Profissão Escritor - será que existe?

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Profissional é quem vive do rendimento do seu trabalho. Criar um texto literário é, sem dúvida, uma arte, um talento que nem todos têm. Para ser "escritor", será suficiente ter um dom para construir romances, contar contos, escrever poemas, fazer crónicas? Na verdade, há poetas "populares" que nem sabem ler ou escrever. Mas será que escrever pode ser considerado uma profissão? Ser "escritor" profissional é viver do rendimento da criação de obras escritas, usando como matéria-prima a língua, o texto, a sua inspiração e a sua criatividade. Há, de facto, quem viva exclusivamente desse trabalho, mas estará esta profissão ao alcance de qualquer um?

Apresentamos-lhe um texto com quase 20 anos, mas que se mantém atual, na sua generalidade. É retirado de uma brochura do Ministério do Trabalho sobre "profissões" e alerta os interessados para as dificuldades que vai enfrentar quem sonha poder exercer esta profissão em Portugal. Será uma profissão viável? Dará para viver dela?

Natureza do Trabalho

Os escritores produzem obras literárias, tais como romances, biografias, novelas, contos, poesias, guiões, argumentos ou ensaios, entre outras. Estas obras podem ser ou não de ficção, fruto do imaginário, ou retratarem acontecimentos reais, e podem ter diversos destinos, tais como a publicação em livro e a adaptação ao teatro, à televisão ou ao cinema. Ao redigirem os seus textos, os escritores partem das suas observações, experiências, reflexões, imaginação e criatividade.
Para iniciarem o seu trabalho, escolhem, em regra, o tema ou conjunto de temas sobre o qual pretendem escrever e que tanto pode ser resultado de universos puramente fantasiados como de quadros reais (sagas familiares ou acontecimentos históricos, por exemplo). Na maioria dos casos, e sobretudo entre os ficcionistas, os escritores procuram, em seguida, recolher o máximo de informações sobre o tema ou temas, recorrendo a apontamentos, entrevistas, documentos, pesquisa bibliográfica e outras fontes. Uma vez recolhida a informação necessária, procedem normalmente à sua organização, interpretação e seleção e esboçam um primeiro plano do que vão redigir. Nos casos em que não necessitam de recolher informação (na poesia, por exemplo) ou quando privilegiam um modo de produção que não obedece a modelos, os escritores dão expressão aos seus projetos, interrogações e emoções, no quadro da imaginação e dos conhecimentos possuídos, usando a linguagem escrita da maneira que pretendem. Existem, como se sabe, muitas formas de escrever uma mesma informação ou ideia e os escritores procuram escrever de um modo original e capaz de suscitar o interesse dos seus leitores (sejam eles potenciais ou habituais).
Os escritores que trabalham como guionistas, argumentistas ou dramaturgos têm que criar ou adaptar textos originais que vão ser utilizados para a produção de filmes, programas televisivos ou representações teatrais. Este género de produções não se ajusta aos cânones literários comuns, pois necessitam de materiais textuais que sejam facilmente transpostos para a expressão dramática - nenhum romance, por muito bom que seja, pode ser filmado ou representado sem uma adaptação. Nestes casos, o escritor está consciente da utilidade do(s) texto(s) em que trabalha e tende a fazer primeiro uma síntese e, caso esta seja aceite, escreverá em seguida o texto final (um guião, por exemplo).
A redação do texto, tanto quanto se pode generalizar, é um processo moroso, pois é comum os autores escreverem e reescreverem várias vezes os seus originais, sempre eliminando, acrescentando e aperfeiçoando passagens. Alguns escritores têm prazos de entrega a cumprir, designadamente quando os seus trabalhos são encomendados. De entre os que já possuem algum prestígio no meio literário, é de referir aqueles que recebem propostas por parte de certos organismos - como as editoras livreiras, as companhias de teatro ou as empresas de produção televisiva, por exemplo - para a realização de determinada obra. Mas, no nosso meio, é mais frequente serem os escritores a escolher a matéria e os ritmos de produção dos seus livros. Os autores em início de carreira redigem em primeiro lugar os seus trabalhos e só depois os apresentam aos eventuais interessados, na esperança de os verem publicados ou utilizados como argumentos ou guiões.
O recurso à informática tem favorecido em muito o trabalho dos escritores. A capacidade de manusear o texto, as infinitas possibilidades de revisão e alteração e a aplicação de software de apoio (que permite, por exemplo, averiguar quantas vezes uma palavra é utilizada) são facilidades que o computador permite aos escritores que a ele recorrem.
O ritmo da produção dos textos varia de escritor para escritor. A escrita, como qualquer ato criativo, é um processo sobretudo individual e depende da inspiração de momento, da disciplina e dos hábitos de cada um, da experiência pessoal e da cultura geral possuída (os escritores não precisam de conhecimentos específicos próprios para poderem escrever, apesar de existirem algumas normas básicas relativas à produção textual). Quando trabalham como argumentistas ou guionistas, os escritores necessitam, contudo, de coordenar os seus trabalhos com a equipa de produção, designadamente com produtores, realizadores e encenadores, ocorrendo amiúde trabalharem em grupo.

