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Canela e Baunilha PDF Imprimir e-mail
Escrito por Fátima Rodrigues   
09-Dec-2007

Andava cansado, os dias arrastavam-se como o cheiro da morte, perseguindo-me a cada instante, um odor intenso e inebriante, enjoativo, colava-se-me à pele que amarelecia e enrugava como uma maçã putrefacta.

A cada novo amanhecer sentia-me infeliz, cada vez com pior aspecto. Lavava-me vezes sem fim em água de rosas, mas o cansaço estava-me entranhado como o cheiro da cebola e do alho comidos crus à refeição, em que nenhuma água, sabão ou colónia fazem desaparecer.

Tinha perdido a motivação para viver, não conseguia mais sonhar, perder-me em prados de aroma a flores do campo, em cozinhas perfumadas pelo intenso sabor a bolos acabados de fazer, levitar na brisa fresca recheada de cheiro a maresia, enfim, sentia-me perdido.

Decidido a acabar com este cenário carbonizado, encaminhando-me para o fim, mas é então que te encontro, que chegas até mim em toda a tua força, como o cheiro forte da canela, quente da baunilha, inebriante do incenso e liquefaço-me, transformo-me numa nuvem de mil aromas que te envolvem e te tomam.

Surgiste-me à porta, vinda dos ares do oriente, inesperadamente, e com o teu sorriso de mel e a tua presença selvagem fizeste-me renascer, envolto num sonho perfumado de jasmim.

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