Nicolai Lilin

Viveu uma infância em tudo diferente da nossa. Aos seis anos adquiriu a sua primeira faca. Aos dez, foi-lhe entregue a sua primeira arma de fogo. Aos doze, foi preso por homicídio. Quase vinte anos depois, Nicolai Lilin conta a história do rapaz que, a conselho dos anciãos, encontrou na violência a solução para a sobrevivência no seio do regime comunista da União Soviética. Devoto à sua comunidade Siberiana que resistia com a vida e com a morte à desonestidade dos agentes russos, Nicolai Lilin provou, em “Educação Siberiana”, estar agradecido a todos aqueles que o ajudaram a lutar por uma vida melhor, uma vida em liberdade como aquela que leva, há mais de cinco anos, no país a que pertence hoje o seu coração: Itália. Em visita a Portugal, Nicolai Lilin não deixou de dar uma entrevista ao Segredo dos Livros, onde nos falou das marcas que o passado deixou na sua alma que hoje vagueia por entre uma sociedade pacífica.

O que é que o levou a escrever sobre a sua infância?

Tudo começou com um pedido de amigos. Eles achavam a minha maneira de falar do meu passado muito interessante e, um dia, sugeriram que escrevesse algumas histórias com isso, para publicar no site da nossa associação cultural. Diziam que era uma forma de mostrar às pessoas algo completamente novo, pelo que não descansaram enquanto eu não escrevi umas pequenas histórias sobre a minha infância em Transnistria. Entretanto, enviei-as ao director do site, que me ligou, duas semanas depois, a dizer que eram histórias muito emotivas, que tinha adorado e a perguntar se as podia mostrar a alguma editora. Fiquei um tanto apreensivo, mas disse-lhe que agora as histórias eram dele e que podia fazer o que quisesse com elas. Eu só as tinha escrito para a associação, portanto agora estavam nas suas mãos e ele é que decidia que destino lhes dar. Fui a ver e acabou por dar no “Educação Siberiana”! (risos)

Quão real é esta história? Sendo um romance, supõe-se que, parte dela, seja ficção. É verdade?

Não necessariamente. Escrever um romance significa escrever numa determinada forma, não que aquilo que escrevemos seja ficção. O que eu fiz foi escrever um romance baseado nas minhas memórias, na minha experiência de vida. Peguei na paixão que nutro por essa experiência, por esse meu passado, e usei-a para escrever este livro.

Este é o seu primeiro livro e, logo nas duas primeiras semanas no mercado, vendeu mais de 28 mil exemplares. O que é que acha que, na sua história, atraiu tanto as pessoas?

Acho que tem muito a ver com o facto de eu não ser um escritor – sou apenas um rapaz de trinta anos que escreveu um livro! As pessoas gostam de ler histórias verídicas e não apenas histórias sobre uma realidade literária, ou histórias escritas por alguém de renome que se mantém, invariavelmente, longe da vida real. Penso que foi por isso que as pessoas compraram, depois leram e gostaram. Afinal, escrevi este livro para elas, sem qualquer tipo de dimensão ou esquemas psicológicos. “Educação Siberiana” é uma história muito física pois eu conto e descrevo tudo aquilo que me aconteceu. Em vez de explicar como é que o leitor ou a personagem se deve sentir, limito-me a manter o leitor dentro da história através da honestidade com que descrevo os acontecimentos e as minhas emoções. Todo aquele que lê um texto de alguém que partilha, honestamente, a história do seu passado quer saber mais sobre esse alguém. É inevitável. E é isso que eu faço.

Sei que lecciona literatura e que lida com bastantes jovens. Terá esta proximidade com os jovens algo a ver com o tipo de educação que nos descreve no livro? Haverá alguma necessidade inconsciente de saber se eles dão os passos certos na vida?

