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TÓPICO: Projeto Inominado: Opinião

Projeto Inominado: Opinião há 5 anos 4 meses #85148

  • Domenico
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Primeiramente gostaria de me apresentar, sou "Domenico". Sou novo no site e por consequência no fórum. Procurava um ambiente com a proposta de debater sobre livros, bem como um local onde expor meus pensamentos e o livro que iniciei dia 2 deste mesmo mês.

Sou um grande admirador das obras de Orwell, Kafka, Maquiavel e Dostoiéviski (sendo estes meus favoritos).

Voltando ao assunto do livro, iniciei o primeiro capítulo, sendo que este possui 5 páginas em formato A4 e 10 em formato A5 (padrão para livros), o assunto esta definido em minha mente, entretanto ainda não ficou claro na escrita. Perdoem-me os erros gramaticais, alterei a fala dos personagens para a segunda pessoa, fiz isso tardiamente e não editei as já destacadas incoerências.

Gostaria de saber a opinião do pessoal. Cá está o primeiro capítulo na integra.

Obrigado pela atenção!


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Nevava constantemente, o tempo permaneceu desta forma, inalterado durante toda a noite. Domenico, largado ao léu, aproximou-se de uma roda de mendigos, cerca de um palmo de mão os distanciava, imersos em desespero, a aproximação era uma tentativa, inútil, de manter a trupe suficientemente aquecida.
Perdera o emprego fazia dois meses, junto fora seus bens e acabara ficando empobrecido ao último, sobraram-lhe apenas os livros. No intuito de manter o máximo de disposição e cuidado com o que lhe restara, havia pego uma caixa e dentro dela, colocado seus últimos volumes, trinta ao todo, sendo que apenas cinco eram novos e ainda não tinham sido lidos. Possuía transtorno obsessivo compulsivo que manifestava-se de duas formas: primeiramente, vestia-se apenas em trajes cinzas; por fim, era obcecado em manter suas propriedades favoritas sempre organizadas – isto é, livros e cartolas.
Acreditando ser hábil e inteligente o suficiente, Domenico logo traçou uma tentativa de unir e tornar-se líder dos mendigos. Franziu o cenho durante três minutos, tempo que levara para elaborar o plano. Definido o projeto, largou a caixa no chão, gesticulou os braços em um leve aceno, como alguém que deseja aproximar pessoas, e disse:
— Venham, desabrigados, tive uma ideia que provavelmente diminuirá vosso sofrimento.
O bando, receoso, não entendia as intenções do homem. Abandonados e famintos, nada tinham a perder, eram quatro no total, três dos quais acenaram positivamente e apenas um furtou-se ao mais puro benefício da dúvida. Este qual chamado de Barbosa, que atendeu prontamente o desejo da maioria, e foi-se juntamente. Acercando-se do aspirante a líder de uma tropa de moribundos, o primeiro à se manifestar, representado os demais, foi Nero, que desconfiado das intenções da estranha figura que apresentava-se a sua frente, logo indagou:
— Gostaria de saber, quem dirige a vós estas palavras?
Observando que sua súbita aparição espantara os pobres homens, amigavelmente cumprimentou-os, um à um, e logo após, tornou a apresentar-se e explicar sua trama:
— Chamo-me Domenico, – estava em seus trinta anos, barba castanha de tamanho mediano, não passava-lhe o pescoço - nome pouco popular que tenho certeza, possa soar um tanto estranho à vossos ouvidos. Trabalhei durante quatorze anos no comércio popular, fui gerente em uma pequena loja de conveniências anexa ao trilho cento e dezessete até ser despedido, acusado de furto fui mandado embora, era isto ou a prisão. Perdi todos os meus bens, excetuando esta caixa de madeira – apontou para o chão, o cair dos cristais incessantemente, fez com que cerca de metade da caixa estivesse imersa em neve – e cá estou. Gostaria de saber, se possível, se me aceitariam como mais um membro em vossas deliberações?
O quarteto de abandonados parecia ter recebido bem a resposta de Domenico, seu rosto possuía tom amigável e sabia expressar-se muito bem. Reuniram-se e decidiram se concedê-lo-iam o benefício da aceitação. O grupo, formara-se há cerca de um ano. Nero e Augusto possuíam longa amizade antes das mazelas os atingir, Barbosa e Marco juntaram-se à dupla posteriormente. Nero, em todo seu egocentrismo, rotulava-se como o “Guia” do grupo, título que em momento algum lhe fora concedido pelo restante dos mendigos. Augusto aparentava ser o mais sábio dentre todos, pouco opinava, contudo, quando o fazia, sempre podia extrair-se algo de bom de seus ideias. Barbosa, sempre fora o mais cuidadoso e amigável. Marco destacava-se nas artes da oratória. Afastaram-se e entre cochichos decidiram-se:
— Creio que esta figura, que, neste momento apresenta-se para convosco, vem de bom grado – comentou Marco.
— Possuo minhas desconfianças, todavia não fora hostil em momento algum, nem aparenta sê-lo. Creio que devemos conceder-lhe um espaço, entretanto mantenhamos ambos os olhos escancarados – pontuou Barbosa.
— Faço de minhas palavras às de Marco, bem como às de Barbosa – disse Augusto.
Tomando, novamente, a liderança, Nero não furtou-se o direito de usar as palavras:
— Tendo como base a decisão concomitante, acredito que o melhor seria trazer este estranho, para o seio de vosso bando. Como bem ressaltou Barbosa, todo cuidado que possamos conjurar, é demasiado pouco.
