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| Bernardo |
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| Escrito por Fátima Rodrigues |
| Domingo, 09 Dezembro 2007 12:20 |
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Seis horas, toca o relógio de cabeceira do Rui. É o sábado mais aguardado dos últimos tempos. Hoje partiria para a montanha para acampar e desfrutar o fim-de-semana consigo próprio. Chamava-lhe o fim-de-semana de meditação anual! Levanta-se rapidamente, sem sono nenhum, apesar de só ter dormido quatro tal era o entusiasmo. Deixou tudo preparado na véspera para sair o mais depressa possível. Veste-se rapidamente, dá um beijo leve na mulher que dorme do outro lado da cama e sai do quarto. Pega na mochila de “guerra”, mete os auscultadores do mp3 e começa a ouvir em altos gritos a Avril Lavigne com o seu “Girlfriend”. Nada melhor que uma música forte para começar este dia! - Tinha uma pasta de músicas especial para este dia. Namoradas para lá! Este fim-de-semana sou só eu e a montanha. Nada de trabalho, mulheres ou amigos! Pegou na sua bicicleta e pedalou até ao sopé da montanha. Parou então um pouco para descansar e comer alguma coisa. Com a pressa nem se tinha lembrado do pequeno-almoço. Estava a começar a comer uma peça de fruta quando ouve ruído atrás de si. - Está aí alguém? Ouve-se mais barulho entre a vegetação e vislumbra um vulto alto e delgado a aproximar-se. - Queria matar-me de susto? Tratava-se de uma mulher dos seus 27 anos, um pouco mais nova que ele, aparentemente com os mesmos projectos para aquele fim-de-semana. - Desculpa, não queria assustar-te, mas não estava à espera de encontrar alguém. - Então pensava que a montanha era sua? Porque de outra forma qualquer pessoa pode andar por aqui não? - Sim, claro, não me ocorreu, desculpa ok? - Ok, sem problema. Já agora, eu sou o Bernardo. - E eu a Rita. - Prazer Rita. Então costumas fazer isto muitas vezes? - Bem, bastantes, pode-se dizer. Sou treinadora de kickboxing numa academia e tenho de me manter em forma, por isso costumo fazer este percurso uma vez por mês, para além dos treinos diários. - Pois, isso explica a tua excelente forma física! Afinal tinha motivos para temer quem aí vinha! - Que exagero! Não é por saber bater que ando para aí ao murro a todas as pessoas! - Pois, mas imagina que te tinha agredido pensando que me eras uma ameaça? - Bem, nesses termos ter-te-ia batido e não estarias aí com essa linda cara! Vais para o topo? - Sim, vou acampar por lá até amanhã. Tenciono fazer umas escalas, ter um pouco de silêncio, relaxar e pensar um pouco na vida. - Parece-me o meu programa! Queres fazer a subida juntos? - Ok, vamos então? Bernardo sentia-se no céu! Estava no seu maravilhoso fim-de-semana com uma beldade tonificada como companheira de viagem! Mas sentia uma certa apreensão, que interpretou como medo de não estar à altura de Rita na resistência física, afinal, tirando este fim-de-semana, passava os seus dias atrás de uma secretária! Eis se não quando surge um grupo de homens que lhes cortavam o caminho. Olha para Rita e não sabe o que pensar. - Rita, vamos voltar e seguir por outro trilho. - Nem pensar, vai tu se quiseres! Tens medo de uns quantos? - Olha lá, tu pensas que eu sei bater como tu? Além disso somos dois e eles seis! - Deixa-te disso, só andam por aqui como nós. Bernardo estranhou, uma vez que nunca tinha encontrado ninguém por ali e desta vez já estava a encontrar pessoas a mais! Ao chegarem ao grupo são forçados a parar. E então que percebe tudo! Rita abandona a bicicleta e dirige-se a um dos homens, beijando-o intensamente, não sem antes olhar para ele de soslaio com o ar mais diabólico que tinha visto. Já devia saber que não podia confiar em belas mulheres que lhe aparecem como que caídas do céu, já não era a primeira vez que se dava mal com elas! - Que se passa? - Passa-se pá, que aqui a boazona fez o seu serviço limpinho. - Que querem? - A tua vida! - Mas porquê? Nem vos conheço. Eu tenho algum dinheiro… - Cala-te! Tenho um recado da dama que encomendou o servicinho. Mandou dizer-te que não se brinca com os sentimentos de uma mulher, principalmente quando lhe prometem que é para toda a vida. - Mas a Clara está por detrás disto? O que ela quer? Não está em Roma até ao fim do mês a trabalhar? - Estaria, mas voltou e encontrou outra na casa dela e na sua cama, a que andas a comer. - Bolas, mas não é nada sério, eu não a vou deixar… - Olha, isso não me interessa. A mim encomendaram-me um serviço e é isso que vou fazer para receber o dinheirinho. Ó puto, agarra-o! Bernardo tentou correr mas mil pensamentos o atormentavam, o peso da traição à sua mulher Clara com a colega de trabalho durante anos, a incerteza do que aconteceria, até que sente ser derrubado violentamente. - Ó puto, segura-o aí ao pé da ravina. - Mas o que é que me vai fazer? Deixe-me falar com a Clara! - Devias ter pensado nisso antes! Vê Rita aproximar-se, mas será que se chamaria Rita? E é com este pensamento que esta o empurra violentamente com um pontapé, sentindo-se voar por momentos e uma dor extrema. Jazia no fundo de um vale encaixado, dilacerado e esvaído em sangue, perdido para o mundo, ignorado pela vida. |
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