Aqui vai um cheirinho do 2º capítulo:
"Era Domingo. O dia estava sereno, o céu azul, o sol brando a pique. Estava mesmo a apetecer-me ir a uma esplanada à beira-mar bebericar um batido, enquanto ouvia o som das ondas a rebentar na areia. Apetecia-me descansar, pensar na vida (como se nos últimos tempos tivesse pensado noutra coisa), pensar no meu futuro, pensar no Miguel… Apetecia-me sobretudo estar sozinha. Precisava de me afastar.
Cheguei à esplanada do Mar Dourado às 10 horas. Era um bar simpático, já antigo, com as paredes caiadas de branco, um ambiente familiar; enfim, totalmente diferente dos outros cafés ali da zona. Esses eram modernos, cheios de cor, cheios de vida, super animados, estavam sempre cheios de gente simpática e divertida, isto é, o ideal de bar para uma pessoa como eu: triste e deprimida; um sítio fantástico que me ajudaria a arrebitar. Em vez disso, apetecia-me pensar. Estava triste, todavia não sabia porquê, e isso era o que me irritava ainda mais.
Arredei a cadeira e sentei-me de frente para o mar que hoje estava calmo e mais azul do que alguma vez o vira. As poucas ondas que fazia, rebentavam de mansinho na areia deixando uma orla de espuma.
Pedi ao empregado um batido de morango, e poucos minutos depois, já estava eu a bebê-lo, senti alguém a tapar-me os olhos com as palmas das mãos enquanto perguntava:
– Adivinha quem é!
A voz não me era familiar, e pelos vistos, o autor deste epi-sódio caricato devia ter pensado que eu também lho não era, pois logo a seguir, pareceu arrepender-se. Recuou, retirou as mãos e pediu desculpas atabalhoadamente.
Dei de caras com um rapaz alto e esguio, que aparentava ter mais ou menos a minha idade; tinha os olhos de um verde tão clari-nho, que faziam lembrar as límpidas águas esverdeadas do mar das Caraíbas. Tinha o cabelo escuro cortado rente, e o rosto simpático, apesar do semblante surpreendido e algo assustado.
– Desculpa. Não queria incomodar-te, mas ao longe pareceu-me outra pessoa… Desculpa. – Apressou-se a repetir.
– Não tem importância. Estas coisas acontecem…
– Não é bem assim. Comigo acontecem com demasiada fre-quência. Eu já era distraído, então desde que a Soraia acabou tudo comigo… – Fez uma pausa. Parecia transtornado. – Qualquer rapa-riga que veja, acabo sempre por confundi-la com ela…
– Acredita, não faz mal. Olha, e para que não voltes a con-fundir-me com ela… Eu sou a Helena.
– Prazer… Eu sou o Tomás. – Estendeu-me a mão enquanto sorria. Tinha um sorriso bastante agradável. Talvez tão agradável que me levou a convidá-lo a sentar-se.
– Não queres sentar-te e fazeres-me companhia? Este batido de morango está delicioso…
– Morango?! É o fruto preferido da Soraia…
– Desculpa. Não sabia, mas podes experimentar um de banana e ananás que também é fantástico.
Já tinha metido a pata na poça! O Tomás estava atrapalhadís-simo, e eu, em vez de ajudá-lo, só estava a piorar a situação. Estava já a amaldiçoar a hora em que lhe tinha pedido que se sentasse, quando o empregado pousou o batido em cima da mesa.
Entretanto, o Tomás pareceu esquecer por instantes o ódio pela ex, e contou-me o que se tinha passado entre eles. Não sei por que razão confiou numa desconhecida para desabafar sobre as suas mágoas, contudo acho que estava demasiado desesperado para esco-lher os seus ouvintes…
Depois, para aligeirar, começámos a falar sobre cada um de nós, e sobre o que gostávamos de fazer.
– Fazes surf? Parece-me fantástico. Sempre gostei de despor-tos náuticos – bodyboard, windsurf, motas de água – mas nunca prati-quei nada do género. A única coisa que eu pratico é ioga, num giná-sio aqui perto. Tenho uma amiga que adora esse tipo de coisas, e então, convenceu-me para que me inscrevesse com ela.
Ele parecia ouvir-me com toda a atenção, ainda assim, arris-cava-me a dizer que ele estaria a pensar em tudo, menos no facto de eu praticar ioga por influência da Magda. No entanto, continuou a conversa, precisamente no ponto em que eu a deixara.
