Peter V. Brett

Ainda era o pequeno Peat quando mergulhou no universo deste género literário e conheceu as criaturas mais incríveis de todos os tempos. Licenciou-se em Literatura Inglesa e História da Arte na Universidade de Buffalo, em Nova Iorque, e trabalhou mais de dez anos na área das publicações farmacêuticas. Aos trinta e cinco anos, depois de toda uma vida em aventuras por mundos imaginários, Peter V. Brett conseguiu finalmente realizar o sonho de publicar a sua história e de ter o nome ao lado daqueles que lhe mostraram as maravilhas do fantástico. O Homem Pintado foi o seu livro de estreia no mercado, seguindo-se a sequela, A Lança do Deserto. Quase dois anos depois, os fãs desesperam pela publicação do terceiro volume do ciclo A Noite dos Demónios. Mas, enquanto o grande dia não chega, Peter V. Brett passou por Portugal e quis presentear os seus fãs com uma entrevista exclusiva ao Segredo dos Livros, onde não faltam grandes revelações e curiosidades sobre o que está por detrás desta aclamada série de fantasia.

 

O Homem Pintado foi escrito de uma forma muito peculiar – a maior parte do livro foi escrita no telemóvel durante as suas viagens para o trabalho, no metro. Como é que uma coisa destas foi possível?

(risos) Às vezes, acho que sou mais conhecido por isso do que propriamente pelo livro em si. Quando O Homem Pintado foi publicado, recebi imensa atenção por causa disso, mas a verdade é que eu não o fiz para provar nada. Fi-lo porque precisava de tempo para escrever! Eu era uma pessoa muito ocupada na altura: tinha um trabalho a tempo inteiro, do qual saía tardíssimo todos os dias, tinha casado, tinha uma vida social… Não havia mesmo muito tempo livre para me poder dedicar à escrita. Só que era uma coisa tão importante para mim, que acabei por recorrer ao tempo que despendia, de manhã, de casa para o trabalho e, à noite, do trabalho para casa.

Mas porque não em papel? Por exemplo, num caderno, num bloco de notas…?

O metro de Nova Iorque está sempre demasiado cheio para se conseguir escrever o que quer que seja em papel. Sentarmo-nos, então, é completamente impossível. De maneira que me apercebi de que a única forma que tinha para conseguir fazer alguma coisa era no meu telemóvel que, felizmente, tinha teclado querty e processador. Então comecei a escrever algumas notas e, sempre que tinha uma ideia, teclava-a no telemóvel. Mas, com o tempo, tornei-me cada vez mais rápido a escrever só com os polegares e, eventualmente, comecei a escrever alguma prosa. E foi assim que as coisas aconteceram. Foi tudo muito natural. Todos os dias, quando ia e voltava do trabalho, punha os phones para me abstrair e escrevia. Fazia à volta de trezentas palavras de manhã e outras trezentas no regresso a casa, o que, à partida, pode não parecer muito, mas, ao fim de um ano, é imenso. Aliás, em termos de percentagem, diria que 60% do livro foi, seguramente, escrito desta forma.

“Ser escritor era o sonho da minha vida.”

Era mesmo um grande sonho para recorrer a este método de trabalho…

Sem dúvida. Ser escritor era o sonho da minha vida. Além disso, era uma pessoa responsável. Depois da universidade, arranjei um trabalho, porque sabia que tinha de cuidar da minha família e que as minhas responsabilidades pessoais e profissionais estavam primeiro que tudo. Mas isso nunca me impediu de continuar a escrever e a lutar por este sonho de, um dia, conseguir ser publicado.

E quando estava a escrever O Homem Pintado, acreditava nessa possibilidade?

Não. Aliás, quando o entreguei a um agente e ele se recusou a representar-me, cheguei a escrever um outro livro, para tentar uma outra vez. Mesmo assim, não foi o suficiente. No entanto, ele disse-me que a minha escrita era boa e que, se eu voltasse ao primeiro livro que lhe tinha mostrado (a primeira versão d’ O Homem Pintado) e o reescrevesse, ia ter alguma coisa. Então voltei a pegar-lhe, repensei-o, reescrevi-o – a maior parte no metro – e foi essa nova versão que foi para as livrarias, um mês depois de a ter mostrado ao meu agente. Mas, para ser sincero, na altura estava tão descrente, que já pensava que nunca ia conseguir, nunca ia ter o meu livro publicado, e que aquela ia ser a minha última tentativa.

Quer dizer que pensou em desistir?