Emprego

Em Portugal, são muito poucas as pessoas que vivem exclusivamente como escritores, sendo regra a acumulação da atividade literária com outras atividades. São também poucos os escritores portugueses cujos títulos traduzidos se vendem no estrangeiro. Por outro lado, os hábitos de leitura dos portugueses são reduzidos: segundo um estudo da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), em 1994, apenas cerca de 54% da nossa população lia livros (nacionais e estrangeiros) e, destes, a maioria apenas lia de 3 a 5 livros por ano.
Desta forma, somente os escritores de maior prestígio conseguem auferir rendimentos que lhes permitam sobreviver apenas com base na venda dos seus livros e/ou nos contratos que assinam com as editoras. Por esta razão, é comum que os escritores desenvolvam carreiras profissionais paralelas, realizando as suas obras durante os tempos livres.
Dada a natureza da atividade, muitos escritores trabalham como profissionais liberais, quer redijam os seus textos por iniciativa própria, quer escrevam em função de propostas e encomendas. E como profissionais liberais que são, necessitam de criar a sua própria procura no mercado de trabalho, sobretudo quando se encontram em início de carreira - não existem anúncios nos jornais a pedir escritores...
De acordo com as estatísticas da APEL, os livros escolares são os que têm maior número de exemplares publicados no nosso país (uma vez que a sua compra é quase obrigatória para quem estuda). A seguir a estes, estão os livros de literatura infantil e juvenil e os de literatura em geral. A população mais jovem é, assim, e segundo este critério de apreciação, a grande consumidora de livros em Portugal. Por esta razão, os escritores que escrevem para o público infantil e juvenil parecem ter maiores possibilidades de ver os seus livros publicados e vendidos.
Os escritores que escrevem guiões ou argumentos também encontram, no nosso país, um mercado de trabalho reduzido, dado que a produção nacional de espetáculos é também reduzida. O aparecimento dos canais privados de televisão tem criado, todavia, um aumento relativo da procura de guionistas e argumentistas. Nesta área, as oportunidades de trabalho são fundamentalmente oferecidas pelas estações de televisão, companhias de teatro e produtoras cinematográficas.

Formação e Evolução na Carreira

Os escritores não necessitam de uma formação académica específica - a única condição imprescindível, naturalmente, é a de que saibam escrever... Alguns deles não possuem estudos superiores e os que possuem têm formação nas mais diversas áreas: existem escritores que são jornalistas, professores, arquitetos, médicos e advogados (há a Sociedade Portuguesa de Escritores Médicos e a Associação Portuguesa de Escritores Juristas, por exemplo). A formação dos escritores é, pois, uma autoformação, em que cada um procura obter o máximo de qualificação possível, investindo continuamente nos seus projetos literários.
Todavia, existem formações académicas que podem dotar os potenciais escritores com um conjunto de instrumentos benéficos para a produção textual, nomeadamente cursos em Linguística, Línguas e Literaturas, Comunicação Social ou Ciências da Comunicação. Quem tiver meios financeiros para estudar no estrangeiro, pode ainda frequentar algumas formações académicas especificamente concebidas para preparar escritores, existentes em alguns países europeus e nos Estados Unidos da América. No nosso país, conhecem-se, também, alguns exemplos deste tipo de cursos, designadamente o curso de Escrita Criativa ministrado na Aula do Risco, a pósgraduação em Escrita Literária, da Universidade Lusófona, ou as sessões promovidas pela Escola de Leitura e Escrita, a funcionar na sede da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Estes cursos, apesar de não ensinarem a ser-se escritor, permitem conhecer teoria e história literárias e aperfeiçoar o domínio linguístico (em especial da língua em que se escreve), bem como estimulam a leitura e a prática textual, em regime de permanente aprimoramento.
Quem desejar ser escritor deve, acima de tudo, gostar de escrever e saber expressar claramente as suas ideias. Criatividade, curiosidade, conhecimentos, motivação e firmeza são qualidades que também podem ser importantes para quem deseje percorrer os caminhos da escrita. Nalgumas situações, a capacidade de escrever em sítios barulhentos (nem todos os escritores têm um espaço próprio para trabalhar) e sob pressão (para cumprir o prazo de entrega de um argumento, por exemplo) são também importantes.
A maior ou menor evidência pública dos escritores depende, sobretudo, do reconhecimento dos leitores e traduz-se amiúde na venda dos livros e/ou nos contratos negociados com as entidades que encomendam os trabalhos escritos. O grande passo que permite iniciar a carreira de um escritor é conseguir que uma editora se decida a publicar os seus textos. A maioria das vezes é necessário contactar diversas editoras e a hipótese de publicação surge apenas após ser apresentado um número considerável de trabalhos escritos - em alguns casos, este processo pode durar vários anos.

