tenho um texto mesmo com este titulo. hum, se calhar e um pouco longo para aqui colocar mas ca vai a primeira parte:
A água estava fria, mas quando a temperatura do meu corpo baixou e entrou no seu equilíbrio pude então relaxar e aproveitar as carícias das suas pequenas ondas.
Mergulhei uma última vez em forma de despedida e para colocar o cabelo para trás. Enterrei os pés na areia fria e suave e dirigi-me à toalha que me aguardava pacientemente no mesmo lugar.
O sol estava livre no céu e aquecia tudo e todos, enquanto o vento ausente, nos deixava aproveitar o calor e secar sem que os nossos pêlos se eriçassem.
Deitei-me de bruços, a minha posição preferida, de forma a secar primeiro o cabelo e as costas já bronzeadas. Coloquei os auriculares e fechei os olhos, permitindo-me dormitar ao som da batida de house já conhecida e decorada.
Uma pancada forte no topo da cabeça despertou-me, fazendo-me levantar rapidamente o tronco tentando perceber o que se havia passado. Sentia-me tonta, via pequenos pontos brilhantes à frente dos meus olhos e começava a ficar enjoada; os olhares preocupados e curiosos pareciam desfocados e os pedidos de desculpa chegavam a mim baixos e fundos, como se falassem do fundo de algum túnel.
O vento agora presente e forte levou um pouco da dor, refrescando o meu corpo quente que tivera adormecido e demasiado tempo ao sol. Tranquilizei todos dizendo numa voz mais segura possível que me sentia bem e que não tinha sido nada de mais – mentira…
Alguém insistiu para que fosse ter com o nadador-salvador para que me pudesse analisar, o que me fez levar a mão à nuca, local do embate, pela primeira vez. Senti algo molhado, mas pensei que fosse o cabelo ainda húmido, só quando algo escarlate brilhou na minha mão é que percebi que estava a sangrar e era mais grave do que eu pensava.
Com a surpresa apoiei-me para me levantar, mas o chão moveu-se e desequilibrei-me. Imediatamente duas mãos fortes me seguraram impedindo-me de voltar a cair para a toalha. O enjoo tinha voltado, mas as minhas forças haviam-me abandonado. Senti o meu corpo ser levantado e deslocado durante algum tempo, sendo por fim deitado em algo duro. Com dificuldade, consegui abrir os olhos minimamente para observar onde estava.
A divisão era sombria, apenas iluminada por uma pequena abertura de uma janela reduzida. As paredes eram constituídas por tábuas que estavam cobertas com objectos vermelhos e temáticos.
- Consegue-me ouvir?
Tentei procurar a origem daquela voz suave, mas grossa. Encontrei uns olhos próximos que me observavam e aguardavam a minha resposta. Eram escuros (ou pareciam, não havia luz suficiente para ter a certeza da cor) e carregados, sublinhados por grossas e longas pestanas; logo acima concentravam-se várias linhas paralelas que envelheciam o seu rosto jovem.
- Consegue-me ouvir? – repetiu.
- Sim. – respondi com esforço. Tinha a garganta seca e a cabeça pesada, o que dificultava os pensamentos e as palavras.
Um sorriso de alívio surgiu-lhe no rosto que o iluminou de certa forma. Tinha um aspecto atraente, e todas as suas características combinavam harmoniosamente.
- Foi atingida por um chapéu-de-sol que lhe causou uma contusão. O sangue já estancou, mas é necessário que descanse mais um pouco e que mais tarde vá ao hospital fazer alguns exames para confirmar se o trauma foi grave ou não.
- Sim claro. – acenei com a cabeça, mas uma dor aguda fez-me gemer.
- Vamos fazer então só umas técnicas para ver se já se pode levantar, está bem?
- Sim. – respondi sem abanar a cabeça.
- Muito bem, vamos começar então pelo seu nome. Diga-me o seu nome completo.
- Ana Filipa Fernandes Cardoso.
- Ok, agora vai esticar o seu braço e depois levar o seu indicador à ponta do nariz.
Achando-me um pouco ridícula fiz o que ele mandou sem qualquer esforço.
- Óptimo, e agora por último, diga os números de 10 a 1.
- A sério? – já começava a achar aquilo demais.
- Sim, é preciso. Confie em mim.
Com um suspiro disse os números em ordem decrescente. – Já me posso levantar?
- Sim, vamos lá tentar levantar, mas se se sentir mal, diga logo.
Comecei por levantar devagar a cabeça, apoiei-me com os cotovelos na maca e depois com as mãos. Sentia a cabeça a andar à roda, mas com curtas respirações e os olhos fechados consegui sentar-me. Uma mão quente pousou no fundo das minhas costas de maneira a apoiar-me para não cair para trás.
Abri os olhos e ele colocou-me o braço em volta do seu pescoço. Agora já o via melhor, era mais jovem do que tinha parecido anteriormente, o seu cabelo era de um castanho claro, clareado pelos muitos dias ao sol, num corte nem muito curto nem comprido, e um pouco despenteado. A sua pele, num tom de bronze, combinava com o dourado dos reflexos do seu cabelo, tendo ela própria alguns, principalmente no seu peito nu e musculado.
Sentindo-me mais segura por aquele apoio e quase-abraço, rodei as pernas para fora da maca, de forma a apoiar os pés no chão. A sua mão nas minhas costas passou ao seu braço na minha cintura, suportando o meu peso, que por sinal parecia-me bastante mais leve que o normal.
- Obrigada. – disse, sorrindo timidamente.
- De nada.
Devagar dirigimo-nos até lá fora, onde o sol se começava a esconder atrás da linha do horizonte. A pouca luz encadeou-me, fazendo-me recuar um passo e piscar os olhos com força.
- Estás bem? – perguntou preocupado. Finalmente consegui ver a cor dos seus olhos: verdes no centro e castanho em volta, na periferia. “Tão lindos”, pensei.
- Sim. Foi só a luz do sol.
- O pôr-do-sol aqui é sempre algo assim, lindo. Não tinha reparado que tinhas olhos verdes! Lá dentro estavam castanhos… - estava sério e olhou-me nos olhos, admirado.
- Hum, sim. Eles mudam com a luz. É normal.
- São lindos… - disse, mas logo pareceu arrepender-se e desviou a atenção para longe.
- Obrigada, acho… os teus também são bonitos. O verde e o castanho completam-se.
Não respondeu, apenas sorriu. Continuávamos meio abraçados, o que tornava aquela cena íntima e constrangedora.
- Chamo-me Filipe.
Um pouco surpreendida respondi:
- Prazer, sou a Ana Filipa, ou só Filipa.
- Eu sei. – respondeu divertido.
- Ah pois. – murmurei. – Bem, acho que vou indo, ainda tenho que ir ao hospital, não é?
- Queres que vá contigo? – falava novamente de frente para mim, com um brilho intenso no olhar.
- Acho que não é preciso, obrigada. Não precisas de te incomodar.
- Não incomodo, mas tu é que sabes se já te sentes suficiente bem para conduzir.
- Sim, acho que sim. – devagar, retirei o meu braço do seu pescoço e afastei-me, dando um passo em frente.
O azul do céu ficou negro, o barulho das ondas calou-se e então perdi os sentidos.