas de alguma coisa?”? São elas que sabem o que é que nós precisamos para sermos felizes? Não, pois não? Então porque é que eu hei-de lhes ligar e de dar importância àquilo que elas me dizem?
A seu ver, quais são as maiores armas de sedução dos homens?
A meu ver, a reciprocidade. Os homens têm de perceber as coisas que uma mulher faz – ela faz-lhe companhia, arranja-se para ele, cozinha para ele, arruma a casa para ele, apoia-o… Os homens têm de mostrar que notam essas coisas, que dão valor a esses gestos. A atenção, o valor, a importância que nos dão, tudo isto tem um significado enorme para nós, mulheres, e muitos homens não o fazem.
E as qualidades que um homem mais aprecia numa mulher?
Companheirismo, carinho (embora não o admitam) e criatividade.





