|
Bem-vindo,
Visitante
|
TÓPICO: o sonhador
o sonhador há 8 anos 8 meses #51975
|
Um conto que fiz para a disciplina de Direito sobre a ética nos Direitos de Autor.
Espero que gostem Parte 1 Ricardo Tavares “Boa Noite, até amanhã.” É a minha frase de despedida, acentuada com um sorriso simpático e um brilho nos olhos azuis, a habitual despedida de todas as noites para os espectadores do Canal4. Pego na caneta e nos papéis à minha frente, porque como jornalista, fica sempre bem. A música do genérico, a câmara da grua com o sinal vermelho… E apaga-se. Deixo os papéis na mesa, coloco a caneta no bolso do casaco do fato, ajeito-o e levanto-me até ao guardaroupa. Tiro a roupa que obrigam a usar para a minha função: o fato cinzento-claro, camisa lilás e gravata roxa. Tudo muito fashion… Um dia dão-me um gancho… Talvez o cor-de-rosa fique bem com o meu cabelo castanho-claro, enfim… Camisola de algodão verdeescura, calças de ganga desbotadas, blusão e botas pretos... Muito melhor! Iniciei-me no Canal4 há quatro anos como estagiário, sou sociável, tenho boa aparência, todos me adoram, subi alguns degraus ao longo do tempo, o degrau mais longo foi o de pivot, tive que substituir a pivot que lá estava por mim, sacrifícios pela profissão, por mim… Mas claro, como toda a gente perfeita que aparece na televisão, sinto um vazio… Tenho um sonho de criança por cumprir: escrever um livro, ou mais, claro. E qual é a dificuldade? Escrevo todos os dias, não dou um erro em português, sou conhecido, o que ia ser óptimo para a campanha de marketing do livro… Pois é, tenho uma lacuna gigante, que todos os jornalistas têm: não sou um contador de histórias… Passamos quatro anos, ou mais, num treino intenso de línguas estrangeiras, correcção ortográfica, objectividade, investigação, contar o que aconteceu, sem dar opinião. É a destruição total para a imaginação de qualquer um, mas como é que podemos escrever e ter emprego? Não podemos. Não conseguia viver como alguns, à espera que editora publique o livro e depois receber os lucros, se houver… Gosto de ter uma boa vida, ter as últimas tecnologias da Apple, do meu BMW, de ter boas noitadas sem contar trocos para ter mais uma bebida, um ecrã plasma na sala, roupas com qualidade, perfumes, comprar um livro numa livraria e cheirar a novo, sem ir a feiras ou promoções como a minha mãe fazia… Bem, gosto de estar confortável… Esta foi a minha opção, mas mesmo com tudo isso, o vazio continua ali, aquele sonho que não foi concretizado… Estou neste momento a conjugar os dois, ter uma boa vida e ser escritor, se alguns colegas meus conseguiram, porque é que não consigo? Alguns chegam a ser medíocres, outros têm escritores fantasma, mas disso não preciso, e não dá aquele mérito e reconhecimento público, pois os escritores fantasma são pouco profissionais e como escritores que são, querem protagonismo e reconhecimento público pelo seu trabalho, quem é que não quer?! Como a minha ambição é desmedida, arranjei um sistema… Para isto, tive que arranjar uma pessoa de confiança a quem dei quase metade do meu ordenado: André Antunes, um advogado amigo meu desde a adolescência, vai passar a trabalhar para mim e apenas para mim. O trabalho não é fácil. Encontrar escritores em desenvolvimento, pessoas com ideias que possam ser realizadas e escritas, mas para isso, tenho que arranjar algum sonhador como eu, mas um sonhador inocente, já tentámos com estudantes, clubes literários, escritores pouco conhecidos, mas esses, mesmo com pouco dinheiro estão bem informados, seja por quem for, que existem direitos, que a obra tem que ser registada para ser válida e todos esses passos para a obra ser sua aos olhos da sociedade. Eram ideias valiosas, bastava mudar o final e corrigir alguns erros comuns… Mas um dia vou encontrar alguém assim. A maioria dos clubes e escritores está centralizada em Lisboa e no Porto, mas de certeza que se o André se infiltrar bem nessas localidades, pode encontrar algumas coisas fantásticas… O André ligou-me hoje, disfarçou-se de editor e conseguiu um romance de um coitado qualquer… Vou começar a “Metamorfose”: de “cara do telejornal da noite” a escritor nacionalmente reconhecido. Parte 2 José Vielas Tenho vários papéis em cima da mesa, com contabilidade, contas, e contas, e mais contas, ao fim de alguns anos mentalizeime que trabalho é apenas trabalho, serve para me sustentar a mim e a minha família, e com 45 anos de existência, isso chega-me. Sou um acomodado feliz, sub-gerente de um hipermercado numa vila no Ribatejo. Como toda a gente que nasceu numa terrinha e continua na terrinha, tenho uma alcunha: Gigante, tive uma professora que me deu outra: Zé-cabeça-na-lua, mas como é um nome muito grande, não pegou, ficaram com o Gigante que é mais prático e mais obvio pela minha altura, 1,90 metros. Tenho passatempos pouco comuns comparando com os meus colegas, gosto de passear e observar as pessoas, o que fazem, como se comportam em alguns momentos, as diferenças dentro de um grupo de pessoas, sou um observador, e claro, estar com os meus dois filhos. É uma experiência fantástica observar uma pessoa a crescer, especialmente no papel de pai, em que somos sempre os fixes, brincamos com eles e a parte chata fica sempre para a minha esposa, que é educadora de crianças e faz esse papel chato bem melhor