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TÓPICO: Presos por um fio...
Presos por um fio... há 7 anos 1 mês #78502
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Capítulo 1
- Sai da frente anormal!!! – gritou o grupo de brutamontes que tinham como passatempo preferido tornar a minha vida menos suportável. Mal eles sabiam que tudo o que faziam não tinha, até agora, surtido qualquer efeito. Sorri em jeito de desafio por debaixo do capuz do meu blusão preferido, de um preto asa de corvo e encaminhei-me para o portão da escola. De todos os momentos passados entre aqueles portões velhos e sufocantes, aquele era, de longe, o meu preferido. Ultrapassei-os com uma sensação de tremendo alívio. Não é que não gostasse da escola, apenas sentia que aquilo que me transmitiam nas aulas não dava resposta às perguntas que tinha dentro de mim. Percorri a longa rua que dava acesso à escola de olhar pregado no chão, enquanto pensava na minha mãe atarefada à frente do fogão a preparar o jantar. Era uma imagem que me trazia sempre algum conforto ao fim do dia, embora detestasse solenemente a forma demasiado protectora como me tratava. Talvez tivesse ficado absorto neste pensamento pois, sem ter praticamente dado conta disso, já a cidade estava mergulhada na obscuridade. Apressei um pouco o passo até chegar à velha ponte aérea que atravessava a linha do comboio. Dirigi-me até ao início da ponte de forma decidida mas, antes de começar a travessia, pisei um dos atacadores dos ténis, fazendo-me tropeçar. Irritado, baixei-me para o apertar novamente, enquanto praguejava para mim mesmo. Endireitei-me disposto a não perder mais tempo e seguir caminho. Dei meia dúzia de passos mas houve algo que me fez parar de novo. Estava alguma coisa a meio da ponte, pendurada do lado de fora. Aproximei-me lentamente, ao mesmo tempo que tentava descortinar do que se tratava exactamente. A pouco mais de cinco metros, pude comprovar com algum horror (ou seria um misto de espanto e divertimento?) que era uma rapariga. Conseguia ver-lhe o cabelo a ondular com o vento, que também lhe enfunava a roupa, tornando-a ilusoriamente mais volumosa do que aquilo que era. Decidido a impedir que a situação acabasse mal, encurtei a distância que nos separava. _ Ei, não faças isso! – disse eu. A rapariga olhou bruscamente na minha direcção, revelando um rosto bastante interessante, com olhos brilhantes, nariz curto e arrebitado e lábios cheios. Dirigiu-me um olhar enviesado e retorceu o rosto num esgar. - Não te atrevas a aproximar mais. Eu salto! – gritou ela. “Boa, era só o que faltava! Ter de aturar uma suicida à beira de um ataque de nervos. Poupem-me!” , pensei eu. Optei por me aproximar mais dela, de modo a ficar a seu lado. Ela ofereceu-me um olhar enfurecido, falando num tom carregado de raiva e frustração. - Eu já te avisei. Afasta-te de mim. – disse ela. - Então receio que haja aqui um pequeno problema: este é o meu único caminho para casa e, para passar, vou ter mesmo de me aproximar do sítio onde estás. – disse-lhe eu em tom de brincadeira. Começava a achar toda aquela situação bastante caricata. Quando é que ela se ia deixar de dramatismos? Mas ela pareceu não achar graça nenhuma. - Costumas ser idiota todos os dias ou hoje é o meu dia de sorte? – disse com sarcasmo. – Eu só queria desaparecer! Nada faz sentido. – acrescentou, enquanto lhe brotavam lágrimas dos olhos. - Acho que se quisesses mesmo saltar, já o tinhas feito. Vá, dá-me a tua mão para te ajudar a sair daí. – disse-lhe eu, estendendo-lhe a mão e sorrindo tranquilamente. Confesso que começava a ter pena daquela rapariga de olhos tristes e ar perdido. Hesitou durante uns momentos, ponderando se deveria ou não confiar em mim. Por fim, virou-se para mim e colocou a mão na minha, preparando-se para subir o gradeamento. Só que os contratempos não acabariam por ali. Assim que pôs o pé no primeiro ferro, o pé que ficou assente escorregou e ela ficou com a minha mão como única ligação à vida. Os gritos desesperados dela ecoaram na noite, enquanto eu tentava com todas as minhas forças segurá-la. O que não estava a ser fácil. Meu Deus! - Tem calma, pára de gritar! Quem te ouvir ainda pensa que me estou a tentar aproveitar de ti. Tenta balançar-te de encontro à