Condições de Trabalho

Os escritores podem desenvolver a sua atividade nas mais diversas condições. Alguns escrevem em casa, enquanto outros se deslocam para os locais que consideram mais apropriados, tais como uma casa na montanha ou uma esplanada à beira-mar. Antes da elaboração dos textos, a necessidade de obter informações pode levar alguns escritores a viajar, a contactar pessoas e a consultar bibliografia e outras fontes documentais. Em alguns casos, a fase de recolha de informação pode demorar mais do que a própria redação textual.
Considerando a natureza do trabalho dos escritores, não existem horários e cada um tem as suas preferências quanto à frequência e duração dos períodos de tempo em que desenvolve o seu trabalho. Pode-se escrever a qualquer hora e alguns autores têm processos criativos muito próprios: há quem escreva mais num único dia do que num mês inteiro. No entanto, alguns escritores tendem a disciplinar o seu trabalho, quer porque têm de cumprir prazos, quer devido ao tipo de texto a escrever (a produção de um texto narrativo exige, em princípio, mais disciplina que a de um texto poético, por exemplo).

Remunerações

As remunerações dos escritores são muito indefinidas e constituem a principal razão por que muitos acumulam esta atividade com outras. Como o início de carreira pode ser bastante difícil e os rendimentos obtidos dependem do número de exemplares vendidos e dos contratos estabelecidos com as editoras, quem desejar ser escritor deve possuir ou assegurar uma outra fonte de rendimentos, caso queira assegurar a sua estabilidade económica. Em Portugal, são raros os escritores que vivem apenas dos seus direitos de autor, isto é, dos rendimentos obtidos através da venda dos direitos de propriedade que detêm sobre aquilo que escrevem. Pelas mesmas razões, os escritores recebem, ainda, os seus rendimentos de uma forma bastante irregular. Mesmo os que redigem guiões e argumentos têm remunerações variadas e irregulares, uma vez que estas são estabelecidas em função dos trabalhos encomendados.

Perspetivas

A tendência dos hábitos de leitura e de compra de livros dos portugueses revela que é cada vez menor o número de livros lidos e comprados por cada pessoa. A televisão parece ser, em comparação, a grande preferida, pois quase toda a população nacional vê programas televisivos e o número de horas junto ao televisor é claramente superior ao dedicado à leitura. Um dos fatores que parece contribuir para esta situação é o preço dos livros que são vendidos no nosso país e que, a manterem-se, dificilmente poderão contribuir para a melhoria do panorama da atividade literária em Portugal: porque os livros são caros, vendem-se menos e sendo a sua procura diminuta, os preços praticados têm tendência a manter-se.
Cabe, assim, a cada escritor criar a sua própria procura, produzindo originais que venham a ser procurados pelo público. Como o início da carreira passa, sobretudo, por redigir um texto publicável ou aceite por uma editora, é necessário juntar ao talento uma boa dose de paciência e perseverança, até que se atinja esse primeiro objetivo. Quem optar por esta profissão, agora e no futuro, deve, em primeiro lugar, trabalhar a língua em que escreve. É fundamental obter o máximo de conhecimentos, estar atento a tudo, ler com regularidade e escrever sempre, o melhor possível, para que se possa avaliar de modo claro e lúcido as capacidades literárias que se detêm.

Ministério do Tabalho e da Solidariedade
Direcção Geral do Emprego e Formação Profissional
www.citi.pt/mqe/guia_profss/texto/escritor.html
Última atualização - 1999

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