A Aluna Americana

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Autor: João Pedro Marques
Género: Romance
Edição: Fev/2019
Páginas: 288
ISBN: 9789720031341
Editora: Porto Editora

 

 

 

Novembro de 1968. Usam-se cabelos compridos e cores garridas, a música pop enche o ar de sons novos e electrizantes — os Beatles estão no auge —, e a França vai-se recompondo dos tumultos de Maio. Os progressos científicos são palpáveis e quase diários. O Homem está a dois passos da Lua, Barnard fez os primeiros transplantes cardíacos e a chamada revolução sexual avança no mundo ocidental, graças à pílula e à liberalização dos costumes.

Portugal, ainda apertado na dolorosa tenaz da guerra em África, deposita muitas esperanças na Primavera Marcelista e procura agarrar os ventos que sopram lá fora e que lhe chegam a conta-gotas, filtrados pela censura.
É nesse contexto e nesse Novembro que, por mero acaso, o professor universitário José Duarte Cincinnato de Sousa conhece Isabel Botelho, uma estudante de Românicas acabada de chegar dos Estados Unidos da América.
A Aluna Americana é a história da relação entre ambos, uma história de afectos e sentimentos que nos faz frequentemente passar da desempoeirada amplidão dos mundos exteriores para a estreita pequenez de um Portugal fechado. De passagem em passagem, iremos vendo como um homem conservador vive os prazeres, as dores e os desafios da sua paixão por uma mulher mais nova, para a qual nada é sagrado, excepto, talvez, o amor.

Deste autor no Segredo dos Livros:
Escravatura
Vento de Espanha
Do Outro Lado do Mar

Autor:

João Pedro Marques nasceu em Lisboa, em 1949. Foi professor do ensino secundário e, depois, durante mais de duas décadas, investigador do Instituto de Investigação Científica Tropical e Presidente do Conselho Científico desse Instituto, em 2007-2008. Doutorado em História pela Universidade Nova de Lisboa, onde lecionou durante a década de 1990, é autor de dezenas de artigos sobre temas de história colonial, e de vários livros, dois dos quais publicados em Nova Iorque e Oxford (The Sounds of Silence, 2006; e, em co-autoria, Who Abolished Slavery? A debate with João Pedro Marques, 2010).
Em 2010, publicou o seu primeiro romance, Os Dias da Febre, ao qual se seguiu, em 2012, Uma Fazenda em África (que, com várias edições, constituiu um dos grandes sucessos do ano) e, em 2014, O Estranho Caso de Sebastião Moncada.

Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2019-04-25 20:42
Este é o mais recente romance de João Pedro Marques, autor de, entre outros, "Uma Fazenda em África", provavelmente a sua obra mais conhecida e aplaudida. A história passa-se entre 1968 e o dealbar da revolução do 25 de Abril, atravessando todo o período do governo de Marcelo Caetano. É a história de um amor improvável entre um professor universitário viúvo e conservador e uma aluna regressada dos Estados Unidos, com idade para ser sua filha e que tinha vivido intensamente naquele País a onda libertadora que atravessou os anos 60, a década do "sexo, drogas e rock n' roll", dos festivais de música, da libertação da mulher, da contestação aos valores tradicionais.

De facto, nada parecia poder reunir uma jovem com tal passado a um professor de História cuja vida rotineira era dedicada totalmente à investigação, especialmente desde que a sua esposa morreu de cancro depois de mais de 20 anos de vida em comum e o seu único filho estava prestes a casar e seguir para o Norte para trabalhar nos negócios do futuro sogro. No entanto, o amor é cego e, desde o fortuito encontro numa estrada deserta da zona de Sintra, apaixonaram-se e nada os pôde mais separar, incluindo o facto dela ser casada, o que, na época, bastava para ser um escândalo.
Mas havia muito mais no passado e no presente de cada um a separá-los do que a uni-los. Ele sonhava com a reconstrução da sua anterior vida de família. Ela compreendia isso, mas não era capaz de imaginar tal vida para si. Como podia ser uma modesta mãe de família tradicional, com a vida que ela já viveu?! Como poderia uma andorinha que já correu meio mundo, experimentou todos os prazeres, aceitar fechar-se num ninho, por mais confortável que fosse?! Era este o dilema de Isabel. Mas José Duarte era um homem paciente, compreensivo e sempre disposto a perdoar e a aceitá-la de volta. Será que este amor vai ter um final feliz? Poderá a idade alterar Isabel, ou ela acabar por detestar a sua viva de ave de arribação e assentar de vez ao lado do seu grande amor?

Este romance tem várias coisas boas que o autor desenvolveu muito bem. Antes de mais, quero referir o enquadramento histórico. Portugal e o mundo viviam nos anos 60 uma etapa decisiva que iria marcar as gerações seguintes. Tinha acontecido a revolução estudantil de Maio de 1968 em França que acabou numa contestação social generalizada e teve repercussões noutros países, incluindo Portugal, onde os jovens começavam a abrir os olhos para o que se passava no exterior. Salazar caiu da cadeira e foi substituído por Marcelo Caetano, mais moderado e que sonhava conseguir mudar o regime por dentro, através de uma democratização soft e progressiva. Por outro lado, os ventos de mudança também chegavam através da música que se ouvia na rádio: os Beatles estavam no seu auge, assim como Bob Dylan, Elvis Presley, Rolling Stones, The Who, The Animals e outros. A Guerra do Vietmane gerava uma onde de contestação dentro e fora dos EUA. Aconteceu o Woodstock que abriu a porta a todo o tipo de excessos e criou uma tendência que ainda hoje se sente nos festivais de verão. Por outro lado, a guerra continuava nas "províncias ultramarinas", gerava contestação e a fuga de jovens para o estrangeiro que de lá traziam novas ideias que iam minando o regime. Tudo isto está bem refletido neste romance, mostrando o espírito de contestação que foi timbre daqueles anos febris.
Há também a qualidade das personagens muito bem caracterizadas e que representam os estereótipos sociais da época: o professor reservado e preocupado com a ética, o diretor da faculdade prepotente e afeto ao regime, os alunos libertinos, as jovens sexualmente desinibidas.
Ainda sobre a caracterização da época, o autor vai ao ponto de apresentar trechos de músicas que marcaram a década, acontecimentos relevantes, marcas de produtos que estavam na berra, restaurantes, cafés, hotéis, salas de espetáculos e outros locais muito conhecidos e frequentados.

Por tudo o que fica dito, este é mais um bom romance de João Pedro Marques, um autor cada vez mais firmado no nosso panorama literário, que, por todas as razões e mais uma, merece a atenção dos leitores.
 

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“Em geral quando termino um livro encontro-me numa confusão de sentimentos, um misto de alegria, alívio e vaga tristeza. Relendo a obra mais tarde, quase sempre penso: não era bem isto o que queria dizer.”
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