que eu. Também gosto muito de ler, especialmente romances históricos, e de ver filmes, desde que não tenham sangue e cabeças a saltar, são coisas que dispenso ver… E tudo isto complementa o meu hobby número um: escrever. Apesar de não ter a possibilidade de ir para a Faculdade, aprendi com a vida e com romances generosamente cedidos pelo hipermercado, o que muitas vezes se podia aprender nos livros. Sinceramente, é único ponto positivo de trabalhar num supermercado, leio e ponho lá outra vez, a biblioteca daqui não tem muitos livros… Hoje apareceu-me em casa um editor, um Gonçalo Silva, é baixo, tem olhos e cabelos escuros, até vinha identificado, da Portas do Sol Editores, uma editora conhecida, que publica romances, já li alguns, e posso dizer que eles escolhem bem os seus autores e histórias, por isso, era uma grande honra, e fiquei muito entusiasmado. Afinal, não é todos os dias que um editor nos bate à porta, e tive sorte por ele ter aparecido no meu dia de folga. Falou comigo sobre alguns contos que escrevi numa revista literária gratuita, a Letras & Companhia. Dos que gostou mais, elogiou-me bastante e fez-me perguntas sobre algumas personagens. Falou também comigo sobre um futuro romance, se já estava a desenvolver alguma coisa, se tinha algumas ideias em mente, e que estava muito interessado em publicar a minha primeira obra. Mostrei-lhe o meu rascunho do livro “A Filha do General”, no computador, instrumento a que ainda me estou a habituar… É uma história que me contaram quando estive na Guerra em Angola, aquelas histórias de quando não temos muito para fazer e estamos à espera do inimigo, que decidi embelezar e passar para o papel. O Gonçalo leu apenas o primeiro capítulo e adorou, disse que tinha material para uma obra de sucesso. Mas mesmo assim, tinha que levar isto para o chefe dele para ser aprovado, ia imprimir mas o Gonçalo pegou numa daquelas coisas pequenas que levam muitos ficheiros e lá levou a minha obra-prima com ele, infelizmente, algumas coisas novas de informática ainda não percebo muito bem, enfim… Mas lá levou aquilo para o chefe e disse que daqui a uma semana me dizia alguma coisa. Bem, uma semana passou e nada disse… Como sou impaciente e é a minha primeira obra decidi ligar para o número de telemóvel que me deu. Estava desligado. Liguei três vezes, e estava desligado, enviei e-mails para a editora, com sede em Lisboa, não me responderam, liguei para lá, disse que não posso falar com um editor sem ter hora marcada, as pessoas da capital são muito estranhas ás vezes, tenho que ter hora marcada para falar com uma pessoa ao telefone… E não me deram outro número, não estavam autorizados… Deixei passar algum tempo e passados dois meses vi na secção de livros, onde costumo ir muitas vezes, um livro com o mesmo nome da minha obra “A Filha do General”, escrito por aquele jornalista do Canal4, o Ricardo Tavares, fiquei curioso, peguei no livro e levei-o para o gabinete, e qual é o espanto ao continuar a ler o livro, que reconheci a minha história, num português mais elaborado, mudou ligeiramente o final, mas exactamente a minha história. Larguei o livro e fui falar com o Paulo, que trabalha na caixa e é advogado, recém-licenciado e não arranjou emprego como advogado. Ouviu-se pelo supermercado “Paulo Abrantes chamado ao gabinete da gerência, obrigado.” O Paulo deixou a caixa e dirigiu-se ao gabinete, mostrei-lhe o livro, expliquei-lhe a situação, mostrei-lhe o que tinha escrito no computador, ficou abismado, gritou bastante comigo “Mas tu és maluco?! Porque é que não me disseste para ir contigo quando o tipo foi a tua casa? E esses gajos não vão a casa de ninguém, os escritores é que têm que lá ir, e é se querem ter um livro publicado!” Disse que era um caso perdido porque o que eu escrevi já estava, de certeza, registado no nome do tal Ricardo Tavares, e que não valia a pena… Fiquei destroçado ao ver aquele livro em primeiro lugar no Top 10 dos livros vendidos durante uma semana, na semana seguinte tirei licença de baixa e sinceramente não quis saber. Toda a gente soube que eu estava de baixa, como tudo se sabe numa vila pequena, só sei que agora nesta vila, mais ninguém vê o Canal4, e coitado do tal Ricardo Tavares se decidir passar por aqui ou alguém do Canal4… O Paulo encorajou-me a continuar a escrever e a publicar, porque de certeza que ia ter sucesso. Foi exactamente isso que fiz, ele ficou o meu advogado, pedi ao Professor de Português dos meus filhos para fazer a correcção ortográfica, com a promessa de lhe pagar quando o livro for editado. Afinal, ninguém quer ver o Gigante da sua vila a ser enganado outra vez.... Mas o que aquela pequena vila realmente queria era ver uma nova estrela, alguém de quem se pudessem orgulhar, e dizer “Aquele escritor é da minha terra”, ou “É o meu vizinho”. Penso que lhes fiz essa vontade quando lancei o “Xadrez” a semana passada. Cláudia Correia. Os direitos pertencem à Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. |
|
e-mail:
Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
blog: fantasiaeosoutros.blogspot.com/ Venda/Troca/Wishlist:http://www.segredodoslivros.com/index.php?option=com_kunena&Itemid=85&func=view&catid=13&id=44059
O adminstrador desactivou a escrita pública.
|
Moderadores: vibarao
Time to create page: 0.555 seconds




