Nipo-britânico Kazuo Ishiguro vence Prémio Nobel de Literatura 2017

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O Prémio Nobel de Literatura 2017 é atribuido ao escritor britânico de origem japonesa Kazuo Ishiguro porque "em romances de grande força emocional, revelou o abismo escondido sob a nossa perceção ilusória da ligação com o mundo", de acordo com a nota do Comité Nobel. Mais uma vez, os analistas e os apostadores falharam redondamente e foi eleito um escritor pouco previsto para ser o galardoado com tão importante Prémio.

Em entrevista concedida momentos após a divulgação do nome do sucessor de Bob Dylan, a secretária permanente da Academia Sueca, Sara Danius afirmou que, "se misturar Jane Austen e Franz Kafka, então consegue-se Kazuo Ishiguro, na essência, mas tem de se acrescentar um pouco de Marcel Proust, para depois mexer. Não muito".

"Ao mesmo tempo, é um escritor de grande integridade. Desenvolveu um universo estético próprio", afirmou Danius, que realçou que a Academia Sueca atribuiu o prémio à obra na sua plenitude e não a um livro específico. Inquirida sobre o seu livro favorito, a secretária permanente da Academia Sueca disse encarar todos os seus livros como "maravilhosos, verdadeiramente requintados", embora destaque "The Buried Giant" (O gigante enterrado - Gradiva - 2015), a sua obra mais recente.

O galardoado

Kazuo Ishiguro nasceu em 8 de novembro de 1954 em Nagasaki, Japão. A família mudou-se para o Reino Unido quando tinha cinco anos; só em adulto tornou a visitar o seu país de nascimento. No final da década de 1970, Ishiguro graduou-se em Inglês e Filosofia na Universidade de Kent e depois estudou Escrita Criativa na Universidade de East Anglia.
Kazuo Ishiguro dedicou-se em exclusivo à escrita após o seu primeiro livro, A Pale View of Hills (1982) - As Colinas de Nagasaki (Gradiva - 1989). Tanto o seu primeiro romance como o seguinte, An Artist of the Floating World (1986) - Um Artista no Mundo Transitório (Livro Aberto - 1990) ocorrem em Nagasaki, poucos anos depois da Segunda Guerra Mundial. Os temas com os quais Ishiguro mais se identifica já estão presentes: memória, tempo e auto-ilusão. Isto é particularmente evidente no seu afamado romance, The Remains of the Day (1989) - Os Despojos Do Dia (Gradiva - 1995), que foi adaptado ao cinema com Anthony Hopkins no papel do mordomo obcecado pelo dever, Stevens.
Os escritos de Ishiguro são marcados por um modo de expressão cuidadosamente contido, independentemente de qualquer evento que ocorra. Ao mesmo tempo, a sua ficção mais recente contém características de fantasia. Com o trabalho distópico Never Let Me Go (2005) - Nunca Me Deixes (Gradiva - 2005), Ishiguro introduziu um fundo suave de ficção científica no seu trabalho. Neste romance, como em vários outros, também encontramos influências musicais. Um exemplo impressionante é a coleção de contos intitulada Nocturnes: Five Stories of Music e Nightfall (2009) - Nocturnos (Gradiva - 2009), onde a música desempenha um papel fundamental na representação dos relacionamentos das personagens. No seu mais recente romance, The Buried Gigiant (2015) - O Gigante Enterrado (Gradiva - 2015), um casal idoso faz uma viagem por uma paisagem arcaica inglesa, na esperança de se reunir com o seu filho adulto, que eles não viam há anos. Este romance explora, de forma comovente, como a memória se relaciona com o esquecimento, o passado com o presente e a fantasia com a realidade.
Além dos seus oito livros, Ishiguro também escreveu guiões para o cinema e televisão.

A mecânica do Pémio

Para o Prémio Nobel de Literatura de 2017, a Academia Sueca recebeu e aprovou 240 propostas, de que resultaram 195 candidatos. Mas como funciona a mecânica do Prémio. Quem e quando apresenta os candidatos, como e quem faz a seleção e se chega à escolha do galardoado?

Em setembro do ano anterior, o Comité Nobel de Literatura envia cartas de convite a pessoas qualificadas para nomear o Prémio Nobel de Literatura, num total de 600 a 700 indivíduos e organizações. Estes terão de apresentar as suas propostas até final de janeiro.
Em fevereiro, o Comité então examina as indicações e elabora uma lista que envia à Academia Sueca para aprovação. Esta verifica se os nomes indicados reunem as condições para serem propostos e devolve a lista ao Comité Nobel.
Em abril, após estudar os curricula dos autores indicados, o Comité seleciona 15 a 20 nomes, para serem os candidatos preliminares que são apresentados à Academia.
Em maio, o Comité reduz a lista para cinco candidatos prioritários para serem considerados pela Academia.
De junho a agosto, os membros da Academia Sueca lêem e avaliam o trabalho dos 5 candidatos finais. Entretanto, o Comité do Nobel também prepara relatórios individuais sobre cada um deles.
Após o verão, em setembro, os membros da Academia, depois de terem lido as obras dos candidatos finais, reunem-se para discutir os méritos da contribuição de cada um candidatos.
No início de outubro, a Academia toma a sua decisão final e escolhe o Prémio Nobel de Literatura, que terá de receber mais da metade dos votos expressos. Então, em data previamente anunciada, é solenemente proclamado nome do Prémio Nobel.
A Nobel Prize Award Ceremony (Cerimónia de Atribuição do Prémio Nobel) ocorre no dia 10 de dezembro de cada ano em Estocolmo, onde o galardoado recebe o seu Prémio Nobel, que consiste numa Medalha e Diploma Nobel, assim como um documento que confirma o valor do prémio que, neste ano, é de 9 milhões de coroas suecas (cerca de 940 mil euros).

Os estatutos da Fundação Nobel restringem a divulgação de informações sobre as nomeações, públicas ou privadas, por 50 anos. A restrição diz respeito aos nomeados e nomeadores, bem como as investigações e opiniões relacionadas com a atribuição do prémio, pelo que só em 2067 se poderá saber quem foram os preteridos.

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"Quase todos os homens vivem inconscientemente no tédio. O tédio é o fundo da vida, foi o tédio que inventou os jogos, as distracções, os romances e o amor."
Miguel de Unamuno