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| La Vanguardia entrevista Gabriel Magalhães |
| Sexta, 02 Julho 2010 01:15 |
![]() O Jornal La Vanguardia, de Barcelona, publicou na sua edição do passado Domingo, dia 27 de Junho, uma entrevista com o escritor Gabriel Magalhães, autor do recém-publicado “Planície de Espelhos”, um livro editado pela Difel. Apresentamos, de seguida, uma tradução dessa entrevista: AGUENTA-TE MAGALHÃES Surpreende a habilidade com que Portugal se está safando da má imprensa de Espanha no mundo. Conheci Gabriel Magalhães na tarde de 8 de Junho de 2009 em Madrid e desde então não o tornei a ver. Lembro-me de um homem magro, de olhar irónico, envolvido na gravidade de Pessoa. Fez-me pensar, não sei porquê, em Antonio Tabucchi, interessante escritor italiano que tem metade da sua alma em vôo perpétuo sobre Portugal. Um lusitano do grupo aéreo. O grupo dos portugueses aéreos não é fácil de entender. São uma fracção inédita. Um ocidente oriental em que as palavras nunca se perdem após ser pronunciadas; um oriente atlântico, cujas frases flutuam com a ajuda de dois ou três significados que raramente se excluem entre si. Portugal inteiro levitaria, se não fosse a existência do outro grupo, o dos portugueses terráqueos e imperativos, em que militava José Saramago. Aos espanhóis, regra geral, atrai mais este segundo grupo. O inefável Mourinho, que em breve exercerá um grande magnetismo sobre a Espanha deprimida e irritada, pertence a uma das variantes extremas do Portugal terráqueo: intuição, inteligência aguda, dureza mineral e um trogloditismo fácil. Magalhães falou num castelhano perfeito e deixou a plateia da Casa da América encantada com uma finíssima ironia sobre as diferenças entre os dois países. Nunca tinha ouvido falar com tanta subtileza da perpétua tensão peninsular. “Diferencia-nos – começou por dizer – uma distinta maneira de ir aos bares. Na Espanha, onde as distâncias são grandes, as pessoas amontoam-se na barra do bar até não caber um alfinete; em Portugal, onde as distâncias são mais curtas, as melhores cafetaria convidam ao afastamento: cada um sentado na sua mesa, cada um no seu mundo”. Cumprimentei-o no final do evento (organizado pela incansável Maria Lurdes Vale, actualmente animada colunista do Diário de Noticias) e trocámos cartões. Não o tornei a ver desde então, mas tenho notícias dele. Graças ao prazer silencioso de uma correspondência à antiga, sem pressas, tratando-nos por você – como ainda é norma em Portugal - , fingindo que os e-mails são transportados pelo vagão postal do expresso nocturno de Lisboa, hoje tenho o prazer de vos falar de um grande escritor que, lentamente, sem alardes, está a despertar o nteresse dos leitores de La Vanguardia. "Quem é este Magalhães, que escreve tão bem?" perguntava-me há algumas semanas, o deputado Carlos Aragonés, castelhano áulico que lê tudo. Procuro a resposta na pilha da correspondência. “Iberista? Não, não, eu não me considero iberista, embora alguns em Portugal me definam assim. O iberismo é um anacronismo. Foi algo que foi inventado no século XIX como um neo-imperialismo partilhado por dois países que se sentiam esgotados. O iberismo é como o abraço dos dois jogadores de boxe, quando já não podem mais. A mim interessa-me outro sentimento: o de peninsularidade. A peninsularidade é, antes de mais, um projecto cultural: uma atitude que visa apreciar a grande riqueza da nossa diversidade. Na verdade eu sou um agente duplo peninsular.” Nascido em Angola em 1965, cresceu no País Basco, onde o seu pai trabalhou como geólogo de uma exploração mineira de Guipúzcoa. "De Angola não recordo nada, mas tenho orgulho de ter uma gota simbólica de sangue negro; cresci entre crianças galegas, castelhanas e extremenhas, no País Basco, uma terra magnética, um mundo assombrado que funciona como um ímã. Gosto muito do País Basco e nele ganhei o gosto de dizer o que acredito ser a verdade. Depois, estudei Literatura em Salamanca e enamorei-me de Alba de Tormes, a terra de Santa Teresa. Ali deixei os extremos da política e comecei a viver no centro extremo da fé ". Magalhães é um crente. Professor de Português e Literatura Hispânica, lecciona na Universidade da Beira Interior e vive na cidade da Covilhã, não muito longe da fronteira com Castilla y León. Acaba de publicar o seu segundo romance: Planicie de Espelhos: "Uma narrativa de terror para saber se estamos verdadeiramente vivos. Hoje não é fácil estar verdadeiramente vivo. Estamos rodeados por tantas ficcões que podemos tornar-nos numa delas com facilidade. Uma sociedade de imagens é uma sociedade de fantasmas." Um dia, espero que em breve, irei à Covilhã cumprimentar o professor Magalhães. Com uma mala cheia de perguntas: os amores do ditador Oliveira Salazar com a bela jornalista francesa Christine Garnier; o lendário cabelo branco de Álvaro Cunhal, o grande opositor de Salazar, símbolo radioactivo do comunismo ortodoxo português; a habilidade com que Portugal se está safando por estes dias da má imprensa de Espanha ... O Expresso, de Lisboa, sugere-me uma primeira resposta: "A nossa política está bem ligada a Bruxelas; Durão Barroso puxa muitos cordelinhos e tem facilitado o pacto da oposição com o governo. Além disso, estamos mais calmos perante a catástrofe: todo o ocidente canta o fado e isso soa-nos bem." Enric Juliana La Vanguardia 27/06/2010 Leia aqui o original em castelhano. |
| Actualizado em Sexta, 02 Julho 2010 01:23 |
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