Mais um pedacinho, espero que gostem
Encaixou-se no buraco, flectiu as pernas e alongou os braços pela abertura e, por meros centímetros apenas, as pontas dos seus dedos não tocaram nos meus. Desejei desesperadamente quebrar aquele espaço e ir ao encontro do seu toque.
Mas aguentei-me quieto.
Sabendo que o auto-controlo falhar-me-ia a qualquer instante.
Dei por mim a evitar o seu olhar, olhando a lama resultante da arrebentação da noite. Eu que nunca baixei o olhar perante os meus amos, agora fazia-o na presença dela. Fazia-o porque os meus sentidos já estavam demasiado alterados e olhá-la só iria agravar a situação. Forcei-me a pensar nas asas que o meu ex-amo me prometera, mas, nem isso, me fez desligar dela. Estava demasiado próxima. Até a própria composição do ar estava alterada, o cheiro dela estava nele e eu respirava-o constantemente.
– Porque me vieste ajudar? – perguntei, não desviando o trajecto do meu olhar. – Depois de tudo por que te fiz passar devias odiar-me.
– Se isso te faz feliz às vezes odeio-te – disse ela.
Os meus olhos rolaram até ela.
– Eu conheço o ódio, vi-o muitas vezes nos olhos daqueles que matei – Ela encolheu-se –, e até o vi em alguns do meus ex-amos. Mas não o vejo no teu olhar.
Talvez o tivesse visto no dia em que a fui buscar e ela me esmurrou no peito, mas agora não estava assim tão certo disso.
– Então, o que vês?
As suas faces tornaram-se mais rubras.
– Algo agradável.
– Chama-se Amor.