A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado

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Autor: Gonçalo M. Tavares
Género: Romance
Série: Mitologias (Vol. 1)
Edição: Abr/2017
Páginas: 128
ISBN: 9789722525000
Editora: Bertrand

 

 


Era uma vez um homem de mau-olhado que saiu de casa para ver o mundo. Cruzou-se com homens, objectos, animais e máquinas. Entretanto, uma Revolução avança, um homem alto exige imobilidade, outro homem está dividido em dois. Mães procuram filhos e filhos gritam pela mãe. Não sabemos como tudo aconteceu, mas no final, pelo menos, alguém é castigado de uma forma exemplar.

A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado é a obra que inaugura o universo das “Mitologias”. Aqui surgem personagens, situadas em tempos indistintos, que serão também centrais em futuros livros. Mundo de ficção em que Gonçalo M. Tavares recoloca o humano e a história numa dimensão mitológica que distorce para mostrar melhor e, recorrendo à tradição narrativa da oralidade e do fantástico, explorar brilhantemente aquilo que é a natureza humana.

Deste autor no Segredo dos Livros:
A Máquina de Joseph Walser

Autor:

Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970. Publicou o primeiro livro em 2001. É já um dos escritores mais traduzidos da literatura portuguesa. Estão em curso traduções e edições internacionais de todos os seus livros, em mais de 50 países, em algumas das mais prestigiadas editoras. Recebeu importantes prémios em Portugal e no estrangeiro, nos mais diversos géneros literários. Com Aprender a Rezar na Era da Técnica recebeu o Prix du Meilleur Livre Étranger 2010 (França), prémio atribuído antes a Robert Musil, Philip Roth, Gabriel García Marquez, Elias Canetti, entre outros. Alguns prémios internacionais: Prémio Portugal Telecom 2007 e 2011 (Brasil), Prémio Internazionale Trieste 2008 (Itália), Prémio Belgrado 2009 (Sérvia), Grand Prix Littéraire Culture 2010 (França), Prix Littéraire Européen 2011 (França). Foi por diversas vezes finalista do Prix Médicis e Prix Femina. Em Portugal recebeu, entre outros, O Grande Prémio do Romance e Novela da APE, Prémio José Saramago, Prémio Fernando Namora. Jerusalém foi o livro mais escolhido pelos críticos do jornal Público para romance da década e Uma Viagem à Índia foi escolhido pelo jornal DN, por diferentes críticos, como uma das 25 obras essenciais da história da literatura portuguesa. O seu recente romance Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do Pai venceu o Prémio Tabula 2015, foi finalista do Prémio Oceanos (Brasil) 2016 e do Prémio Pen Ficção. Sobre o livro, Alberto Manguel escreveu, no suplemento Babelia, que ele era «uma memorável epifania». Matteo Perdeu o Emprego, que já havia sido finalista, no Brasil, do Prémio PT, foi, em Novembro de 2016, um dos cinco finalistas do Prix Femina para melhor romance estrangeiro publicado em França.

Veja aqui o blogue do autor.

Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2017-05-22 08:42
Esta foi a primeira que vez que li um livro de Gonçalo M. Tavares. Não que não desejasse tê-lo feito antes, mas diversas circunstâncias dificultaram que tal acontecesse. O início desta nova série despertou-me o interesse e não esperei mais para ir comprar o livro. Após a sua leitura e releitura (algumas partes várias vezes), ainda não sei dizer exatamente algo de definitivo sobre o livro. Acontecerá sempre isto aos leitores das obras de Gonçalo M. Tavares?

Não desejando protelar mais a apresentação de uma apreciação ao livro, embora talvez não o devesse fazer ainda, aqui vai a que poderia chamar de primeira e superficial análise, sem prejuízo de vir mais tarde a refazer a minha opinião. Não me esqueci de que o meu objetivo (em consonância com a missão do Segredo dos Livros) é fornecer pistas aos candidatos à leitura do livro que lhes permitam decidir-se por avançar ou não para a leitura.

