A Avó e a Neve Russa

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Autor: João Reis
Género: Romance
Edição: Fev/2017
Páginas: 224
ISBN: 9789898843654
Editora: Elsinore

 

 


«As folhas caídas das árvores giram à minha volta com o vento, mas aperto mais o casaco, porque nem o vento nem as folhas-bailarinas me alegram com a melancolia, só me deixam ensopado em tristeza, como a chuva nos faz por vezes. Os homens não choram. Avanço. Os catos que vejo alinhados na rua voltam a ser árvores e a Babushka, deitada na cama de hospital, é uma criança que aumentou e encolheu.»
Babushka está doente. Esta russa idosa, emigrante no Canadá, sobreviveu ao acidente nuclear de Chernobyl. Esconde no peito a doença que a obriga a respirar a contratempo e lhe impõe uma tosse longa e larga e comprida e sem fim — um mal que a faz viver mergulhada nas memórias do seu passado luminoso, a neve pura da Rússia, recordação sob recordação.

Na fronteira com a realidade caminha o seu neto mais novo, de dez anos, um menino que não desiste de puxar o fio à meada e de tentar devolver a avó ao presente. Para ajudar Babushka, precisa de encontrar uma solução para os seus pulmões destruídos, sacos rasgados e quase vazios — mesmo que isso o obrigue a crescer de repente e partir em busca de uma planta milagrosa, o segredo que poderá salvar a família e completar a matriosca que só ele vê.
Narrado na primeira pessoa e escrito a partir da perspetiva de uma criança, A Avó e a Neve Russa é um livro feito da inocência e da coragem com que se veste o deslumbramento das infâncias. Romance simples e emotivo sobre a força da memória e da abnegação, relata a peregrinação de um neto através da esperança, do Canadá ao México, para encontrar a possibilidade de um final feliz.

Primeiras páginas disponíveis aqui.

Autor:

João Reis nasceu em Vila Nova de Gaia em 1985.
Licenciado em Filosofia, foi editor da Eucleia Editora, que fundou, de 2010 a 2012. Atualmente, é tradutor literário, especialista em línguas nórdicas, tendo traduzido para português livros de Knut Hamsun, Halldór Laxness, August Strindberg e Patrick White, entre muitos outros autores.
Entre 2012 e 2015, trabalhou e residiu na Noruega, Suécia e Inglaterra, onde exerceu várias profissões. Escreveu o romance A Avó e a Neve Russa no decurso de uma residência literária em Montreal, Canadá, realizada em 2015. Nesse mesmo ano, foi finalista do Bare Fiction Prize na categoria de flash fiction e publicou a sua novela A Noiva do Tradutor (ed. Companhia das Ilhas).

Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2017-06-29 20:31
Estamos perante um livro encantador, com uma história narrada por uma criança, mas que não tem nada de infantil, exceto a linguagem do narrador, aliás de um acerto total.

Russkiy que não se chama Russkiy, mas que todos tratam por Russkiy, é uma criança de 10 anos, filho de emigrantes russos, mas que residiam na altura do desastre na Ucrânia, porque o seu avô era engenheiro na central nuclear de Chernobyl. Morto o avô, a família emigrou para o Canadá e, depois de várias peripécias, restam agora a avó, Russkiy e o seu irmão mais velho Andrei. Este trabalha numa pizzaria, mas fuma "ervas medicinais" e pouco contribui para as despesas. A avó recebe uma pequena pensão do tempo que trabalhou no Canadá. Agora é velhinha e doente por ter os pulmões "rasgados", vítima dos "ares atómicos" como diz Russkiy, que a trata carinhosamente por Babushka. Russkiy é uma criança cheia de imaginação, mas muito bom aluno e interessado em adquirir conhecimentos; a sua professora gosta muito dele e tenta protegê-lo dos maus tratos dos colegas, especialmente do menino rico da turma, por acaso mau aluno e má pessoa.

Esta é a família central do romance e à sua volta gravita um conjunto de vizinhos, quase todos imigrantes das mais variadas origens, religiões e culturas. Todos dão mesinhas e rezas para ajudar a curar a Babushka. Entre eles, está um português, dono da loja do rés-do-chão do prédio, que dá a Russkiy umas pagelas do "Deus-Galo" com orações. Mas nada parece fazer bem à Babushka e esta está cada vez pior, acabando por ser internada. É então que Russkiy decide empreender uma viagem ao México, para dali trazer as folhas do cato milagroso, como última tentativa para salvar a sua avó. É uma viagem cheia de peripécias e contrariedades, na companhia de um sem abrigo seu amigo que tudo faz para o ajudar. Conseguirá o milagre de curar os pulmões "rasgados" da Babushka? De facto, vai mesmo conseguir um milagre, embora não seja o que ele e os leitores, neste ponto totalmente rendidos à candura de Russkiy, desejam...

João Reis construiu uma história maravilhosa. Entrou totalmente no coração e na cabeça da criança de 10 anos que fez seu narrador e deixou-nos uma escrita de grande beleza e muita ingenuidade. Vai ao ponto de nos apresentar conceitos tal como uma criança os apreende e verbaliza. São exemplos alguns dos termos já atrás referidos, mas outros podia citar, como, por exemplo, o "macroscópio" para ver as coisas pequeninas, a "xenofilia" que ele observa em muitas pessoas, os "icónicos" de que a avó é muito devota, os "padarastas" de que falou o polícia que foi lá à escola, ou o "Deus-Alá" ao qual reza o vizinho ajoelhado no tapete.

Este livro pode ler-se rapidamente, porque não é grande e apresenta uma escrita sem artifícios e agradável de ler. Mas, na minha opinião, deve ler-se com calma, absorvendo os conceitos que o autor nos transmite através da linguagem simples e cândida de uma criança: que não devemos desesperar, por maiores que sejam as contrariedades, que há sempre alguém em pior situação do que nós, que todos devemos ser amigos e auxiliar-nos mutuamente, independentemen te das nossas crenças, usos, origens ou raças. Também não devemos esquecer as nossas raízes e devemos preservar o passado que é transmitido de avós a netos, por mais triste e sofrido que ele se apresente.
 

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"Era uma vez uma mulher cujo ofício era contar histórias. Andava por todo o lado oferecendo a sua mercadoria, relatos de aventuras, de suspense, de horror ou de luxúria, tudo a um preço justo. Num meio dia de agosto encontrava-se no centro de uma praça quando viu avançar na sua direção um homem (...) És tu a que conta histórias?, perguntou o estrangeiro. (...) Então vende-me um passado, porque o meu está cheio de sangue e de lamentos e não me serve para percorrer a vida."
Isabel Allende
in Eva Luna