grade. – pedi. De rosto pálido de medo, fez o que lhe tinha pedido. Foram precisas pouco mais de três tentativas para que conseguisse apoiar um pé e içasse o corpo para cima. Coloquei-lhe os braços à volta da cintura e puxei-a para o outro lado, desequilibrando-me e caindo de costas, com ela por cima de mim. Finalmente um aspecto positivo no meio daquela embrulhada toda. Afastei-lhe o cabelo do rosto, para me certificar de que estava bem. Felizmente parecia ter sido só um susto enorme. Reparei ainda que tremia como varas verdes, pelo que a fiz sair de cima de mim e despi o casaco para lhe oferecer. Tinha ficado irremediavelmente cativado pela situação e, verdade seja dita, por ela. - Obrigada. Se não fosses tu, não sei como é que isto tinha acabado. Provavelmente da forma que tinha planeado. – disse com amargura. - Não agradeças, não é preciso. Já passou. – disse-lhe eu, para a acalmar. Talvez fosse a altura indicada para me apresentar, pensei eu. – Sou o Filipe. - Ema… - respondeu ela debilmente. – E claro que é preciso agradecer, salvaste-me a vida. Não é qualquer coisa de pouca importância. Passei-lhe o braço em redor dos ombros, aconchegando-a. - Não te preocupes com isso. O que interessa é que estás bem. Mas não entendo uma coisa…o que é que te levou a fazeres isto? – perguntei curioso. Estava cheio de vontade de saber que tipo de problemas é que teria para ter tentado algo tão drástico. Ela respirou fundo antes de responder. - Desespero e a sensação de não ter mais nenhuma saída. Há seis meses que a minha vida ficou de pernas para o ar. Não estou a conseguir lidar com as mudanças que me apareceram à frente. – explicou ela. - Que mudanças? O que é que aconteceu? – perguntei eu entre a confusão e a curiosidade. Ela olhou-me com ar sério. – Quer dizer…se me quiseres contar, é claro! – emendei eu meio atabalhoadamente. “Mas que palerma! Era de admirar ainda não ter feito figura de parvo!” A expressão dela aligeirou-se um pouco, mostrando-me um meio sorriso, que não teve força suficiente para lhe chegar ao olhar. Senti que talvez tenha sido a maneira que encontrou para tentar ganhar tempo e coragem. - Fui obrigada a viver com o meu tio, desde que… - começou ela a explicar. Fechou os olhos e suspirou. – Houve aquele acidente comigo e com os meus pais. Quem me assistiu disse que era afortunada por ter conseguido escapar com vida. Fui a única. – conseguiu por fim dizer. Esta revelação conseguiu apanhar-me completamente desprevenido. “Pobre Ema! Deve estar a sofrer imenso!” pensei eu já com algum remorso pelo meu mau feitio. -Lamento saber isso. – disse eu, articulando cada palavra cuidadosamente. - Obrigada…acho eu. – respondeu ela com uma risadinha triste. – Acho que nunca me vou habituar a que alguém mostre preocupação pelo que sinto. – acrescentou. Senti-me tentado a esticar a mão para pegar na dela mas, por cobardia, não fui capaz de pôr em prática esta ideia. Algo que nunca tinha feito parte da minha natureza. Que se passaria comigo? Para tentar disfarçar o meu embaraço e a minha falta de resposta (mais uma coisa pouco usual em quem tinha sempre tudo na ponta da língua) levantei-me, ajeitei a roupa, e estendi-lhe a mão para a ajudar a levantar-se. - Está a fazer-se tarde e o tempo arrefeceu bastante. É melhor irmos para casa antes que apanhemos uma valente gripe. De certeza que o teu tio já está preocupado contigo. – disse. - Não tenhas tanta certeza disso. Não fazes ideia do tipo de pessoa que ele é. – respondeu-me ela ao mesmo tempo que aceitava a ajuda e se levantava. - O que é que queres dizer com isso? – perguntei. - Nada de especial… vá, anda lá embora! – e começou a acelerar o passo à minha frente. – Então? Vais ficar aí a criar raízes? Não eras tu que estavas com pressa? – perguntou ao ver-me estacado em pé a olhar para ela. Refiz-me o melhor que pude e fui ter com ela. Olhava-me, pela primeira vez desde o início da conversa, com ar divertido. - Eu levo-te a casa. Não me sentia bem se te deixasse ir sozinha. – disse-lhe em tom determinado. Sorriu. E que belo sorriso! - É uma óptima ideia. – e pegou-me na mão enquanto retomava o passo. Aguardo reacções (sejam elas quais forem, apenas desejo que não fiquem indiferentes) |
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