Não ia parar de escrever, mas estava pronto a deixar de me iludir quanto ao facto de ser suficientemente bom para fazer da escrita uma profissão. Independentemente do que tivesse acontecido (quer o meu agente tivesse ou não aceitado representar-me), sei que ia continuar a escrever, porque é uma coisa que eu adoro e que faz parte de mim. Só que a escrita é uma coisa muito pessoal e nunca sabemos como vai ser recebida pelos outros. Por isso é que sempre duvidei de mim sobre se alguma vez ia ser suficientemente bom para conseguir que os outros pagassem para ler o que eu escrevia.

Mas estava, certamente, orgulhoso do que tinha conseguido com a versão final de O Homem Pintado, ou não?

Estava. Muito. Aliás, mesmo que ninguém o quisesse publicar, eu estava tão orgulhoso daquilo que tinha conseguido fazer, que não tinha qualquer vergonha em mostrá-lo a outras pessoas. Com os outros livros que escrevi antes deste, normalmente ficava sempre um bocado embaraçado e desculpava-me com o facto de haver partes melhores e piores do que outras. O Homem Pintado foi, sem dúvida, o primeiro livro que me deu segurança e orgulho de todo o trabalho em si.

“A escrita é uma coisa muito pessoal e nunca sabemos como vai ser recebida pelos outros.”

 E quanto ao sucesso atingido? Como é que reagiu?

Fez-me acreditar que valeu o esforço. Agora sinto que tenho uma responsabilidade em tornar algo que é suficientemente bom em algo ainda melhor. Com A Lança do Deserto, por exemplo, quase que enlouqueci com tanta preocupação em fazer dele um livro digno de dar seguimento ao primeiro. Reescrevi-o dez vezes, antes de sequer o mostrar à minha editora.

Sentiu muita pressão?

Muita mesmo. Tive a sorte de já ter a história planificada antes do primeiro livro ser posto à venda.

Mas chegou a mudá-la?

Há sempre alguma coisa que muda e ia estar a mentir se dissesse que não. Quando fazemos o plano de uma história que queremos escrever, ele acaba sempre por mudar quando, efectivamente, a escrevemos. Surgem sempre outras ideias, melhores que as anteriores, e não podemos ignorá-las, só porque não era aquilo que estava planeado. Se tivermos uma ideia ainda melhor do que a anterior, então é essa que devemos querer usar. Mas o facto de ter um mapa bastante claro de como queria que a história d’ A Lança do Deserto se desenrolasse, foi uma grande, grande ajuda, porque, com o sucesso d’ O Homem Pintado e toda a pressão que daí adveio, tive de confiar naquilo que já tinha delineado para a continuação da série.

Foi difícil planificar toda esta envolvência d’ A Noite dos Demónios? Criar um mundo completamente novo, definir os vários tipos de demónios, as várias personagens, as diferentes culturas…?

Uma das razões que fez com que demorasse sete anos a escrever o O Homem Pintado – o primeiro livro da série – foi precisamente essa: o ter de construir um mundo completamente de raiz e de planificar a história que ia decorrer nele. Não posso dizer que tenha sido difícil, pois foi algo que me deu imenso prazer e que fui fazendo ao longo do tempo. As ideias foram surgindo e, quando comecei com a prosa, os detalhes tornaram-se ainda mais claros. Agora que o mundo está construído, já não tenho de me preocupar tanto com essa parte e posso focar-me na história em si, ao mesmo tempo que o vou explorando ao longo dos cinco volumes da série.

“Reescrevi dez vezes A Lança do Deserto, antes de o mostrar sequer à minha editora. Quase que enlouqueci com tanta preocupação em fazer dele um livro digno de dar seguimento ao primeiro (O Homem Pintado).”

Podemos, então, contar com cinco livros no ciclo d’ A Noite dos Demónios

Sim. Isto, sem contar com os contos que tenho vindo a escrever entre cada um dos livros e que também já estão a ser publicados. Normalmente, escrevo uma história com cerca de cem páginas sobre o passado do Arlen – o protagonista d’ O Homem Pintado – e publico-a enquanto escrevo o próximo volume da série. O primeiro conto, The Great Bazzar foi lançado no início de 2010 e o segundo, Brayan’s Gold, em Janeiro de 2011. Já falei com a minha editora portuguesa, quanto à possibilidade de os traduzirem e publicarem cá, mas ainda não está nada definido.

É possível conciliar velocidade com qualidade?

