Bem-vindo, Visitante
Username: Password: Memorizar
  • Página:
  • 1

TÓPICO: José Régio (porque às vezes a vida é assim)

José Régio (porque às vezes a vida é assim) há 6 meses 3 dias #87739

  • terduraes
  • terduraes's Avatar
  • DESLIGADO
  • Junior Boarder
  • Escritora e poeta
  • Mensagens: 38
Poema do silêncio
José Régio

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. Ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.
"O fantástico não está fora do real, mas no sítio do real que de tão visível não se vê.", Vergílio Ferreira
O adminstrador desactivou a escrita pública.
  • Página:
  • 1
Moderadores: fbeatriz
Time to create page: 0.471 seconds

Últimas Opiniões

  • A Morte do Papa
    Depois de ter lido todos os livros anteriores de Nuno Nepomuceno, este foi o primeiro em que tive ...
  • 24.02.2020 00:22
  • Pão de Açúcar
    Faz agora em fevereiro catorze anos que se deu um acontecimento que apaixonou o País e deixou os ...
  • 02.02.2020 22:44
  • Budapeste
    Este livro fala de uma profissão que muitos podem considerar ficção, mas é muito real e mais vulgar do ...
  • 18.01.2020 23:22

Uma Pequena Palavra...

"O Homem e o escritor são a mesma pessoa. Mas este facto constitui a maior descoberta de um escritor. Precisei de muito tempo - e de quantas páginas escritas! - para chegar a essa síntese."
V.S.Naipaul, in O Enigma da Chegada.