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Lançamento do livro “Carta aberta a Salazar”
Sexta, 26 Fevereiro 2010 18:14


Realizou-se na passada quarta-feira, dia 24 de Fevereiro, na Biblioteca-Museu República e Resistência, em Lisboa, uma sessão de apresentação do livro Carta Aberta a Salazar, de Henrique Galvão. Trata-se da reedição de uma obra fundamental da resistência ao Estado Novo, que não podia cair no esquecimento. As quatro anteriores edições, feitas antes do 25 de Abril, foram quase integralmente apreendidas pela PIDE.

Após a apresentação dos membros da mesa, feita pelo director da Biblioteca-Museu, Dr. João M. Mascarenhas, tomou a palavra Francisco Abreu, da Editora Esfera do Caos, que agradeceu aos sobrinhos-netos do autor Dr. Pedro Aguiar e José Rui Galvão a autorização para esta publicação, que vem tirar do esquecimento uma grande figura do século XX. Esclareceu que a Editora assume o papel de mera publicadora, uma vez que o verdadeiro editor foi Camilo Mortágua, autor do prefácio.

Manuel Alegre, poeta e político, também ele um resistente a Salazar, começou por realçar que a publicação deste livro não é um simples acontecimento literário, mas um acto cívico de recuperação da nossa memória colectiva. Henrique Galvão não pode ser esquecido, não só pelo acto do “desvio” do Santa Maria, mas pela sua verticalidade, pelo seu exemplo como cidadão. Na sua opinião, este livro devia ser lido nas escolas e era bom que muitos adultos e políticos o lessem e meditassem.

Manuel Alegre deixou um apelo: “Onde estão os cinestas deste país?” A vida de Henrique Galvão dava um excelente filme. Este é um caso em que a realidade é melhor do que a ficção.

Sobre o livro, Manuel Alegre salientou tratar-se de “prosa política irrepetível”. Henrique Galvão escreve de uma forma satírica, irreverente, mas numa linguagem elevada, sem grosserias. De uma forma simples e clara, denuncia os erros de Salazar e do regime que personifica, ele que era militar e conhecia o regime por dentro. Neste livro, escrito sob a forma de uma carta em que trata Salazar por “manholas júnior”, desmistifica o poder da repressão, o medo, a falsidade. Chama-lhe “pedreiro das pedras mortas”, uma acusação grave mas evidente, porque Salazar construiu uma obra de pedra, mas destruiu as pedras vivas, que eram as pessoas, os cidadãos, que qualquer regime deve colocar em primeiro lugar.

Para terminar, Manuel Alegre falou do “Cântico do País Emerso”, que, em boa hora, foi incluído neste livro. É uma bela ode de Natália Correia ao acto épico do aprisionamento do Santa Maria e nada melhor para complementar e celebrar o texto de Henrique Galvão.

No final, Camilo Mortágua, instado a proferir algumas palavras, declarou sentir-se satisfeito, mas emocionado. Salientou a verticalidade do carácter de Henrique Galvão e a necessidade de “honrar a sua memória, quando a ética está como está”. É urgente “voltar aos valores, para resolver os problemas do país”. Emocionado, referiu que teve a sorte de privar com este grande homem, de quem guarda as melhores recordações. Henrique Galvão era uma pessoa simples, honesta, vertical. Dizia que “não há grandes homens mas grandes oportunidades”. Uns agarram-nas, outros passam ao lado.

 

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