Na minha opinião, ou se tem uma ou outra. Há escritores que escrevem a uma velocidade estonteante e os fãs agradecem, pois podem ler os livros rapidamente. Mas acho que, ao escreverem tão rapidamente, esses autores não conseguem fazer um trabalho tão bom como aquele que estava ao seu alcance. E a verdade é que, daqui a dez anos, ninguém se vai preocupar com o intervalo de tempo que houve entre cada um dos livros da série. As pessoas só vão querer saber se os livros são bons ou não. Além disso, mesmo quando eu morrer, os meus livros vão continuar por cá e haverá por aí pessoas a lembrarem-se de mim. E, mesmo se ninguém se lembrar, pelo menos tenho os meus livros publicados com o meu nome na capa. Daí que faça questão de que aquilo que escreva e publique seja, de facto, algo de que me orgulhe, ao qual tenha dado o meu melhor. E se isso significa escrever mais devagar do que outros autores, assim seja.

O que é mais importante, para si, numa história?

As personagens. Para mim, são elas que fazem uma história funcionar, ou não. Ter personagens fortes e consistentes é a chave para conseguir que as pessoas se interessem pela nossa história. No meu livro, por exemplo, os demónios e a magia são apenas um pano de fundo. A parte mais interessante é, sem dúvida, a interação entre as personagens. A minha maior preocupação é criar personagens com personalidades e sistemas de crenças completamente diferentes entre si, para, depois, as poder colocar em situações, onde essas mesmas personalidades e crenças entrem em conflito. Não há nada mais fascinante do que descobrir como é que umas vão reagir na presença de outras.

“Daqui a dez anos, ninguém se vai preocupar com o intervalo de tempo que houve entre cada um dos livros da série. As pessoas só vão querer saber se os livros são bons ou não.”

E o mais difícil?

Às vezes, tenho a sensação de que o meu trabalho, enquanto escritor, é criar grandes personagens e, depois, fazer-lhes coisas horríveis. Por isso, normalmente, nas cenas onde uma das personagens está a sofrer por alguma razão em concreto, levo as coisas a um nível muito pessoal. A minha mulher até diz que, quando estou a escrever uma cena deste género, fico tão deprimido e revoltado, que ninguém pode estar ao pé de mim!

Os seus livros são particularmente obscuros. Há alguma razão especial para isso?

Apenas a de que faço questão que as minhas histórias vão de encontro ao mundo real. Penso que muitos dos livros de fantasia que li enquanto crescia – que, apesar de tudo, adorei -, são demasiado resguardados. Nunca acontece nada de mal aos protagonistas e os bons são sempre tão bonzinhos e os maus tão mauzinhos… Mas o mundo real não funciona assim. As coisas são muito mais complicadas do que isso. Hoje, se olharmos à nossa volta, temos pessoas que, ao tentarem fazer o que está certo, acabam por fazer coisas erradas. Mas, como as suas intenções eram, à partida, boas, não as podem acusar do contrário.

E é isso que tenta transmitir nas suas histórias?

Exacto. Aliás, se formos a ver, aquilo que mais distingue O Homem Pintado d’ A Lança do Deserto é o facto de os dois livros serem, na verdade, versões diferentes da mesma história. N’ O Homem Pintado, onde Arlen conta a sua versão, vemos o Jardir como o vilão. Mas depois, n’ A Lança do Deserto, temos a oportunidade de o conhecer e chegamos à conclusão de que também ele, afinal, está a tentar fazer o que é certo. Acho que as histórias contadas desta forma se tornam muito mais reais e profundas. E a verdade é que há por aí vários novos autores a entrar no mercado com esta mesma estratégia, o que faz com que o drama fantástico esteja a evoluir para outro patamar. Tudo bem, a escapatória pode ser menos feliz, mas, ao menos, é mais realista e credível em termos emocionais.

Quer dizer que há, digamos, determinadas mensagens por detrás da história do ciclo A Noite dos Demónios

Há, de facto, mensagens básicas. Não directamente sobre o mundo moderno em si, mas sim sobre o questionar aquilo que nos rodeia, enfrentar os nossos medos, em vez de fugir deles… Porque são estas coisas que nos abrem novas portas e nos levam a diferentes caminhos na vida! E há também que acreditar que aqueles que vemos como nossos inimigos, são pessoas que têm as suas razões para agir como agem. Cada um tem as suas crenças, os seus valores e os seus princípios. Podemos não concordar com eles, mas devemos, pelo menos, tentar compreendê-los e humanizar os dois lados da história.

