Afinal quem é Bob Dylan?

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Quem é Bob Dylan? Todos o conhecem como um músico americano, especialmente ligado à música de protesto, à música de intervenção. Mas Dylan é muito mais do que isso. Aliás, ele não gosta desse rótulo. Aqui ficam algumas notas biográficas, com o intuito de informar os nossos leitores e mostrar que, afinal, sempre merecia ganhar o Prémio Nobel de Literatura.

Bob Dylan é o mais recente vencedor do Prémio Nobel de Literatura. A sua eleição para o Nobel 2016 foi uma surpresa para muita gente que o considerava um grande compositor e intérprete musical, mas não o conseguia ligar minimanente ao mundo da literatura. É comum os autores de canções serem apelidados de "letristas", mas menos comum serem chamados "poetas", a não ser que sejam também autores de poemas não destinados a serem musicados. Na altura, um colunista português de cultura e arte afirmou que, "por mais edições das suas letras em formato de livro que existam, o músico americano acaba por continuar a ser isso, um músico."

No entanto, houve também quem previsse a possibilidade de Bob Dylan poder ser o vencedor. O seu raciocínio apoiava-se no facto de haver sinais de alguma mudança nos critérios, a partir de 2015, quando o Comité Nobel surpreendeu ao escolher a jornalista ucraniana Svetlana Alexievitch. Já nessa altura, a sua escolha não foi unanimamente aceite, com o argumento de que jornalismo não é o mesmo que literatura. Certo é que a opinião pública começou a reformular os conceitos e hoje começa a ser consensual que todo o tipo de escrita é literatura, independentemente do género literário. Só depende da maior ou menor qualidade literária de quem escreve.

Bob Dylan

Bob Dylan (pseudónimo de Robert Allen Zimmerman) nasceu em Duluth, Minnesota, em 24 de Maio de 1941, descendente de emigrantes judeus da Lituânia, Rússia e Ucrânia. Cresceu na pequena cidade de Hibbing. Ainda em plena infância, aos dez anos, iniciou a sua trajetória poética e, ao ingressar na adolescência, autodidata, aprendeu sozinho a tocar piano e guitarra. Embora tenha debutado no universo musical do rock, realizando covers de Little Richard e Buddy Holly, em 1959, ao entrar na Universidade de Mineapolis, definiu-se pela folk music.

Como aconteceu com tantos outros músicos, Bob Dylan procurou nos agitados anos 60 novas vias de expressão, dando voz aos deserdados e abordando as suas próprias experiências. Mas desde muito cedo as suas composições integraram e revitalizaram também as tradições musicais norte-americanas, as baladas do Norte e os blues do Sul.
Dylan procedeu assim a uma renovação musical que se prolonga até aos nossos dias, absorvendo e expandindo velhas tradições e levando a literatura ao rock‘n’roll.

Gravou o seu primeiro disco no ano de 1962, composto principalmente de covers, mas não lhe rendeu praticamente nada. No entanto, o seu segundo álbum, The Freewheelin' Bob Dylan, foi um enorme sucesso. Seguiu-se-lhe A Hard Rain's are Gonna Fall, no qual se encontra o hit que consagrou o compositor e que mais tarde se tornaria o hino do movimento pelos direitos civis, Blowin' in the Wind. Este lançamento foi o desbravador de uma série de clássicos que converteriam o cantor-poeta num dos mais importantes compositores da nossa época, tendo gravado mais de 45 discos.

Bob Dylan nunca se habituou ao rótulo de cantor de protesto da década de 60, apesar de várias das suas canções, como A hards-rain a gonna-fall e Masters Of War, entre outras, terem sido apropriadas por vários grupos em manifestações de cunho social. Dylan inspirou vários mitos, entre eles John Lennon, David Bowie, Bruce Springsteen, U2, Caetano Veloso e Renato Russo.

A sua apresentação no Newport Folk Festival, em 1963, convidado por Joan Baez, estrela da esfera folk nesse momento, consagrou-o como um ídolo deste estilo musical. O êxito do seu disco The Times They Are-A-Changing, lançado em 1964, fortaleceu ainda mais a sua posição entre os maiores artistas deste género.

Não tardou, porém, para que o instável cantor se distanciasse do movimento que o levou ao estrelato e passasse a compor músicas de estilo mais personalizado, interiorizado, portador de uma visão do mundo muito própria. As bandeiras de luta contra o racismo, a guerra fria, as injustiças sociais, entre outras, dão lugar a questões existenciais como as frustrações do coração, afetos destruídos, poetas beats nómadas, nos quais se inspirou, jornadas movidas por visões surreais e fragmentos de sonhos. Este período de transformação ocorre entre 1964 e 1966, quando entrou novamente em contacto com o rock, através dos Beatles e começou a tocar e gravar com guitarra elétrica. A sua nova opção roqueira escandalizou os fãs da sua fase folk, muitos dos quais não conheciam as suas origens no rock n’roll.

A maturidade

Apesar de ser acusado de atraiçoar o folk, obteve grande sucesso junto da crítica e do público. O hit Another Side nasceu justamente neste momento, em 1964. Relacionou-se com músicos como John Lennon e gravou os seus principais álbuns, com algumas das suas canções mais consagradas: Maggie's Farm, Subterranean Homesick Blues, Gates of Eden, It's Alright Ma (I'm Only Bleeding), Mr. Tambourine Man, Ballad Of A Thin Man, Like a Roling Stone, Just Like a Woman, entre outras.