Sim. Em Itália trabalho com uma associação que tem uma escola especial para aqueles jovens que vivem situações difíceis: os que vivem em bairros sociais e à beira da miséria, os que têm problemas na família (pais na prisão ou alcoólicos, por exemplo), os que tiveram problemas com a Lei e estiveram na prisão, etc. Todos eles com idades entre os 14 e 16 anos. Por muito que se pense o contrário, não são pessoas de mau carácter nem sequer maus alunos. Aliás, são até bastante inteligentes! O meu dever para com eles é ensinar-lhes a ter uma boa relação com as letras e a literatura. Quero que eles leiam muito e que saibam quais os livros certos para eles porque muitos jovens começam a ler os piores – aqueles que não percebem, que são muito difíceis e que os revoltam. Acima de tudo, pretendo que eles não se sintam sozinhos. Através da leitura eles conhecem novas personagens e apercebem-se de que são apenas uma pequena parte do mundo, mundo esse onde todas as pessoas têm problemas e não precisam de se tornar em nenhum monstro por causa deles.

No trabalho que faz como tatuador, restringe-se às tatuagens Siberianas ou desenha de tudo um pouco?

Eu não sou tatuador. Não trabalho por dinheiro e nem sequer tenho uma loja, pelo que não é sensato proclamar-me tatuador. Há uma grande diferença entre desenhar tatuagens pela arte e fazê-lo como fonte de recursos para sobreviver. Eu só as faço pela arte – acredito piamente naquilo que significam. Além disso, só as desenho em pessoas de quem eu goste e com quem tenha confiança: os meus amigos ou outras pessoas que se interessem por mim e pelo meu passado e com quem eu tenha uma boa relação. Não tenho qualquer interesse económico naquilo que faço e, por nisso, nunca peço dinheiro pelas tatuagens. Depois há também que ter em conta que ninguém me pode pedir o que quer que eu desenhe – se alguém quiser que o tatue, então eu decido o que tatuar.

Porquê?

Porque, para mim, a pele humana é como um papel em branco. Assim, se alguém me pedir para ser tatuado, eu desenho aquilo que quero. E só tatuagens Siberianas.

Estando o seu corpo coberto de tatuagens quer dizer que também ele é um livro com uma história escrita. É a mesma que nos conta em “Educação Siberiana”?

Eu prefiro não falar sobre o significado das tatuagens. Não é honesto fazê-lo na minha tradição. As tatuagens Siberianas existem para não se falar sobre elas – são uma forma de comunicação alternativa, uma linguagem muda. É por isso que só os da minha comunidade Siberiana sabem o significado destas tatuagens – só eles conseguem ler o que eu tenho escrito e desenhado no corpo.

Teve a sua primeira faca aos seis anos, a primeira arma de fogo aos dez e, com doze, já tinha morto alguém. Agora que está em Itália há mais de cinco anos, alguma vez teve remorsos daquilo que fez no passado? Alguma vez desejou que as coisas tivessem sido diferentes?

Não. Sabe, eu tenho boas memórias do meu passado e daquilo que conto em “Educação Siberiana”. Às vezes até sinto uma certa nostalgia porque, no meio daquilo tudo, eu vivi muitos bons momentos. Era feliz. E sei que tive uma boa infância. É claro que houve muita violência, não tenho dúvidas disso. Mas, na nossa comunidade as coisas eram assim. Além disso, a Rússia ainda é um país extremamente violento. Os russos conseguem ser assustadoramente violentos quando querem – muito mais violentos do que quaisquer outros cidadãos da Europa. A minha comunidade também era assim, embora a mentalidade não fosse a mesma. E eu nunca lamentei o que fiz. Não tenho remorsos nem quaisquer problemas de consciência com as minhas acções do passado. Sinceramente, só agradeço a Deus por ter sobrevivido até hoje e por poder, hoje, viver numa sociedade normal.

Aprendeu a matar quando ainda era muito novo e acabou mesmo por fazê-lo. Hoje em dia é uma pessoa diferente, mas será que todas as pessoas aceitam bem um passado tão obscuro? Como é que foram as reacções, no geral, daqueles que leram o seu livro?

Muitas pessoas gostaram do livro. Muitas mesmo. Recebi inúmeras mensagens através do Facebook e do meu website de leitores a felicitar-me e a agradecerem-me por lhes ter dado a conhecer este passado desconhecido da União Soviética. Contudo, também há aqueles que me odeiam. Alguns dos meus ex-companheiros da comunidade Siberiana, especialmente aqueles que sentem uma profunda nostalgia pela mesma, rejeitaram-me e desaprovaram esta exposição do nosso passado ao mundo. A verdade é que tudo isto se revela uma situação que na Rússia era vista como tabu – a imagem que deveria ser transmitida era a de que a Rússia era um país muito simpático, muito atractivo, nada de mal se passava e toda a gente era feliz. Cheguei mesmo a ter Russos a ameaçar-me pelo que fiz, que foi denegrir a imagem do país. Mas não liguei, até porque, ao mesmo tempo, recebia cartas e e-mails de pessoas que agora vivem no mundo ocidental, mas que tinham vivido na União Soviética, a agradecer-me por ter tido a coragem de contar a verdade ao mundo e a dizer que eles nunca a tiveram.

