Paulo M. Morais

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Revolução Paraíso”, o primeiro romance de Paulo M. Morais, acaba de ser dado à estampa pela mão da Porto Editora. Movidos por esta efeméride, fomos à fala com o autor e quisemos saber o que o levou a escolher este tema para a sua primeira obra, ele que era uma criança na época em que os acontecimentos narrados se situam. Licenciado em Jornalismo, trabalha em imprensa e multimédia, o que terá contribuído para situar a ação do romance numa tipografia entre São Paulo e o Cais do Sodré. Ali se movimentava um conjunto de personagens bem caracterizadas pelo autor que sintetizam o ambiente revolucionário dos primeiros anos do pós-25 de Abril.
Viajante e especialista em gastronomia, o Segredo dos Livros quis também saber até que ponto essa experiência influencia a sua escrita.

1.       Sendo um homem que já deu a volta ao mundo, o que o levou a escrever sobre uma época de Portugal já tão literariamente explorada?

Dar uma volta ao mundo fez-me, de certa forma, tentar entender o que é isso de ser português. E, seja lá o que for, ser português nos nossos dias está umbilicalmente ligado ao 25 de Abril de 1974. No entanto, a escolha do tema foi mais prosaica. Baseou-se num legado da minha avó paterna: um arquivo de recortes de imprensa época pós-revolucionária. Os álbuns de capa parda mantiveram-se fechados numa caixa de cartão durante anos, mas eu sentia o peso de lhes dar utilidade. Quando reabri a caixa e comecei a ler os recortes, fiquei imediatamente seduzido. Era como estar a ler um romance trágico-cómico. É certo que já existe muita literatura sobre o tema, mas eu pertenço a uma geração que nem soube o que era viver em ditadura, nem fez a Revolução dos Cravos, nem foi parte ativa do PREC. Por isso, o Revolução Paraíso foi a maneira de eu “viver” esse período riquíssimo da nossa história recente. Acredito que o 25 de Abril terá sempre um ângulo por abordar, uma história por contar.

2.       Como define a sua escrita?

A escrita, principalmente na literatura, é um processo de constante evolução. Pelo menos, eu espero que assim seja. Por enquanto tenho alguma dificuldade em definir-me; talvez os leitores consigam fazê-lo melhor. Sinto-me, acima de tudo, um contador de histórias. Gosto de criar personagens e tentar escutar com fidelidade o que elas têm para me contar.

“Pertenço a uma geração que nem soube o que era viver em ditadura, nem fez a Revolução dos Cravos, nem foi parte ativa do PREC”

3.       É um autor de influências ou de descobertas?

Acho que somos sempre um produto de influências. Podemos tentar dissimulá-las, podemos até tentar contrariá-las, mas isso não significa que lhes sejamos imunes. Desconhecemos demasiado os mecanismos da nossa memória para podermos afirmar que, quando partimos para a escrita de um romance, somos apenas uma folha em branco. Em parte sou resultado de tudo o que já li antes. E gosto de evidenciá-lo sem subterfúgios, colocar as minhas influências no papel de forma concreta, até como uma espécie de homenagem ao trabalho – e talento – de outros escritores que me proporcionaram horas de prazer literário, desde o Eça de Queirós ao José Saramago. Mas ao mesmo tempo também gosto da descoberta, da atração exercida pelo desconhecido.

“Somos sempre um produto de influências. Podemos tentar dissimulá-las, podemos até tentar contrariá-las, mas isso não significa que lhes sejamos imunes.”

4.       Tem-se dedicado a conhecer e a divulgar o arquipélago dos Açores. O que o move?

Nos últimos quatro anos tenho participado em projetos de trabalho que me fazem deslocar aos Açores uma vez por ano. Desde então que ganhei um carinho especial por aquelas ilhas. É curioso que durante a minha viagem tive a oportunidade de visitar a Nova Zelândia, país que é costume encarar-se como um destino de sonho. Do outro lado do mundo encontrei um território com muitas semelhanças ao arquipélago dos Açores. O exótico e longínquo exerce um magnetismo potente; e, no entanto, há muito prodígio aqui perto, naquelas nove ilhas açorianas no meio do Atlântico.