Procurando continuar o pequeno interrogatório, Nero permaneceu encabeçando a lista de questionadores. Acenou para Domenico, da mesma forma como este, anteriormente o fez, para atrair a atenção de si e de seus companheiros. Este, por sua vez, agachou-se no intuito de retirar o excesso de neve que recobria sua tão estimada caixa, atolada, teve leve dificuldade em removê-la do local, cumprido o objetivo, carregou o conteúdo com os braços levemente dobrados. Aproximou-se do “guia” que posteriormente lhe falou:
— Aparentas ser um homem de bem, portanto deliberamos em outorga-lo o benefício de unir-se à vossa trupe. Contanto que realmente nos ajude, portanto não te demoras, explique melhor esta tua, tão proclamada ideia.
Um sorriso de satisfação escancarou-lhe o rosto. Contente com a resposta recebida, não tardou em pontificar sua ideia:
— Como bem podem perceber, permanecer inertes vos matará aos poucos, uma nevasca aproxima-se, necessitasse contornar esta situação, devemos encontrar uma forma de nos aquecermos. Veem aquela capela abandonada ao final da rua? – apontou à direção, responderam-no positivamente com um leve aceno de cabeça. Estavam todos posicionados em uma ruela sem saída, mais precisamente à entrada de um pequeno beco, a citada capela finalizava o percurso possível, lojas dos mais variados tipos preenchiam os arredores daquele trépido caminho. Não via-se singular alma viva nas ruas, a notícia da possível nevasca afastara o público.
- Pois bem, convido-vos a adentrar em meu recinto temporário, lá teremos madeira suficiente para queimar e com isso, acender uma fogueira, sigam-me.
Confiando que as palavras de Domenico fossem verdadeiras, o grupo seguiu lhe. Ou isto, ou definhavam de hipotermia. Aproximando-se, logo notaram que, possivelmente, havia um jardim que dava as boas-vindas à capela, entretanto era impossível confirmar as suspeitas, pois a nevasca atingira-lhes recém haviam chego no portão de entrada, pouco se via. O portão estava selado por correntes, todavia estas possuíam cadeado e serviam apenas como uma forma de acobertamento, fazendo crer, quem estivesse do lado de fora do edifício, que adentra-lo seria uma tarefa complicada. Domenico encontrara as correntes guardadas dentro da capela, e usara desta artimanha no intuito de afastar possíveis convidados indesejados, mendigos violentos, beberrões sem rumo ou qualquer outra ameaça. Desfez o entrelaço, desatando-as, assinalou para que todos passassem e refez o laço. Em seguida, abriu as duas portas, alinhadas, que eram a única de forma de entrar ou sair da ermida. Fechou-as assim que todos adentraram o recinto.
— Você e você – apontando para Marco e Augusto respectivamente – peguem a lenha atrás do balcão, aquele de onde, antigamente, os Padres conduziam as rezas – ordenou Domenico – está bem guardada, mas não será difícil de encontrar.
A pequena orada, fora abandonada há cerca de quinze anos, toda construída em madeira e pintada, exterior e interiormente com uma tinta de cor branca. A pintura estava terrivelmente desgastada e as janelas com os vidros quebrados. Lá, não era mais a “casa” de qualquer Deus, todavia tornou-se, com o passar do tempo, um excelente abrigo. O topo destacava-se em posição vertical, alinhado às portas de entrada e a parte superior assemelhava-se a uma redoma, com uma cruz - partida ao meio, fixa em posição vertical – que ditava o padrão das capelas ortodoxas, as telhas posicionavam-se em formato triangular. No interior, os antigos assentos estavam destruídos, poucos restaram em estado utilizável. Qualquer bem de valor estimável que anteriormente possa ter havido, fora roubado. Vendo que os desígnios da tarefa haviam encontrado o referido lenho, continuou a ordenar:
— Pois bem, trazes para cá, este é o ponto perfeito para principiarmos a fogueira – tal ponto, localizava-se logo abaixo do topo, este que possuía quatro janelas dispostas em forma de crucifixo ou da letra “x”, dependendo da perspectiva, quebradas e que serviriam de um escape à fumaça, semelhante a uma chaminé.
Durante este período, Barbosa e Nero apenas observavam as ações tomadas por Domenico. Após o pedido ser entregue e o montante à ser queimado posicionado, continuou:
— Muito obrigado. Pegarei a pinga e o fósforo para iniciarmos o processo, mas alerto a todos, será uma atividade penosa – atravessou a porta que ficava à direita do balcão, levando a uma saleta reservada, levou consigo a caixa, posicionou-a em cima de uma escrivaninha e desta mesma escrivaninha, tirou da gaveta o fósforo e enfiou diretamente no bolso direito da calça. No chão, à direita da secretária estavam três garrafas da pior cachaça do mercado, levou-as consigo, uma para cumprir a meta, uma reserva e outra para brindar os novos companheiros.
Retornou, esperavam-lhe amistosamente prostrados circundando o lenho.
— Cá está meus caros! A pior espécime de pinga! Jamais verão semelhante e será o suficiente – tirou a caixa de fósforos do bolso; encharcou o montante, usou metade da primeira garrafa e atirou um fósforo, o fogo não subira; usara o restante e atirou outro palito, mesma situação; por fim obrigou-se a utilizar a segunda garrafa, metade dela fora gasta para que, finalmente, as chamas ascendessem.

