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TÓPICO: Há procura de opiniões

Há procura de opiniões há 1 mês 2 semanas #87762

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Boms dias a todos,
Envio um inicio de livro que para aqui tenho já há talvez dois anos, daqueles que se escrevem sem a mínima intenção de acabar. Ultimamente tenho tido aquela vontade de voltar a escrever. E como opiniões também são direções, fico à espera das vossas.


"Estamos cá muito longe, onde a terra acaba e dá lugar ao mar.
Como cá chegamos é complicado de explicar. Ainda hoje discutem, se calhar agora mesmo, lá no meio do terreiro; se foi Wilme, que numa floresta cortada seguiu o sol os ventos e a corrente, cego a conselhos mas seguro da sua gente, forte guerreiro, e ainda antes da viagem, já de grande fama
(era ele o mensageiro do Rei) .
Certo é que veio cá parar. Isso sei-o porque cá estou, a duvida e a discussão prende-se sempre com os feitos de Wanda, ela que ainda hoje é dita dona de toda a gente.
Para mais, era a única de sangue Real, e herdeira da tal floresta, que seu marido cortou para se fazer ao mar.
Vieram juntos, sabe-se. Foi ela quem escolheu o sitio,
dizem; mas pouco tempo depois morreu, e para mais com o filho na barriga.
Não queria ficar, ainda hoje acusam.
Metade dos postes neste pontão onde me sento são ainda dos dela, dela e dessa floresta quem sabe agora já renascida. É bem possível, foi há tantos anos, duzentos para cima.
Têm as faces escurecidas, riscadas e cortados, e algures neles estarão também as minhas iniciais, há muitos anos cravadas, J.S.
Pobrezinhas, já irão tão desbotadas, que por muito que tente não as consigo encontrar. Entre lapas, mexilhões, rascunhos de jovens de tantas gerações, bolor e tanto, tanto lodo; um nome acaba por perder-se.
É pois aqui que guardo e aguardo, sempre com um olho no mar, à espera dos barcos que de lá longe vêm carregados de novidades, para de cá saírem com o precioso metal. O outro olho guardo para os bandidos, que também os há! São fracos e pouco trabalho dão. Batalhas a serio nunca vi, já houve o tempo.
A minha atenção prende-se mais com o horizonte, la procuro entre os dois azuis as velas. São poucas as que aparecem, dez a maioria das vezes, vinte num bom ano.
De há quatro meses para cá, nenhuma. Espero-os ansioso, esses homens do mar. Contam-me historias das enormes cidades de pedra e barro, talhadas por gerações sob gerações, com as paredes altas e os muros seguros, e os palácios, e os mercados, e os templos, e toda aquela gente; cem, quinhentos, mil.
Os de lá quando cá vêm, riem-se de mim enquanto asseguram - somos sem fim.
Tantas vezes ouvi ainda - Vocês d´aqui são novos, tão novos que já se esqueceram. Que sentido terá isso, se nós viemos de lá, tão novos assim não podemos ser, e se fossemos? Quem se esquece são os velhos! E novos mesmo são os miúdos nus que lá ao longe, de lua a lua vejo atirarem-se à agua. Novos são os pais deles, que com pelos tapam a pele e
cá vêm trocar. Até mesmo os mais velhos e ricos dos deles, que de orelhas ornamentadas andam de roupa e pele turquida, com aquelas mantas coloridas num ziguezaguear de mil cobras; quando cá aparecem, vejo-os quase como que a mendigar. Isso de pedir é coisa de criança.
Essa gente sim é jovem, jovem do nascer ao morrer.
Nós não, nós vimos de lá longe, e apesar de os nossos muros não serem tão altos, sei-os seguros. E mesmo não me sentindo velho, sei que levo nos ossos as gerações dos que la ficaram, a firmeza com que nos moldaram. Quem sabe até, um pouco do tal trovão.
Outras vezes temo que os do mar tenham razão, falam-me de cidades sabendo que nunca as vi, que nunca as entenderei, não como eles. Falamos a mesma língua, e contudo sinto que comigo não partilham todas as suas palavras. São tolos! Eles, se fizerem realmente isso, os do mar; e tolos são também estes ventos que volta não volta me agitam o pensamento.
Algo me alerta, lá ao fundo o traço recto do mar permanece inalterado. Vem contudo, sinto-o. Vem do sul, sai por traz dos rochedos. O vento é o normal da primavera, no entanto navegam como os barcos do Verão. Lá terão os seus motivos acredito, grito e assobio - Lá vem barco! Mexam-se! - Das tendas saem homens e mulheres, o filho de Ezek corre, vai em direcção à aldeia dar a novidade. Serão duas horas com pernas de rapaz.
Esperamos agora todos no pontão o barco que la vem, mas ao invés de virar para nós, afasta-se e arreia a vela."

Boas leituras!
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