“Não há nada mais fascinante do que descobrir como é que umas personagens vão reagir na presença de outras.”

Arlen, o protagonista d’ O Homem Pintado, é uma personagem muito curiosa. Surge na história como um herói aparentemente cliché, mas acaba por se revelar uma autêntica surpresa… Porquê esta autêntica reviravolta na personagem?

Eu queria escrever uma história com a qual as pessoas que gostassem de fantasia, se sentissem confortáveis. E o facto de começar com o Arlen numa quinta, como um rapaz absolutamente normal, que sabemos que, de uma maneira ou de outra, vai acabar por se tornar um herói, é um cliché, é certo, mas é um cliché confortável. E há uma razão para isso: querer que a personagem seja inocente e totalmente inexperiente, para que, quando for à descoberta do mundo, vá aprendendo as coisas ao mesmo tempo que o leitor. É tal e qual como quando o Tolkien pega nos hobbits e os leva para fora do Shire. Tira-os de um sítio onde tudo é pacífico e seguro e leva-os à descoberta do mundo imenso e cruel que fica para lá das suas fronteiras. Acho que, mais do que cliché, é uma ferramenta muito útil para os escritores.

Mas depois acaba por lhe atribuir uma imagem completamente diferente que contraria esta ideia inicial…

Lá está. Porque o cliché começa e acaba precisamente no facto de o Arlen ser um mero rapaz do campo que, no fim, vai ser o herói da história. Porque a verdade é que os clichés mais habituais são aqueles em que o rapaz do campo descobre que o pai é o Rei ou que tem grandes poderes mágicos, etc. Mas, com o Arlen, não há absolutamente nada de especial. Ele nem sequer é muito inteligente, forte ou bonito. É apenas mais um rapaz. Só que é um “mais um” determinado, destemido, disposto a trabalhar para atingir os seus fins. E é isso que vai fazer dele um herói, o que é, sem dúvida, mais realista do que acordar e descobrir que se é Rei ou a pessoa capaz de tirar a espada do chão. Eu tive sempre esta sensação de que as coisas eram demasiado fáceis para os heróis, no género fantástico, e não queria que fosse assim com o Arlen. Queria um herói que merecesse os seus poderes e que tivesse de sacrificar alguma coisa por isso. Se formos a ver, apesar de estar no auge dos seus poderes, o Arlen deu mão da possibilidade de ser uma pessoa normal. Isso nunca mais lhe vai ser possível. E isso é uma coisa que o mantém afastado dos outros – da sociedade, dos amigos – e que o faz preocupar-se com aquilo em que se está a tornar.

Já disse, noutras ocasiões, que se identifica, de certa forma, com ele…

Em alguns aspectos sim, noutros nem tanto. Por exemplo, ele não tem medo de nada e eu tenho medo de tudo. (risos) Mas, no que diz respeito a querer aprender sobre outras culturas e compreender os outros, é exactamente como eu, pois questiona tudo e todos. Só porque alguém lhe diz alguma coisa, ele não acredita. Há, aliás, uma vertente religiosa bastante presente no primeiro livro, onde as pessoas lhe dizem que tem de se esconder dos demónios, porque Deus assim quer e que, se não o fizer, vai sofrer as consequências. Só que não há nada que prove tal coisa, excepto um livro antigo, e o Arlen recusa-se a aceitar tal coisa. A sua viagem no livro é, no fundo, uma recusa perante o facto de se limitar a esconder e a esperar que apareça alguém e o salve. Ele decide, antes, salvar-se a si mesmo. E eu acredito piamente nisso: não podemos estar à espera que alguém apareça e nos salve. Temos de acreditar, lutar e fazer as coisas por nós mesmos.

“Há que questionar aquilo que nos rodeia, enfrentar os nossos medos, em vez de fugir deles… Acreditar que aqueles que vemos como nossos inimigos, são pessoas que têm as suas razões para agir como agem.”

O que é que o levou a escrever sob diferentes pontos de vista, em vez de se cingir apenas ao do protagonista?