“Gosto da descoberta, da atração exercida pelo desconhecido”

5.       Poderemos esperar um próximo livro seu sob o cenário dos Açores? Pode levantar um pouco o véu sobre o que poderão os leitores esperar a seguir?

Sim, existe uma ideia base para um livro passado nos Açores. Mas ainda não chegou a altura de pegar nele. O meu processo de escrita passa por deixar amadurecer a ideia para um livro até ao ponto em que ela obtém um peso e uma dimensão tal que me seja impossível fugir-lhe. Nessa altura sinto que tenho de escrever esse livro; há uma urgência em desocupar o espaço que ele invadiu na minha mente. A seguir ao Revolução Paraíso os leitores podem esperar, desde já, que não fale do 25 de Abril... O novo romance será uma tentativa de entender o que é isso de nos considerarmos uma nação de poetas.

6.       Em que se inspirou para criar o prédio da Gazela Atlântica e as suas personagens?

O nome do prédio tem inspiração no universo de Eça de Queirós. E em tempos trabalhei numa revista que tinha a sua própria gráfica, experiência que serviu como ponto de partida para delinear a tipografia Gazela Atlântica. Também deambulei pelas ruas de São Paulo e do Cais do Sodré a tentar imaginar como seria a atmosfera das mesmas no pós-25 de Abril. Foi durante esses passeios que escolhi os cenários do livro. Quanto às personagens, foram aparecendo aos poucos até formarem os alicerces da Revolução Paraíso. Algumas têm convergências com pessoas que conheci, outras não, embora não existam fotocópias de pessoas reais.

“Não se pode pegar na Revolução Paraíso para aprender o que foi o período do pós-25 de Abril.”

7.       Neste livro, deverão os leitores esperar mais realidade ou mais ficção?

Ficção sustentada pela realidade. Ao longo da escrita deparei-me muitas vezes com uma dúvida teórica que tinha efeitos na prática: como é que as personagens ficcionais podem ter qualquer espécie de interesse se a realidade que estou a ler já é tão rica? Mas depois as personagens lá foram resgatando o seu espaço próprio e a parte histórica foi-se arrumando no papel de cenário. Não se pode pegar na Revolução Paraíso para aprender o que foi o período do pós-25 de Abril. Esse ensino é tarefa dos professores e dos manuais escolares, dos livros de história, dos avós e pais que contam episódios de vida aos mais novos. E, se isso for insuficiente, pegue-se no extraordinário trabalho feito pelo Adelino Gomes e José Pedro Castanheira em Os dias loucos do PREC. Eu escrevi um romance com a liberdade de até poder reinventar os factos reais. O fio condutor reside nas emoções e utopias das personagens fictícias, as quais são condicionadas por acontecimentos e figuras históricas.

“É importante ter alguém que nos retire da nossa zona de conforto, incitando-nos”

8.       Que livro tem em cima da mesa de cabeceira?

Sou um leitor relativamente rápido pelo que eles mudam com frequência. Além disso, costumo ler dois ou três livros em simultâneo. Neste momento estou embrenhado num duo: Nostromo, de Joseph Conrad, e O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel, de Mário de Carvalho.

9.       À semelhança dos membros do Segredo dos Livros, a opinião de outros leitores pode ajudá-lo na decisão do que ler a seguir?

Sem dúvida. É importante encontrarmos um crítico literário, um amigo leitor, um blogue especializado que tenha alguma concordância com as nossas preferências. Quanto maior for a identificação, maiores serão as probabilidades de gostarmos do que nos é recomendado. Dito isto, também é importante ter alguém que nos retire da nossa zona de conforto, incitando-nos a explorar géneros e estilos diferentes daquilo a que estamos acostumados. Portanto, venham daí as vossas sugestões.

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