Neste pressuposto, começaria por dizer que o livro pode ter vários níveis de leitura. O primeiro seria uma leitura literal e básica do texto. Desde já aviso o leitor de que, ao fazê-lo assim, corre dois riscos: desistir ao fim de duas ou três páginas (se for uma pessoa com fraco sentido de humor), ou continuar a lê-lo como se fosse um repositório de piadas do tipo humor negro que não conduzem a um fim lógico, e retiraria da leitura que se trata de um non sense bem construído e com alguma graça. E a que conclusões chegaria o leitor: que o destino é cruel, que os maus meios é que conduzem a bons fins, que não há pessoas honestas mas parvas, e que os loucos é que são os verdadeiros sãos e dominam a multidão.

O segundo nível de leitura é enfrentar o livro como uma profecia, ao jeito do Apocalipse, do Bandarra ou do Nostradamus. Como todos os livros proféticos, os textos apresentados apontariam para um futuro incompreensível para o leitor, porque, logicamente, não se pode conhecer o que ainda não aconteceu, especialmente quando apresentado através de imagens vagas com possíveis diferentes interpretações que só no futuro encontrarão sentido, depois de deixarem de ser o sonho de um visionário e se concretizarem no mundo físico. Neste nível de leitura, o que significa, num futuro enquadramento social e político, a Mulher-Sem-Cabe ça, o Homem-do-Mau-Ol hado, o Homem-Mais-Alto ou a Mulher-Ruiva? Que papel desempanharão um tal de Dr. Charcot com a sua máquina de curar loucos, ou o louco Ber-lim que não é curado? O que são as Duas-Torres-de- Babel, umas das quais cai com o simples atirar de uma pedra (dois sistemas políticos em confronto)? Etc. A especulação não teria fim...

Uma terceira leitura (será a última?) que me parece a correta e a que o autor teve em mente, é que se trata de um livro de História, uma História do século XX, escrito sob a forma de uma fábula, ou talvez de uma parábola como as que Jesus contava aos seus discípulos e terminavam sempre com a expressão "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça" (Mc 4,9). Talvez Gonçalo M. Tavares escreva como Ele, para que "ao olhar, olhem e não vejam; ao ouvir, ouçam e não compreendam, não vão eles converter-se e ser-lhes perdoado" Mc 4,12). De facto, o século XX foi pródigo em acontecimentos imperdoáveis que não devem ser claramente proclamados, não vão os seus ideólogos renascer das cinzas. Vejam-se os nacionalismos e os extremismos a ganhar novamente força nos tempos mais recentes. Será que o leitor atento vai conseguir identificar os acontecimentos a que o autor se refere? Será que se refere a um ou a vários dos grandes temas que dominaram o século? Uma interpretação possível que me pareceu a mais lógica, é a implantação do marxismo na Rússia, a queda da dinastia Romanov, a criação e expansão da URSS, as suas atrocidades, a sua expansão e a sua queda. Poderá referir-se ao nazismo, com as mesmas fazes de nascimento, expansão e queda. Será que terá que ver com a União Europeia, cuja queda muitos já profetizam?

Seja qual for a interpretação que fizermos, certo é que muitos mitos foram criados nos últimos 100 ou 200 anos. Ao falar de mitologia, podíamos também apontar a tecnologia, o poder das máquinas ainda em crescimento e o seu provável domínio sobre a sociedade humana. Nesta visão, estaríamos não só a olhar para o passado, mas também para o futuro. Aonde nos conduzirá o progresso? Nesta perspetiva, quem / o quê será a Mulher-Sem-Cabe ça e o Homem-do-Mau-Olhado?

Fico rendido à escrita de Gonçalo M. Tavares e compreendo a razão de ser um autor tão aplaudido, tão premiado, tão traduzido e tão estudado. Reconheço que, até agora, me parecia um sucesso exagerado, fruto talvez de um marketing eficaz (não há tanta gente a queixar-se de não ter o reconhecimento que merece?!), mas declaro-me vencido: o génio brilha por si e é visível ao longe!
 

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