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Autora: Alice Brito
Género: Romance
Edição: Jan/2019
Páginas: 344
ISBN: 9789897771606
Editora: Planeta

 

 

 

Um romance de amor poderoso num Portugal que ansiava pela liberdade.
Tendo Lisboa como ponto de partida, a autora conta-nos a história de uma jovem, Amélia, de famílias respeitáveis, que põe o futuro e a honra a perder quando se deita com um agente da PIDE de modos delicados e linguagem sedutora, mas capaz das maiores crueldades.

Um livro imperdível, com uma escrita fluida, que lembra a aclamada série da RTP, Conta-me como Foi, cheio de histórias de heróis e vilões anónimos, preconceitos e modas arrojadas, e o grande sonho da liberdade.

Autora:

Alice Brito é advogada, defensora da causa feminista e cronista em periódicos on-line. Tem artigos publicados em revistas e participações com outros autores em alguns livros. Nasceu em Setúbal, cidade em que vive desde sempre, e onde se passam os seus romances. Em 2012 publicou o seu primeiro livro As Mulheres da Fonte Nova. O dia em que Estaline encontrou Picasso na biblioteca viu a luz do dia em 2015.

Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2019-01-24 23:01
Este livro é o meu primeiro contacto com a autora, porque não a conheço pessoalmente, nem li qualquer dos seus romances anteriores. Mas devo dizer que fiquei agradavelmente surpreendido. Na verdade, são vários os motivos pelos quais gostei desta leitura e devorei o livro com prazer.

O primeiro é que a escrita me faz lembrar José Saramago, autor que muito admiro e não só por ter sido galardoado com o Prémio Nobel de Literatura. Tal como ele, Alice Brito escreve num tom humorístico, talvez até sarcástico, narra coisas muito sérias como se estivesse a falar de um espetáculo de circo que acabasse de presenciar. Como exemplo, cito a passagem em que descreve a morte de Salazar: "Lá para o fim de Julho, morreu o ditador. Na caminha, no sossego, na assepsia de um quarto de hospital. Carregadinho de mortes às costas, de múltiplas velhacarias, tanto ano no chafurdo da miséria, com a cantilena somos um país pobre, pobrezinho, aí vai ele para o outro mundo. Não foi rapidamente nem em força, como quando mandou o país para as colónias, para a guerra. Foi devagar, com vagar, e sem força, débil que estava num definhar contínuo, numa cama hospitalar."
Ainda como Saramago, usa uma pontuação e uma fraseologia que deixa à consideração do leitor a construção dos diálogos. Nova citação: "Numa das consultas tidas em Lisboa, ela viu uma mulher a conduzir um automóvel. Ficou de boca aberta. Depois disse a Joaquim, vou aprender e a seguir compramos um carro. Ele riu-se, era só o que faltava, a minha mulher a guiar um carro."
Para terminar as semelhanças com Saramago, a autora apresenta-nos os acontecimentos sob uma ótica de esquerda. Não é de estranhar, uma vez que o tema é a denúncia da opressão da ditadura salazarista e a apologia da revolução que a fez cair. O "verão quente" de 1975 é apresentado como o início da concretização do sonho acalentado pela oposição de muitas décadas à ditadura do "Estado Novo" e o "25 de Novembro" é apresentado como um retrocesso e o desmoronar de um sonho. Mas também tal não me causa estranheza, pois é evidente que não estamos perante um romance histórico. Citação: "Lá chegou o 25 de Novembro. Não se sabe ainda hoje muito bem o que aquilo foi. (...) O que se sabe é que as brasas viraram cinzas. A pouco e pouco foram virando cinzas. Mas os que pensaram que isto ia ser o Chile lixaram-se."

Debruçando-me mais concretamente sobre a trama do romance, o livro divide-se em duas partes: antes e depois do 25 de Abril. A autora debruça-se de uma forma especial sobre a ação da PIDE e criou a personagem de um agente que vai desempenhar um papel de charneira ao longo de todo o livro. Aproveito para realçar que todas as personagens estão muito bem construídas e são perfeitos protótipos das personagens reais, tanto as que suportavam o regime opressivo, como os seus opositores, bem como os vários tipos de revolucionários que nasceram ou renasceram com a "revolução dos cravos", desde os militares, aos militantes dos diversos quadrantes do centro-direita à extrema esquerda.
Também os acontecimentos que marcaram as décadas de 1950 a 1970 estão aqui todos evocados, como a miséria do pós-guerra, o desvio do Santa Maria, a guerra colonial, o caso Humberto Delgado, a substituição de Salazar por Marcelo Caetano, a música de intervenção, o golpe falhado das Caldas, o 25 de Abril, a tentativa de golpe spinolista, o verão quente e o 25 de novembro de 1975.

Outro aspeto interessante da forma como a autora construiu a obra e que muito me agradou, é a cronologia dos acontecimentos ser intervalada com pequenos textos em itálico, nos quais uma família comenta a sua leitura em comum deste romance. Assim, toda a história é apresentada ao leitor como essa leitura feita ao longo de alguns dias nos finais de 2017. E, à medida que esta leitura se vai realizando, a filha do casal vai começando a descobrir que talvez aqui haja algo de autobiográfico e os seus familiares estão escondidos atrás daquelas personagens. Não querendo retirar a curiosidade aos futuros leitores, talvez desejando mesmo espicaçá-la, revelo que é nesta história paralela contada quase em estilo telegráfico, que está a grande surpresa do final, que vai apanhar o leitor completamente de surpresa.

Aconselho vivamente a leitura deste livro tanto aos mais novos como aos mais velhos. Os primeiros têm de saber o que os seus pais e avós suportaram e o papel que desempenharam, para que hoje tenham uma vida melhor do que a que eles tiveram. Os mais velhos, porque estes acontecimentos não podem cair no esquecimento e, quem sabe, talvez a leitura seja para eles um conforto, como foi para aquela família. No final, verão que tenho razão.
 

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