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1822
Segunda, 20 Setembro 2010 11:57


Autor: Laurentino Gomes
Edição: Set/2010
Páginas: 304
Editora: Porto Editora

Quem observasse o Brasil em 1822 teria razões de sobra para duvidar da sua viabilidade como nação independente e soberana. De cada três brasileiros, dois eram escravos, negros forros, mulatos, índios ou mestiços. Era uma população pobre e carente de tudo, que vivia à margem de qualquer oportunidade numa economia agrária e rudimentar, dominada pelo latifúndio e pelo tráfico negreiro. O medo de uma rebelião dos cativos tirava o sono da minoria branca.

O analfabetismo era geral. De cada dez pessoas, só uma sabia ler e escrever. Os ricos eram poucos e, com raras exceções, ignorantes. O isolamento e as rivalidades entre as diversas províncias prenunciavam uma guerra civil, que poderia resultar na fragmentação territorial, a exemplo do que já ocorria nas colónias espanholas vizinhas. Para piorar a situação, ao voltar para Portugal, no ano anterior, o rei D João VI, havia raspado os cofres nacionais. O novo país nascia falido. Faltavam dinheiro, soldados, navios, armas ou munição para sustentar uma guerra contra os portugueses, que se anunciava longa e sangrenta. As perspectivas de fracasso, portanto, pareciam bem maiores do que as de sucesso.
Nesta nova obra, o escritor brasileiro Laurentino Gomes, autor do best-seller 1808, sobre a fuga da família real portuguesa para o Rio de Janeiro, mostra como o Brasil, que tinha tudo para não dar certo, acabaria por resultar, em 1822, numa notável combinação de sorte, improviso, acasos e também de sabedoria das lideranças responsáveis pela condução dos destinos do novo país naquele momento de grandes sonhos e muitos perigos.

Autor:
Laurentino Gomes foi galardoado com o Prémio Jabuti, o mais prestigiado do Brasil, em duas categorias: Melhor Livro Reportagem e Livro do Ano de Não-Ficção. A obra 1808 também foi eleita o Melhor Ensaio de 2008 pela Academia Brasileira de Letras e permaneceu três anos consecutivos na lista dos livros mais vendidos do Brasil. Nascido em Maringá, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, com pós-graduação em Administração pela Universidade de São Paulo. Trabalhou como repórter e editor para o jornal O Estado de S. Paulo e a revista Veja e foi director da Editora Abril. Foi durante
cerca de um ano jornalista também em Portugal, na revista Visão. É membro titular da Academia Paranaense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Actualizado em Segunda, 29 Novembro 2010 18:35
 

Comentários  

 
+2 #1 Sebastião Barata 02-11-2010 13:42
Escrevi sobre o livro 1808: “Quando adquiri este livro, pensei que era um romance histórico. Quando o comecei a ler, vi que era um livro de história e imaginei-o académico e chato. À medida que lia, ia descobrindo um livro maravilhoso”. Sobre 1822, posso dizer o mesmo, excepto que, desta vez, não tive surpresa: já sabia o que ia encontrar.
1822 vem na sequência de 1808 e narra os acontecimentos subsequentes ao regressou da família real a Portugal, regresso imposto pelas Cortes, sob pena de destituição. Ficou no Brasil, como regente, o jovem D. Pedro, que viria a declarar a independência e ser proclamado Imperador da nova nação, com o título de Pedro I.
A tarefa de D. Pedro era imensa e, à partida, impossível: como construir um país com um enorme território, mas sem dinheiro, com 99% de analfabetos e com dois terços da sua população escravos ou libertos? Não havia exército, nem barcos de guerra, nem dinheiro ou pessoas habilitadas para comandar. Os negros eram maioria e era urgente o fim do regime de escravatura, para evitar uma rebelião incontrolável, mas a economia não estava preparada para sobreviver sem a mão-de-obra escrava. A tarefa de D. Pedro e dos governos que nomeou foi uma arte de fazer compromissos, única forma de sobreviver: compromissos com fazendeiros, compromissos com traficantes negreiros, compromissos com mercenários, compromissos com os poucos intelectuais que havia, compromissos com o povo anónimo, compromissos com Portugal.
Para complicar ainda mais, D. Pedro herdou o trono de Portugal. Só reinou 14 dias, com o título de Pedro IV, tendo abdicado a favor de sua filha D. Maria, uma criança, mas esses poucos dias de reinado foram suficientes para dotar Portugal da Constituição liberal de que necessitava e deixar o país pacificado, com o compromisso de um futuro casamento entre a Rainha e o seu tio D. Miguel, líder da facção absolutista. Infelizmente, este viria a quebrar os seus compromissos, originando uma guerra fratricida entre absolutistas e liberais.
Muito havia a dizer sobre esta obra maravilhosa, cuja leitura recomendo. Documentado e imparcial, é um livro essencial para quem queira conhecer esta importante fase da nossa história.
 

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