A segunda vida de Francisco de Assis

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Autor: José Saramago
Género: Teatro
Edição: Jun/2018
Páginas: 144
ISBN: 9789720030436
Editora: Porto Editora

 

 


São Francisco de Assis volta à terra nos dias de hoje e encontra sua ordem transformada numa empresa gigantesca e lucrativa.
«Grande sala. Ambiente geral discreto e severo. Mesa comprida, cadeirões, cofre, telex, vários telefones, um terminal de computador. (…) Está reunido um conselho.» Assim se entra no mundo da «política», segundo José Saramago.

A Segunda Vida de Francisco de Assis é mais uma incursão no drama, desta vez à volta de um tema bem atual: o capitalismo, a qualidade, as chefias, a política, as eleições, a bolsa, as valorizações e desvalorizações dos produtos e das pessoas. E uma luta entre a razão e a força.
Estamos em 1986, já há computadores, mas muita coisa mudou. «As coisas já não são o que eram», diz a certa altura uma das personagens. «Houve muitas mudanças e nem todas estão à vista. Algumas nunca saem daquele cofre. São as que convém manter em segredo.» E Francisco? Também mudou, claro. Nesta segunda vida, aprendeu algumas lições e aparece a lutar contra a pobreza. «É a pobreza que deve ser eliminada do mundo», diz. Mais uma vez Saramago usa a ironia para fazer as suas críticas. «A pobreza não é santa. Tantos séculos para compreender isto. Pobre Francisco.»

Caligrafia da capa por Frei Bento Domingues

Deste autor no Segredo dos Livros:
Deste mundo e do outro
A Bagagem do Viajante
Cadernos de Lanzarote - Diário V
Com o Mar por Meio - Uma Amizade em Cartas (coautoria)
Cadernos de Lanzarote - Diário IV
O Conto da Ilha Desconhecida
O Ano da Morte de Ricardo Reis
Claraboia
Caim
O lagarto

Autor:

José Saramago nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga.
As noites passadas na biblioteca pública do Palácio Galveias, em Lisboa, foram fundamentais para a sua formação. «E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.»
Em 1947 publicou o seu primeiro livro que intitulou A Viúva, mas que, por razões editoriais, viria a sair com o título de Terra do Pecado. Seis anos depois, em 1953, terminaria o romance Claraboia, publicado apenas após a sua morte.
No final dos anos 50 tornou-se responsável pela produção na Editorial Estúdios Cor, função que conjugaria com a de tradutor, a partir de 1955, e de crítico literário. Regressa à escrita em 1966 com Os Poemas Possíveis.
Em 1971 assumiu funções de editorialista no Diário de Lisboa e em abril de 1975 é nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias.
No princípio de 1976 instala-se no Lavre para documentar o seu projeto de escrever sobre os camponeses sem terra. Assim nasceu o romance Levantado do Chão e o modo de narrar que caracteriza a sua ficção novelesca. Até 2010, ano da sua morte, a 18 de junho, em Lanzarote, José Saramago construiu uma obra incontornável na literatura portuguesa e universal, com títulos que vão de Memorial do Convento a Caim, passando por O Ano da Morte de Ricardo Reis, O Evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes ou A Viagem do Elefante, sendo autor de mais de 40 obras traduzidas em todo o mundo.
No ano de 2007 foi criada em Lisboa uma Fundação com o seu nome, que trabalha pela difusão da literatura, pela defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, tomando como documento orientador a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desde 2012 a Fundação José Saramago tem a sua sede na Casa dos Bicos, em Lisboa.
José Saramago recebeu o Prémio Camões em 1995 e o Prémio Nobel de Literatura em 1998.

Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2018-06-28 11:10
José Saramago escreveu esta peça de teatro em 1986, como uma parábola sobre o capitalismo e o poder dentro das empresas. Já nos apresenta sondagens de opinião, computadores, conselhos de administração, presidentes e gestores financeiros (a que hoje se chama pomposamente CEO's e CFO's), enfim, o pão nosso de cada dia nos nossos tempos. É o visionário Saramago a manter toda a sua atualidade.

Então imagina que São Francisco de Assis, o fundador de uma Ordem Religiosa de frades mendicantes, regressa à Terra e encontra os seus franciscanos transformados numa grande empresa, com um conselho de administração que gere a sua enorme fortuna resultante das doações e esmolas recebidas ao longo dos séculos. Fica escandalizado e quer voltar às origens. Perante as resistências encontradas, chega a equacionar extinguir a Ordem. Mas acaba por reconhecer que hoje já não interessa ser pobre, nem andar a pedir esmola - isso já não edifica ninguém, não é uma postura santificadora e até é mal visto. Na sua "nova vida" vai dedicar-se à luta pela erradicação da pobreza no mundo.

Onde é que eu já vi isto, com a inflação que se vê por aí de ONG's e incentivos ao voluntariado social. Empresa que se preze tem a sua "Fundação" para fingir que os seus enormes lucros vão ajudar os pobres e necessitados.

Uma pequena peça em dois atos, que se lê num instante, mas cheia de significado e perfeitamente identificadora da escrita de Saramago e das suas opções ideológicas.
 

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"Algumas obras morrem porque nada valem; estas, por morrerem logo, são natimortas. Outras têm o dia breve que lhes confere a sua expressão de um estado de espírito passageiro ou de uma moda da sociedade; morrem na infância. Outras, de maior escopo, coexistem com uma época inteira do país, em cuja língua foram escritas, e, passada essa época, elas também passam; morrem na puberdade da fama e não alcançam mais do que a adolescência na vida perene da glória. Outras ainda, como exprimem coisas fundamentais da mentalidade do seu país, ou da civilização, a que ele pertence, duram tanto quanto dura aquela civilização; essas alcançam a idade adulta da glória universal. Mas outras duram além da civilização, cujos sentimentos expressam. Essas atingem aquela maturidade de vida que é tão mortal como os Deuses, que começam mas não acabam, como acontece com o Tempo."
Fernando Pessoa, in Heróstrato