História da Feira do Livro de Lisboa

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A 87.ª edição da Feira do Livro de Lisboa vai decorrer mais uma vez no Parque Eduardo VII, realizando-se de 1 a 18 de junho de 2017, informou a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), a entidade organizadora. Nós, os “loucos” pelos livros também estamos a organizar o nosso tempo e a nossa carteira para tomarmos a Feira de assalto. Mas será que sabemos como e quando começou, onde se realizou ao longo destas 87 edições? O Segredo dos Livros vai desvendar-lhe um pouco do maior certame livreiro do nosso país. Venha daí!

A Feira do Livro de Lisboa, que vai este ano para a sua 87.ª edição, proporciona o espaço ideal para a aquisição de livros novos e antigos, a preços acessíveis. Aí, é possível encontrar livros de todos os géneros, desde romances a livros técnicos, passando pelos clássicos e pelas novidades que podem hoje encontrar-se nas montras das livrarias. Neste espaço, o visitante terá também a oportunidade de contactar de perto com livreiros e autores.

Mas quando começou e onde se realizou ao longo destas 87 edições? A Feira do Livro de Lisboa é um certame que se realiza anualmente desde maio de 1930 na cidade de Lisboa e o seu primeiro poiso foi a Praça D. Pedro IV, mais conhecida pelo Rossio.

O evento literário tem sido realizado todos os anos, com uma regularidade impressionante. Não nos esqueçamos de que, pelo meio, houve a 2ª Guerra mundial, para além de anos instáveis, social e politicamente falando, como 1974 e 1975. No dia 14 de maio de 1982, o parque foi utilizado para uma missa campal ao ar livre, integrada na primeira visita do Papa João Paulo II a Portugal, obrigando a organização a preparar a Feira desse ano no tempo record de 13 dias.

O princípio

Em maio de 1930, ano em que morreu Arthur Conan Doyle, pai de Sherlock Holmes, nasceu Neil Armstrong, o primeiro homem na Lua, e Salazar assumiu a pasta das Finanças em Portugal, um evento agitou a capital: a “Semana do Livro”, que atraiu curiosos e entendidos à Praça D. Pedro IV. Se teve apoiantes, também teve detratores. O Diário de Lisboa ironizou, chamando-lhe “cerca de letrados” (os pavilhões estavam dispostos em círculo, à volta da fonte no centro da Praça – ver foto).

Em 1931, a Feira do Livro de Lisboa foi organizada pela então chamada Associação de Classe de Livreiros de Portugal, hoje a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros que, desde essa altura, se tornou um dos principais pilares do evento. Aconteceu, de novo, na Praça D. Pedro IV, mais conhecida por Praça do Rossio, tornando-se um dos momentos-chave da cidade. Contou com 17 pavilhões e foram 12 dias de festa em volta das palavras.

O evento foi transferido para a Avenida da Liberdade (perto dos Restauradores) em 1940. Em 1957, a festa regressou ao Rossio, onde se manteve até chegar ao Parque Eduardo VII em 1980. No entanto, em 1996, os pavilhões foram montados entre a Rua Augusta e o Terreiro do Paço, mas no ano seguinte voltou ao Parque, até hoje.

Curiosamente, foram ponderados outros locais para receber a Feira. A Alameda D. Afonso Henriques entrou na lista, mas logo foi excluída, por culpa dos difíceis acessos. O Jardim da Estrela foi eliminado da corrida por falta de espaço, coisa que o jardim do Campo Grande tinha. Mas aqui o problema era a Feira Popular, que ameaçava dividir o público e criar demasiada confusão na zona. A escolha do Parque Eduardo VII não foi, propriamente, uma escolha consensual, por ser um espaço pouco frequentado, mas estava no coração da cidade e estava mais perto dos locais das edições anteriores e acabou por ser o escolhido. A experiência ditou que foi uma boa escolha.

A entidade organizadora

A Feira do Livro de Lisboa é uma organização da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) desde a sua 1ª edição oficial em 1931. Na altura, esta entidade chamava-se Associação de Classe dos Livreiros de Portugal e tinha sido criada em 1927, em substituição da Associação de Livreiros de Lisboa. Em 1939, por força da legislação laboral do Estado Novo, passou a denominar-se Grémio Nacional dos Editores e Livreiros. A atual designação é de maio de 1974, na sequência da “revolução dos cravos” e é reconhecida como Pessoa Coletiva de Utilidade Pública

O Presidente da Associação de Classe dos Livreiros de Portugal era, em 1931, Ventura Ledesma Abrantes. Natural de Olivença, foi um paladino da luta pela reintegração de Olivença em Portugal. Tinha uma livraria, que era também uma Casa Editora, na Rua do Alecrim (n.º 80 e 82), que fechou as suas portas dois anos antes da sua morte em 12 de junho de 1956, no Estoril, onde residia. Não se limitava a vender livros. Foi membro ativo de uma das mais notáveis tertúlias do Chiado, mais concretamente daquela de que foram também membros Teófilo Braga, Egas Moniz e António Sardinha. Ventura Abrantes editou livros importantes, como a “Vida Sexual – Fisiologia e Patologia”, de Egas Moniz (livro que mais ninguém quis editar por se considerar o tema imoral…) , “In Memoriam”, de Camilo Castelo Branco, “Vida e Obra de Júlio Dinis”, de Egas Moniz e “Como Perdemos Olivença”, de Queirós Veloso. Foi membro da então seletiva Sociedade de Geografia de Lisboa e ainda da Associação de Arqueólogos Portugueses. Escrevia fluentemente, e colaborou em vários jornais e revistas de Lisboa e do Porto. Distinguido várias vezes, foi condecorado com a Ordem Militar de Cristo.

É Presidente da atual Direção João Amaral (LeYa), sendo Vice-Presidente João Alvim (Bertrand Editora). São vogais Ana Neves (El Corte Inglés), Carlos Pinto (Edições Almedina), Henrique Mota (Principia Editora), Luís de Carvalho (Editorial Presença) e Rita Annes (Lidel).

A Feira do Livro de Lisboa nasceu, como vimos, pela mão dos livreiros, mas tem dado cada vez mais espaço às editoras. No entanto, hoje livreiros e editores confundem-se cada vez mais. Veja-se o caso da Bertrand, da Leya ou da Almedina, por exemplo. É caso para dizer que a história se repete.

Crédito das fotos: Estúdio Horácio Neves.

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Carlos Ruiz Zafón in A sombra do vento