A versão original d’ O Homem Pintado era unicamente sob o ponto de vista do Arlen e não funcionou. Quando se conta uma história sob o ponto de vista de uma única personagem, há sempre informação adicional que queremos dar ao leitor, mas que não podemos, porque é sobre algo que se está a passar noutra parte do mundo longe da localização do protagonista, ou porque é algo que era impossível ele saber. Há vários autores a escrever histórias sob um único ponto de vista e que depois, de uma maneira ou de outra, arranjam forma de percorrer grandes distâncias para dar determinadas informações aos leitores. Por exemplo, no início dos livros do Harry Potter, quando ele, de repente, tem aquelas dores de cabeça e consegue ver o próximo plano do Voldemort. Este tipo de ferramentas são bastante comuns entre autores, pois ajuda-os a fornecer informação importante ao leitor que, de outra forma, seria impossível, uma vez que contam a história sob um só ponto de vista e é preciso uma certa ginástica para conseguir resolver o problema. No entanto, ao optar por diferentes pontos de vista, é muito mais fácil para o autor controlar o fluxo de informação que quer transmitir ao leitor e escolher o que quer manter em segredo daquela ou da outra personagem.

Acha que foi arriscado usar demónios, ao invés das habituais criaturas fantásticas?

Na minha opinião, a maioria dos leitores do género fantástico está um bocado farta de feiticeiros, elfos e coisas do género. Eu li centenas de livros de fantasia e muitos deles seguiam essa linha de seres fantásticos. Não que não tenha gostado deles, porque adorei-os e respeito imenso o trabalho desses autores, mas não é isso que está em causa. O problema é que foi uma coisa que se tornou tão habitual nos livros de fantasia que, a certa altura, fiquei cansado de estar a ler livros sempre com as mesmas criaturas. Além disso, penso que ter muita magia numa história facilita demasiado as coisas. No final, basta acontecer algo mágico e tudo fica bem. Por isso, fiz questão de contar uma história onde houvesse pouca magia para que, quando os meus heróis conseguissem a vitória, eles a tivessem, de facto, merecido. Não vou mentir e dizer que nunca escrevi histórias com este género de criaturas, porque já. Mas, lá está, foram aquelas que ninguém queria. Acho que o mercado está a ficar saturado dessa vertente e que as pessoas estão à procura de algo novo. E a verdade é que há todo um conjunto de novos autores – Patrick Rothfuss, Scott Lynch, Joe Abercromb, etc. – que está a seguir a mesma linha de pensamento que eu e que se tem vindo a distinguir por apostar em algo inovador.

Se compararmos O Homem Pintado com A Lança do Deserto, podemos, seguramente, dizer que este último é bastante mais negro que o primeiro. Foi mais difícil escrevê-lo por causa disso?

Foi mais difícil, sim, mas, apesar de tudo, A Lança do Deserto é o meu livro preferido de entre os dois. Quando se está a escrever o primeiro livro e não sabemos se o vamos conseguir publicar, estamos constantemente concentrados no facto de o querermos vender e de querermos que as pessoas, depois, o comprem. De maneira que me resguardei um pouco n’ O Homem Pintado e optei por não lhe dar um tom tão negro como aquele que gostaria. Mas, quando assinei o contrato para mais dois livros, senti-me livre para arriscar um pouco. N’ A Lança do Deserto, por exemplo, sei que foi um risco começá-lo em Krasia e dedicar as primeiras duzentas páginas ao Jardir, em vez de pegar nas personagens do primeiro livro. Mas ainda bem que o fiz, porque acho que a história está bastante mais complexa e as pessoas podem conhecer os dois lados da história. Sei que houve leitores desiludidos por não se depararem com as suas personagens preferidas logo no início, mas o facto de ter guardado isso para o fim torna o reencontro ainda mais especial. E eu queria mesmo que as pessoas parassem e passassem algum tempo a conhecer este outro lado da história, o do Jardir, antes de voltar onde tínhamos ficado n’ O Homem Pintado.

“O tão aguardado encontro entre o Jardir e o Homem Pintado vai surpreender toda a gente. Ninguém, de certeza, vai estar à espera daquilo que vai acontecer. Vai ser épico!”

O que é que nos pode dizer do próximo volume da série, The Daylight War?

O The Daylight War vai focar-se essencialmente na conquista das Terras Verdes pelo Jardir e pelos seus exércitos. Vai haver, também, um confronto direto entre ele e o Homem Pintado. Sei que eles não se chegaram, efectivamente, a encontrar n’ A Lança do Deserto mas aqui, no The Daylight War, vão, definitivamente. E acho que vai ser um encontro que vai surpreender toda a gente, porque ninguém, de certeza, vai estar à espera daquilo que vai acontecer. Vai ser épico!

Já tem data de lançamento?

Só para 2013. Felizmente, os livros estão a vender bem e a ter cada vez mais sucesso, pelo que é provável que as traduções sejam ainda mais rápidas que as dos volumes anteriores.