Em 1966, durante uma tournée, sofreu um grave acidente de moto na Inglaterra, que o afastou dos espetáculos até 1968. O stress, a fama e o consumo de anfetaminas deixaram-no esgotado. Quando retornou aos palcos, causou novamente surpresa e polémica ao adotar o country, a partir do disco John Wesling Hardin, seguido por Nashville Skyline, no qual a sua nova tendência se intensificou, com a presença da clássica Lay Lady Lay.

No princípio da década de 70, a sua carreira sofreu um certo declínio, com a sua vida pessoal muito complicada e o seu casamento em crise. Decidiu dar uma reviravolta na carreira e retornou com The Band, grupo de sucesso que já o acompanhara antes. Em 1974, lançou-se numa nova tournée e viu-se novamente alçado ao topo do sucesso. São deste período Blood On Tracks, lançado em 1975, e Desire, de 1976.

Dylan divorciou-se em 1977, entrando numa profunda crise existencial, a qual ecoa na sua produção musical. Nascido e criado judeu, Bob converteu-se ao Cristianismo e passou a gravar álbuns de música gospel, com o objetivo de difundir a mensagem cristã. Esta foi a fase mais contestada da sua trajetória, pois se distanciou dos seus clássicos e deu uma reviravolta na sua carreira. Apesar das críticas, lançou três álbuns nesse estilo, dos quais o mais primoroso, Slow Train Coming, de 1979, proporcionou a Dylan o prémio Grammy de melhor vocal masculino, com a música Gotta Serve Somebody.

Instável como sempre, em 1983 abandonou o filão cristão na esfera musical e uniu-se a Mark Knofler, do grupo Dire Straits, na produção musical dos seus discos. Juntos, lançaram Infidels, retornando às tradições do judaísmo e foi novamente bem acolhido pelos críticos. Redimiu-me perante os seus fãs, com o regresso aos palcos.

Em 1988, iniciou o que se conhece como ‘Never Ending Tour’. Realizou uma série de apresentações com o grupo Grateful Dead, gravando o disco Oh Mercy, em 1989. Pouco depois, retornou ao sucesso, integrado no Travelling Wilburys, tendo como companheiros George Harrison, Tom Petty, Jeff Lynne e Roy Orbinson.

A consagração

Nos anos 90, Dylan retomou o folk e realizou um show acústico para a MTV, em 1994, mas apenas em 1997 gravou um novo CD com músicas originais, Time Out Of Mind, vencedor de diversos Grammy, elogiado pela crítica. Na Rolling Stone, que edita uma lista com as 500 melhores músicas da história, a sua canção Like a Rolling Stone obteve o primeiro lugar.

Em 2005, foi lançado o documentário No Direction Home, dirigido por Martin Scorsese, que mostra a trajetória musical de Bob Dylan desde as suas primeiras aparições até à sua ascensão ao estrelato em 1966. O filme apresenta cenas raras, tanto de apresentações ao vivo como de entrevistas, e veio renovar da curiosidade e o fascínio pela imagem e a produção de Dylan, junto das gerações mais jovens, tendo contribuído para que o novo CD, Modern Times, de 2006, fosse um dos mais vendidos nos EUA.

No dia 3 de maio de 2012, Bob Dylan foi condecorado com a Medalha da Liberdade, a maior honra civil dos Estados Unidos. Na cerimónia, Dylan foi condecorado pelo presidente Barack Obama, que não poupou elogios ao cantor. Mas Dylan entrou mudo e saiu calado, ao seu estilo.

Semelhante foi a sua reação à eleição para o Prémio Nobel de Literatura 2016. Qualquer outro autor se sentiria muito honrado e aproveitaria o facto para se promover. Dylan começou por se alhear do acontecimento, tendo continuado serenamente o programa de atuações que estavam programadas. Houve quem chegasse a afirmar que ele iria recusar o prémio. Afinal, aceitou, mas não compareceu na tradicional gala que se realizou no dia 10 de dezembro, porque "já tinha outros compromissos", afirmou. Enviou um texto para ser lido na cerimónia e Patti Smith, sua amiga e admiradora de longa data, encantou a douta assistência com a interpretação da canção A Hard Rain's A-Gonna Fall. A 'novela Nobel' foi, finalmente, encerrada no dia 1 de abril de 2017, quando Bob Dylan participou numa cerimónia privada realizada num hotel de Estocolmo, na qual lhe foi entregue o prémio de oito milhões de coroas suecas (cerca de 839 mil euros), por ocasião da sua deslocação à Suécia, para a realização de três espetáculos.

O escritor

As composições de Bob Dylan até 2001 estão reunidas nos dois volumes "Bob Dylan - Canções - Volume I (1962-1973)" e "Bob Dylan - Canções - Volume II (1974-2001)", editadas em Portugal em edição bilingue (inglês e português), pela Relógio D'Água. Pela mesma editora foi editada a recolha de textos "Crónicas - Volume I" e ainda "Tarântula" (1ª edição, Quasi Edições - 2007), um livro de poemas publicado por Bob Dylan, quando ainda era um jovem compositor.

Fontes:
www.segredodoslivros.com/noticias/bob-dylan-vence-premio-nobel-2016.html
www.facebook.com/relogiodaguaeditores/posts/1142694452474078
www.wook.pt/autor/bob-dylan/17604
www.infoescola.com/biografias/bob-dylan/
www.ebiografia.com/bob_dylan/
veja.abril.com.br/entretenimento/com-quase-4-meses-de-atraso-bob-dylan-recebe-nobel-de-literatura

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