E para além desses Russos, nunca houve ninguém que revelasse repulsa ou constrangimento perante o seu passado?

Houve, claro. Já houve quem me chamasse assassino, mas sei que são pessoas com uma mente muito fechada e conservadora. Por muito que me tente justificar é impossível fazê-lo quando alguém não passou por aquilo que eu passei, não viveu aquilo que eu vivi. Ninguém consegue compreender as acções do outro se não assumir o seu lugar e souber como é lá estar. Quanto a mim, prefiro não falar mal de si porque não compreendo as coisas que faz e não sei porque é que as faz. Eu não sei como vive, não conheço o seu passado e não sei quem realmente é. Não sabendo nada disto, não a posso julgar. Por isso, quando há estas pessoas a acusar-me de ser criminoso e afins, nem sequer ligo. Não vale a pena. Além destas pessoas, há ainda aquelas que dizem que o meu livro é sobre a Máfia, portanto, sobre crime. Mas mais uma vez não ligo porque são declarações absolutamente falsas. Aliás, há inúmeros agentes da polícia que admiram o meu livro e que dizem ser um livro puramente anti-crime por falar das regras e da honestidade que os criminosos de hoje em dia não têm.

“Educação Siberiana” está agora a ser transformado em filme. Não será nada fácil expressar por imagens a realidade que nos descreve no livro, não acha?

Sim, estou ciente disso. É por essa mesma razão que não me deixo criar grandes expectativas sobre o filme. Tenho esperança de que seja um bom filme e estou a trabalhar com o Gabriel Salvator (o realizador) nesse sentido. Acredito que, juntos, vamos consegui-lo. Mas também sei que o resultado vai ser algo muito diferente daquilo que é contado no livro. É impossível. Os filmes, os livros e todas as expressões humanas são a nossa maneira de contar o nosso ponto de vista da vida, mas nunca a conseguimos mostrá-lo através da vida real. Fazemo-lo por gestos, imagens e texto. Só Deus é que consegue criar e recriar a vida. Mesmo aquilo que eu contei em “Educação Siberiana” não é fiel à realidade que eu vivi, embora eu tenha realmente vivido aqueles acontecimentos. O que acontece é que eu escrevi a história de acordo com o meu ponto de vista e tenho a certeza de que, se pedissem a outro membro da comunidade para escrever sobre ela, íamos ter uma nova história e um novo livro, completamente diferente do meu.

Como é que olha para si, hoje em dia? Como alguém que lutou pela liberdade?

Não olho para mim de nenhuma maneira em especial. Eu era apenas um miúdo que não percebia o que se passava naquela comunidade e que passava o tempo junto dos mais velhos a fazer o que eles faziam para sobreviver. Sei que fiz todas aquelas coisas porque era muito pequeno e franzino. Tinha muito medo e seguia piamente as acções dos outros, a pensar que eles é que sabiam o que era certo e o que nos fazia continuar a viver. Os anciãos tinham muita bagagem, sabiam, melhor que ninguém, como lidar com todo o tipo de situações e amavam-me.

Hoje a comunidade já não existe. O que é que aconteceu? Porque é que desapareceu?

Não sei como nem porque é que desapareceu. Eu nasci em 1980 e, na altura, as coisas já estavam a morrer – com 12 anos só me dava com pessoas que tinham entre os 80 e os 85 anos. Depois de eles falecerem, nunca mais se falou da comunidade nem das suas tradições.

Mas não havia mais crianças?