Com a passagem a escritor a tempo inteiro desde que conseguiu publicar O Homem Pintado, sente-se na obrigação de seguir algum plano de escrita?

O meu objectivo é escrever mil palavras por dia. Quando sonhava em ser escritor profissional, imaginava-me a escrever numa secretária ao pé da janela, enquanto bebericava café e via as folhas a cair… (risos) Mas a realidade é bem diferente. Há imenso trabalho de escritório a fazer e tenho de lidar mais com o lado comercial do livro do que aquilo que gostaria. Além disso, o sucesso dos livros tem sido cada vez maior e isso faz com que passe dias e dias a falar com tradutores, a ajudá-los a traduzir as coisas como elas são efectivamente, a construir e a actualizar o meu site, a interagir com os leitores, a planear promoções ao livro, a falar com editoras e a negociar contratos… Infelizmente não tenho, de longe, o tempo que gostava de ter para escrever, mas faço de tudo para conseguir manter as mil palavras diárias.

“Se começar a escrever livros que não sejam tão bons como os que já escrevi anteriormente, então mais vale desistir.”

Pegando precisamente na vertente da tradução, acha que a mesma pode, por vezes, constituir um problema?

Nunca se sabe. Depende do tradutor… Tenho tradutores que me telefonam e têm longas conversas comigo, para se assegurarem de que estão a usar as palavras certas e a descrever as coisas como elas são. Mas também acontece ver o meu livro ser publicado num país qualquer, sem ter sido contactado uma única vez por causa disso. Nestes casos, como faço questão de verificar se as coisas estão, efectivamente, bem feitas, peço pessoalmente a um tradutor para comparar a versão original com a traduzida e me confirmar se está tudo bem ou não.

Normalmente, quando acaba um livro, acha que conseguiu fazer melhor do que no anterior?

Até agora, sim. Se bem que ainda não acho que sou tão bom escritor como gostaria de ser. Sinto que ainda tenho um longo caminho a percorrer. Pode acontecer, até, nunca vir a conseguir ser tão bom quanto outros autores que admiro. Mas o facto de sentir que cada novo trabalho meu é superior ao anterior é, sem dúvida, uma motivação. E espero, aliás rezo, para que continue a ser assim. Se começar a escrever livros que não sejam tão bons como os que já escrevi anteriormente, então mais vale desistir. Sei que há autores que continuam a escrever, mesmo sem terem ideias, porque lhes pagam fortunas para publicarem um livro novo de tempos a tempos. Só que, comigo, as coisas não funcionam assim. Se é para eu escrever alguma coisa, quero que seja algo onde dei tudo o que tinha a dar e não algo de que não me orgulhe, mas pelo qual me pagaram.

“Não preciso, nem quero, que leiam os meus livros e digam que estavam fantásticos e que adoraram. Isso não me ajuda em nada!”

Acha que exige muito de si?

Mais do qualquer outra pessoa. Sou o meu maior crítico: o mais duro, o mais repreensível e o mais intolerante. Mesmo quando peço às pessoas para lerem os livros antes de os entregar à editora, faço questão de lhes dizer que não quero que eles sejam simpáticos com as opiniões e que, se encontrarem alguma coisa de que não gostam, têm de me dizer o quê e porquê, porque eu quero melhorá-la. Só assim é que faz sentido pedir aos outros para lerem o que escrevi e me dizerem o que acharam. Não preciso que leiam e digam que estava fantástico e que adoraram. Isso não me ajuda em nada!

Que conselhos costuma dar àqueles que estão a tentar publicar as suas histórias?

Que tentem sempre evoluir. Não podem, nunca, pensar que estão a dar o vosso melhor e que não podem ir mais longe. Podem sempre ir mais longe. Podem sempre fazer melhor. E quando vos deitarem abaixo e disserem que não querem comprar os vossos livros, não parem. Aconteceu o mesmo comigo! Mas se for uma coisa mesmo importante para vocês, não podem desistir. Têm de continuar a praticar. Olhem para mim: levei trinta e cinco anos para conseguir vender um livro meu! Passei a vida a escrever e só agora é que, finalmente, realizei o meu sonho. E há quem leve ainda mais tempo! O importante é nunca desistir. Só vão falhar quando deixarem isso acontecer.

E àqueles que ainda não tiveram oportunidade de conhecer o seu trabalho, como descreveria os seus livros em cinco palavras?

Demónios. Trevas. Acção. Magia. Romance.

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