O quinteto de miseráveis observava atônito o dançar gracioso das labaredas. Agora podiam aquecer-se tranquilamente. Mantiveram-se em suas posições, acercando o fogaréu, embora fosse tarde da noite, ninguém sentia sono. Barbosa, decidindo tomar as rédeas de um princípio de conversa, começou apresentando os membros do antigo quarteto:
— Muito bem, como estamos aquecidos e protegidos da nevasca passemos a parte das apresentações. - Domenico levantou-se, cumprimentou um a um, conforme era introduzido aos nomes de seus novos camaradas - Chamam-me de Barbosa, – dotado de um olhar apaixonado e carismático, apresentava uma protuberante barba grisalha que passava-lhe a metade do peito, tinha pouco mais de um metro e oitenta e cinco. Estava em seus trinta anos, rugas permeavam seu rosto, aparentando que era mais velho, o cabelo há muito abandonara sua cabeça e apresentava leve índice de sobrepeso – este à sua esquerda é Augusto, - possuía estampado em seu rosto um bigode grisalho à alemã, demasiado grande por falta de corte e cuidado, estava em seus quarenta anos, seu cabelo era curto com um leve topete, a cor era semelhante à do bigode. Sua barriga indicava obesidade – este à esquerda de Augusto é Nero, – com uma barba pequena e loira (despontando, como os demais, ao grisalho), aparentava porte mediano, encontrava-se no auge de seus trinta anos, ao contrário do bigode, o cabelo continuava em um tom normal de loiro – por fim, este à sua direita, é Marco – disparadamente o mais bonito do grupo, este em seus vinte anos, o mais novo de todos os presentes, possuía o rosto limpo de qualquer barba ou bigode e seu porte, semelhante ao de Nero, era mediano; Todos vestiam trapos, inclusive o novo membro.
— Sinto-me honrado de conhecer a estes cavalheiros por seus respectivos nomes. Vamos lá, digam-me como, semelhante a minha pessoa, foram parar nesta complicada situação! Claro, se não importarem-se, de modo algum pretendo aborrecer alguém... – entusiasmou-se Domenico, seguido de um leve cuidado quanto à suas afirmações.
Nenhum dos homens pareceu importunar-se.
— Vê bem, eu vim de um bairro pobre da cidade, sempre fui das ruas, estou acostumado com esta vida, pouco possuo a comentar, entretanto posso ser útil quando necessário. – pontuou Marco, em um tom deprimente.
— Anima-te meu caro, desgraçados são aqueles, que antes possuíam e agora nada têm, estais no lucro – disse Augusto, procurando animar os ânimos do amigo.
— Encontramo-nos na mesma situação, no fim todos somos os desgraçados. Apenas por que possuístes bens outrora, isso não torna vossa atual condição pior do que a minha, isto é, a dor que todos sentimos, esta, psicológica não pode ser medida, ao contrário da dor física.
— Perdoa-me, não entendeste meu ponto, talvez tenha me expressado erroneamente. Pois bem, a dor psicológica realmente não pode ser medida, como bem disseste, entretanto o trauma imposto na psique da pessoa infringida pela mazela que citei, é maior. Atenta-te, se não tens nada, está acostumado, naturalmente e inconscientemente, à conformar-se com tua condição, portanto aceita-a mais facilmente, ou estou errado? Contudo, quando possuístes bens e estes bens foram tomados de ti, seja pelo infortúnio ou pelo merecimento, tendes a revoltar-se. Imaginas a hipotética situação de uma pequenina criança que tem seu brinquedo favorito furtado, ela esperneara até cansar-se (estado pleno de conformação), ou, até quando este referido brinquedo for recuperado. Se ofereceres um brinquedo de mesmo gênero, mas que destoe da essência do anterior, ela reparará e se entristecera, todavia se presenteá-la com um igual ao anterior, ela se aquietará (lembra que a analogia permanecerá com lógica, se analisada uma criança, obrigatoriamente, muito pequena). Se nada fizeres, ela definhará em tristeza até conformar-se. Perdendo tudo, do dia para noite, destrói suas perspectivas e planejamentos. Agora, me entendeste melhor? – falou Augusto em um tom conciliatório.