Haver, havia. Mas eram muito desligadas das nossas tradições. Encontrámo-nos há uns tempos em Transnistria para um jantar. Éramos quatro à mesa, a comer, não nos víamos há cerca de 15 anos, até que eu lhes disse “Sabem, escrevi um livro sobre nós e as tradições dos nossos avós e está a ser um enorme sucesso em Itália! Vai ser agora lançado internacionalmente e também já estão a trabalhar num filme baseado nele. Todos vocês estão na história!” Então um deles virou-se e disse-me: “Sabes, Nicolai, tens de deixar de falar nessas tretas. Porque é que não começas com um bom negócio? Porque é que escreves sobre essa porcaria? Ninguém vive disso!” Como dá para ver, são pessoas com uma mentalidade completamente diferente, que não se preocupam, de todo, com esta temática. Aliás, muitos deles até têm vergonha dos seus antepassados – de ouvir os nomes dos seus avós, as histórias das nossas tradições. Desligaram-se completamente da comunidade. Apagaram-na da sua história. Agora vivem um típico sonho Americano onde aquilo que precisam para serem felizes, como lhes perguntei, é de ter um Mercedes. É uma realidade triste, muito triste mesmo.

E quanto a si, do que é que precisa para ser feliz?

Sabe, não sei porquê mas sinto-me sempre bem comigo mesmo. Não feliz, não eufórico, mas sim satisfeito com a vida. Mesmo quando estou a passar por maus bocados e a viver situações difíceis como a guerra, fico satisfeito com isso porque sei que, no futuro, vou recorrer a esta má experiência para me compreender melhor – compreender as minhas acções e saber quais os meus limites. Para mim isto é muito importante. Eu sei que me tornei um homem na guerra e compreendo-me muito melhor a mim mesmo desde que passei pela guerra. Foi um momento de extrema relevância na minha vida, embora pareça triste de se dizer. E, agora, tenho a minha família, a minha mulher e a minha filha, os meus amigos e todas as outras relações que a vida me oferece. Sinceramente, prefiro lutar por uma boa relação em vez de sonhar com carros e uma vida de luxo, pois, para mim, esse é o maior tesouro que a vida nos dá.

Olha para as suas acções do passado como vingança? Quero dizer, vingança para com o regime?

Não, não foram vingança. Eu e os meus antepassados chamar-lhe-íamos justiça, que é completamente diferente. Sei que, hoje em dia, na sociedade moderna, a vingança está em todo o lado. As pessoas vingam-se de tudo e mais alguma coisa. É uma coisa que se integrou de tal forma nas mentalidades das pessoas que as acompanha para todo o lado e a toda a hora. E isto é mau. É horrível. O sentimento de vingança apenas destrói a nossa sociedade. Deve-se sempre pensar em justiça e nunca em vingança.

E o livro?

O livro também não. O livro é, na verdade, uma homenagem a todos aqueles anciãos que me acompanharam e que eu tanto admirei. Eram pessoas que sempre viveram na Resistência e que nunca tiveram uma vida pacífica, sem problemas. Mas, sabe, para mim o livro tem o seu lado cómico! Não é só aquela história triste e dramática que toda a gente pinta. Sei que tem muita violência e acontecimentos menos felizes, mas a verdade é que, para mim, também é extremamente divertido porque conto coisas que me aconteceram que me fizeram dar muitas gargalhadas na altura. A maneira dos mais velhos lidarem com certas situações eram, muitas vezes, de chorar a rir!

Sei que já lançou um novo livro em Itália, intitulado “Queda Livre”. O que é que podemos esperar dele?

“Queda Livre” é a sequela de “Educação Siberiana”. É sobre a guerra na Chechénia e todo o meu serviço militar. Escrevi este livro nos mesmos moldes de “Educação Siberiana” pelo que é, mais uma vez, um romance baseado em factos reais. Tentei explicar aos leitores como é que é estar na guerra, o que é que se sente, o que é que acontece… Essencialmente, conto aquilo que uma pessoa que passou muito tempo na guerra pode contar. Em vez daquilo que normalmente encontramos na televisão e nos jornais, é algo muito mais aprofundado.

E já está a trabalhar em mais algum?

Sim, estou a trabalhar no meu terceiro livro, aquele que encerra a trilogia. Será um livro sobre o regresso da guerra, a integração numa sociedade pacífica e tudo aquilo que acontece depois do nosso retorno. Vai-se chamar “A Brisa da Escuridão” e o lançamento, em Itália, está agendado para meados de Abril/Maio de 2011.

0 comentários
0 likes
Anterior: Dicionário de ImagensSeguinte: Aprilynne Pike

Comentar