– Ouvi dizer que o ioga é bastante relaxante… Se me permi-tes, parece que tem tudo a ver contigo.
– Por que é que dizes isso?
– Aparentemente és uma pessoa calma. Quando te encontrei parecias absorta, a olhar o vazio. Pergunto-me se não serão os teus conhecimentos ao nível do ioga a funcionar…
– Não… Se queres saber, não levo o ioga muito a sério. Vim para aqui porque precisava de reflectir. A minha vida está um caos… – Ao dizer aquilo, lembrei-me do Miguel. Quase me esquecia da verdadeira razão que me levara ali.
– Um caos?! Ninguém diria, com essa calma toda…
– É a minha maneira de lidar com este tipo de situações. Quando estou triste não grito, nem parto a loiça, como a maioria das pessoas. Prefiro sofrer pela calada, mostrar que está tudo bem. Sei que não é saudável reprimirmos as emoções, mas não consigo evitar. Faz parte da minha personalidade.
– Mas há alguma razão específica para estares assim?
Tinha acabado de conhecer o Tomás, mas ele parecia tão sincero. Também, se não desabafasse com ninguém, provavelmente iria explodir, portanto decidi contar-lhe a minha história com o Miguel.
– … E gosto dele há bastante tempo, ele sabe disso, mas as coisas não são assim tão lineares. Há quem diga que ele me “curte”, há quem diga que não; ele muda da noite para o dia. Neste momento, por exemplo, não sei o que ele sente por mim… E nem sei se estou preparada para saber…
O Tomás escutou o meu relato desde o início até agora, sem fazer comentários. Quando acabei, decidiu intervir.
– Não achas que estás a ser um pouco dura? Em primeiro lugar, devias falar directamente com ele e não dares ouvidos aos outros. De tudo o que me contaste, achei a vossa amizade interes-sante; mesmo sem vos conhecer pareceu-me que era a típica amizade entre duas pessoas que se sentem atraídas, mas como têm medo de confessar, refugiam-se em brincadeiras para se aproximarem um do outro…
O Tomás estava a ser um querido. Convidei-o num acesso de boa samaritana, e quem acabou por sair aconselhada fui eu.
– Isso que dizes até pode ser verdade mas, não sei, sinto-me tão confusa. Odeio quando tento perceber algo e não consigo. É como se fosse um puzzle ao qual faltam peças…
– Também não precisas de entender tudo o que vês. Dá tempo ao tempo, confia em ti e deixa as coisas acontecerem…
– Se calhar tens razão, mas eu não devia estar a preocupar-te com os meus problemas. Já tens os teus…
– Mas os meus não têm solução.
Não conseguia acreditar que aquela pessoa que tinha ali, à minha frente, que me tinha dado todos aqueles conselhos, estava assim: desanimada e resignada.
– Não há impossíveis! - Disse-lhe. – Se estás a referir-te à Soraia, pelo que me disseste, o melhor é esquecer. Mereces mais e muito melhor.
– Obrigado. – Disse a sorrir, e com um brilho nos olhos semelhante a uma luz ao fundo de um túnel.
– Não tens que agradecer. Normalmente não costumo falar com estranhos, muito menos fazer-lhes confidências sobre a minha vida privada, mas, há qualquer coisa em ti que me faz acreditar e confiar em ti, mesmo sem te conhecer.
– Realmente, isto era o tipo de coisa que não esperava que me acontecesse. Aquelas coisas que só acontecem nos filmes, nas novelas, nos livros…
Limitei-me a sorrir. O Tomás caiu de pára-quedas na minha vida e se não fossem as cantigas da Magda, diria que a vida é feita de coincidências.
Entretanto, o Tomás olhou para o relógio e ao ver as horas, quase saltou da cadeira. Já era tardíssimo e ele tinha um almoço de família (disse isto como se de um sacrifício se tratasse!). Deixou dinheiro em cima da mesa para pagar a conta, pediu-me desculpa mais uma vez, agradeceu a companhia, e escreveu a morada e o número de telemóvel num guardanapo. Pediu-me para lhe ligar, caso precisasse de alguma coisa, e atirou-me um beijo enquanto corria pela marginal fora.
Fiquei a vê-lo correr. Era elegante, ágil. Analisei também o que escrevera. Tinha uma letra fina, algo descuidada, própria de um rapaz da idade dele. Subitamente, lembrei-me da Magda – ela tem o hábito de analisar a caligrafia das pessoas e traçar logo o seu perfil. Talvez lho mostrasse, um dia…"