— Compreendi. – disse firmemente. Seguindo tua analogia, dinheiro perdestes e apenas dinheiro recompor-te-ia ao estado anterior?
— Exato meu caro. Esta seria uma situação plausível.
— Sabem de uma coisa? Possuo um livro, escrito por um filósofo que procura, através de teorias, explicar vossa situação e por consequência explica muitas outras. Aguardem alguns segundos, que irei busca-lo. – Domenico levantou-se, retornara a saleta onde deixara a caixa, abriu-a e procurou um livro de Rousseau, “Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens”, tomou-o. Escolhera-o como um exemplo a ser compartilhado. Retornou. – o autor deste livro é Jean Jacques Rousseau, importante pensador Suíço e contribuinte às ideias Iluministas no período da Revolução Francesa. Partindo de uma das mais importantes frases de sua autoria: “O homem nasce bom, entretanto a sociedade o corrompe”; vejam bem, o homem, imerso em um convívio que destoe da concepção atual de sociedade, é um ser bom. Entretanto, quando as bases dessa mesma sociedade foram lançadas e o homem aumentou de forma exponencial seu convívio social, quando a monetização e as hierarquias governamentais surgiram, intrínseco nestas bases estava a ganância e a ambição mal intencionada. As desigualdades vêm em decorrência das péssimas administrações e por fim, estas (refiro-me às administrações estatais) vêm em decorrência das pequenas ou grandes corrupções. O homem estando em uma concepção “selvagem”, anterior à sociedade, inconscientemente coibia tais mazelas. Procurarei não divagar demasiadamente, posso ter distorcido tais ideias e as ajustado ao meu pensamento próprio.
— Aparentas ser demasiado culto para um simples, ex-gerente, vamos lá, explica-me, que caixa era aquela que trazias consigo? De onde veio este livro que agora, tens em mão? – Perguntou intrigado Nero, há muito a caixeta lhe intrigava.
— Interessante, as perguntas que fizestes correlacionam-se. Veja bem, a caixa possuía os meus últimos bens pessoais, fui busca-la há algumas horas atrás e no caminho, encontrei-os, o resto já sabes, contudo não perguntastes isso. Muito bem, dentro da caixa estão meus livros que foi o meio, que encontrei para lapidar meu cérebro, ou seja, através do conhecimento universal, este que todos temos o direito de usufruir, seja ele por um preço acessível ou gratuitamente. São no total trinta volumes, dos mais variados escritores, todos à disposição do grupo, todavia ressalto a importância da organização, os livros estão em ordem alfabética, se desejarem pegá-los mantenham esta ordem.
— Ficamos gratos pela generosidade – exclamou Nero, novamente, fazendo de suas palavras a dos restantes – Retornando ao teor de vossa pergunta, eu e Augusto viemos de famílias burguesas e abastadas, donas de um imenso império, nossos pais eram sócios e grandes amigos. Quando ambos faleceram a empresa passou às nossas mãos, contudo ela já estava ao ponto de falência. Falimos, perdemos tudo que tínhamos e cá estamos – falou, de forma deprimida.
— Então, já conheciam-se antes dos anos de tormenta?
— Exatamente; Exatamente! – falaram Nero e Augusto, conjuntamente, embora sem a devida intenção.
— Os pecados de nossos pais. E você? – apontou para Barbosa.
— Traía minha mulher constantemente e fui chutado para fora de casa. – imergiu em gargalhadas, o grupo seguiu-o – Estou brincando com os senhores. Vim de uma família de classe média, envolvi-me em jogos de azar e perdi tudo! Veja, a verdadeira história é tão banal quanto à da brincadeira que fiz – novamente ria de sua própria desgraça, há muito conformara-se com a pobreza.
— Muito bem, bebamos à nossa desgraça! Como não possuo copos contente-se em beber no bico da garrafa! Não paremos até esvaziá-la! – o novo quinteto brandiu em felicidade, beberiam não apenas aos infortúnios, mas também a esperança, esta última que fora a única coisa que os alimentara, desde a ida para as ruas.

