Bernardo

Seis horas, toca o relógio de cabeceira do Rui. É o sábado mais aguardado dos últimos tempos. Hoje partiria para a montanha para acampar e desfrutar o fim-de-semana consigo próprio. Chamava-lhe o fim-de-semana de meditação anual!

Levanta-se rapidamente, sem sono nenhum, apesar de só ter dormido quatro tal era o entusiasmo. Deixou tudo preparado na véspera para sair o mais depressa possível.

Veste-se rapidamente, dá um beijo leve na mulher que dorme do outro lado da cama e sai do quarto.

Pega na mochila de “guerra”, mete os auscultadores do mp3 e começa a ouvir em altos gritos a Avril Lavigne com o seu “Girlfriend”.

Nada melhor que uma música forte para começar este dia! – Tinha uma pasta de músicas especial para este dia.

Namoradas para lá! Este fim-de-semana sou só eu e a montanha. Nada de trabalho, mulheres ou amigos!

Pegou na sua bicicleta e pedalou até ao sopé da montanha. Parou então um pouco para descansar e comer alguma coisa. Com a pressa nem se tinha lembrado do pequeno-almoço.

Estava a começar a comer uma peça de fruta quando ouve ruído atrás de si.

– Está aí alguém?

Ouve-se mais barulho entre a vegetação e vislumbra um vulto alto e delgado a aproximar-se.

– Queria matar-me de susto?

Tratava-se de uma mulher dos seus 27 anos, um pouco mais nova que ele, aparentemente com os mesmos projectos para aquele fim-de-semana.

– Desculpa, não queria assustar-te, mas não estava à espera de encontrar alguém.

– Então pensava que a montanha era sua? Porque de outra forma qualquer pessoa pode andar por aqui não?

– Sim, claro, não me ocorreu, desculpa ok?

– Ok, sem problema. Já agora, eu sou o Bernardo.

– E eu a Rita.

– Prazer Rita. Então costumas fazer isto muitas vezes?

– Bem, bastantes, pode-se dizer. Sou treinadora de kickboxing  numa academia e tenho de me manter em forma, por isso costumo fazer este percurso uma vez por mês, para além dos treinos diários.

– Pois, isso explica a tua excelente forma física! Afinal tinha motivos para temer quem aí vinha!

– Que exagero! Não é por saber bater que ando para aí ao murro a todas as pessoas!

– Pois, mas imagina que te tinha agredido pensando que me eras uma ameaça?

– Bem, nesses termos ter-te-ia batido e não estarias aí com essa linda cara! Vais para o topo?

– Sim, vou acampar por lá até amanhã. Tenciono fazer umas escalas, ter um pouco de silêncio, relaxar e pensar um pouco na vida.

– Parece-me o meu programa! Queres fazer a subida juntos?

– Ok, vamos então?

Bernardo sentia-se no céu! Estava no seu maravilhoso fim-de-semana com uma beldade tonificada como companheira de viagem! Mas sentia uma certa apreensão, que interpretou como medo de não estar à altura de Rita na resistência física, afinal, tirando este fim-de-semana, passava os seus dias atrás de uma secretária!

Eis se não quando surge um grupo de homens que lhes cortavam o caminho. Olha para Rita e não sabe o que pensar.

– Rita, vamos voltar e seguir por outro trilho.

– Nem pensar, vai tu se quiseres! Tens medo de uns quantos?

– Olha lá, tu pensas que eu sei bater como tu? Além disso somos dois e eles seis!

– Deixa-te disso, só andam por aqui como nós.

Bernardo estranhou, uma vez que nunca tinha encontrado ninguém por ali e desta vez já estava a encontrar pessoas a mais!

Ao chegarem ao grupo são forçados a parar. E então que percebe tudo!

Rita abandona a bicicleta e dirige-se a um dos homens, beijando-o intensamente, não sem antes olhar para ele de soslaio com o ar mais diabólico que tinha visto. Já devia saber que não podia confiar em belas mulheres que lhe aparecem como que caídas do céu, já não era a primeira vez que se dava mal com elas!

– Que se passa?

– Passa-se pá, que aqui a boazona fez o seu serviço limpinho.

– Que querem?

– A tua vida!

– Mas porquê? Nem vos conheço. Eu tenho algum dinheiro…

– Cala-te! Tenho um recado da dama que encomendou o servicinho. Mandou dizer-te que não se brinca com os sentimentos de uma mulher, principalmente quando lhe prometem que é para toda a vida.

– Mas a Clara está por detrás disto? O que ela quer? Não está em Roma até ao fim do mês a trabalhar?

– Estaria, mas voltou e encontrou outra na casa dela e na sua cama, a que andas a comer.

– Bolas, mas não é nada sério, eu não a vou deixar…

– Olha, isso não me interessa. A mim encomendaram-me um serviço e é isso que vou fazer para receber o dinheirinho. Ó puto, agarra-o!

Bernardo tentou correr mas mil pensamentos o atormentavam, o peso da traição à sua mulher Clara com a colega de trabalho durante anos, a incerteza do que aconteceria, até que sente ser derrubado violentamente.

– Ó puto, segura-o aí ao pé da ravina.

– Mas o que é que me vai fazer? Deixe-me falar com a Clara!

– Devias ter pensado nisso antes!

Vê Rita aproximar-se, mas será que se chamaria Rita? E é com este pensamento que esta o empurra violentamente com um pontapé, sentindo-se voar por momentos e uma dor extrema.

Jazia no fundo de um vale encaixado, dilacerado e esvaído em sangue, perdido para o mundo, ignorado pela vida.

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