Era de manhã, a nevasca passara e o bando encontrava-se numa tremenda ressaca. Barbosa acordou, sentia a cachaça de péssima qualidade lhe queimar o fígado, acompanhado de uma forte azia. Ainda atordoado, levantou-se e parou à contemplar a beleza que a capela fora anos atrás, quando ainda estava em funcionamento. Pensou consigo: “A beleza deste recinto, outrora, devia ser estonteante. Quem dera se eu ainda possuísse minha vida anterior, visitaria frequentemente a casa de Deus, o fato de ser um mendigo impossibilita esta visita” - todavia reconsiderou - “Seria Deus, um ser mesquinho que importe-se com os ganhos em detrimento da alma? Jamais, jamais... Isto seria, certamente, uma ofensa ao criador – agitou-se – Estou divagando bobagens, deve ser o efeito do álcool! – concluiu. “Procurarei uma Igreja assim que estes beberrões acordarem, preciso informa-los para evitar preocupações! Mas, espere, sou mais um abandonado parte de um grupo que reúne-se no intuito de diminuir suas dores, embora tenhamos desabafado e bebido aos mesmos motivos, pouco devem importar-se comigo... Bem, isto não será mais de preocupar-me – neste exato momento Marco acordara.
— Por que estais parado feito um idiota, Barbosa? Admirando a destruição e o abandono? – Marco mal havia acordado e soltava duas perguntas em tom sarcástico, o efeito do álcool também atingia-o, gargalhou levemente, Barbosa o encarou.
— Estive pensando, terei com o divino uma conversa, e será agora – falou contentemente.
— Pois vá, informarei os demais de teu paradeiro!
Acenou positivamente, de forma a agradecer Marco, rumou a porta da ermida, abriu-a e se foi. Poucos minutos se passaram Augusto acordou, seguido de Domenico e por fim Nero. Antecipando-se à pergunte, Marco objetivou:
— Barbosa, meio embriagado, saíra a pouco, disse que deseja ter uma conversa com o divino! Aparentava delirar um pouco, mas quem sabe? Quem sabe estava em perfeito juízo?
— Bem, não importa, a pouca comida que tenho guardada não será o bastante para suprir nós cinco! Proponho que devamos ir atrás disto, imediatamente. – Falou Domenico, no intuito de estabelecer uma relação de liderança para com os demais. Imediatamente, Nero interveio:
— Me oponho, veja bem, apenas uma corrente sem cadeado impede que outros maníacos invadam este recinto! Sugiro que busquemos meios alternativos de proteger nosso pequeno “lar”, afinal, de que basta estarmos “abastados” de comida, com a nossa segurança comprometida? Estaríamos alimentando outras bocas! – Percebera desde o início que Domenico procurara assumir a liderança da trupe, muitas eram suas boas intenções, da mesma forma suas perguntas. Sentir-se substituído por outro, encolerizava-o. Pensava consigo: “Ele é apenas um estranho, jamais influenciaria de tamanha forma, em tão pouco tempo. Uma coisa é certa, se Augusto escutá-lo em demasia, em detrimento de minhas propostas, neste momento estarei perdido e serei subjugado.”
— Pois bem, como quiseres, seguiremos seu plano, mas alerto-os, precisamos encontrar alimentos rapidamente, o pouco que resta durará uns dois dias e nunca é fácil juntar alguns trocados, afinal, os tempos, atualmente, são tempestuosos, a pobreza assola muitos! Não tardemos.
Retiraram-se, os quatro, da pequena Capela.
Última Edição: há 5 anos 4 meses por Domenico. Motivo: Engano
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Uma Pequena Palavra...

“Todo o dia, devíamos ler um bom livro, uma boa poesia, ver um quadro bonito, e, se possível, dizer algumas palavras sensatas.”
Johann Goethe