A Terra de Naumãn

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Autor: H. G. Cancela
Género: Fantasia / Ficção Científica
Edição: Jul/2018
Páginas: 288
ISBN: 9789896418724
Editora: Relógio D'Água

 

 


«Este ano não houve Troca de Ovos. Todos os solstícios da estação seca, durante setenta gerações, as comunidades reuniram­-se no Planalto de Naumãn. No alto das escarpas de granito, onde arde o fogo, erguem­-se as muralhas com sete Portas. Éramos seis comunidades. Cada comunidade acedia ao espaço ritual pela sua Porta. A sétima, aprendíamo-lo desde a primeira vez que pisávamos o Planalto, era para aqueles que viriam. Uma promessa de posteridade. A garantia de que, depois de cada dia, haveria outro dia, depois de cada ano, haveria outro ano, depois de cada comunidade, haveria outras comunidades. Nós, Naumans de dedos hábeis, respeitamos o passado, mas veneramos o Futuro.

No solstício em que perfazia catorze anos, eu, Alva, da comunidade de Uila, fui com os outros Naumans do mesmo ano conduzida ao Planalto. Enquanto subíamos as rampas que conduziam às Portas, todos levávamos os olhos vendados por uma faixa de sete voltas, tantas quantos os meses em que se divide o ano.»
Em A Terra de Naumãn, H.G. Cancela conduz-nos através de uma narrativa juvenil e fantástica até uma fábula de contornos apocalípticos.

Autor:

H. G. Cancela (Hélder Gomes Cancela) nasceu em 1967. Publicou, entre outras obras, os romances Anunciação, De Re Rustica, Impunidade (Relógio D’Água), As Pessoas do Drama (Relógio D’Água), e o ensaio O Exercício da Violência. Em 2018 publicou A Terra de Naumãn.
A sua ficção explora situações-limite do relacionamento humano, como a culpa, a solidão, a dor, o incesto e a violência.

Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2018-09-01 10:34
Quem disse que em Portugal não se faz boa ficção científica?
Este novo romance de H. G. Cancela situa-se, na minha opinião, na fronteira entre a fantasia e a ficção científica. Não é daquela fantasia que inventa mundos e seres de outras galáxias; também não é daquela que recupera religiões perdidas ou sociedades humanas desaparecidas. É, sim, uma fantasia que narra com muita precisão como poderia ter sido o desaparecimento de uma era terrestre: a quinta extinção, ou seja o fim da era dos dinossauros, há sessenta e cinco milhões de anos.

Mas é também uma bela obra de ficção científica, não no sentido do futuro da humanidade ou da sua falta de futuro, mas do fim de um possível povo inteligente, no final do Cretácio, quando um asteróide de grandes dimensões atingiu a Terra e extinguiu os dinossauros.

Na verdade, não repugna a ideia de que, nas eras anteriores da Terra, possa ter havido espécies que, como a nossa, se tornaram inteligentes, desenvolveram a linguagem, tinham sentimentos, amavam e odiavam, formaram povos e nações, se aliaram, se guerrearam e acreditavam num Futuro alicerçado das suas tradições, um Futuro que fosse melhor que o Passado, onde o ódio não existisse e houvesse paz.

O autor imaginou um povo fixado algures, por exemplo onde hoje se situa Portugal, cuja vida se regia pelo número sete: dividia o ano em sete meses, era formado por seis tribos, mas acreditava numa sétima tribo que havia de entrar pela sétima porta do seu santuário, onde se reuniam no solstício de cada ano. A cada sete anos, enviavam para o espaço exterior desconhecido um grupo de jovens provenientes de todas as seis tribos, que teriam de regressar sete anos depois, caso sobrevivessem, entrando triunfalmente pela sétima porta. Até hoje nunca ninguém tinha regressado...

O romance narra a aventura do último grupo enviado que, depois de sobreviverem às maiores dificuldades, enfrentarem espécies gigantescas e predadores impiedosos, delimitarem o seu território, fundarem a sua cidade e os seus campos agrícolas, criarem uma organização política e administrativa, produzirem riqueza e estarem prestes a regressar e entrar vitoriosos pela sétima porta, foram impotentes para vencer o último desafio, aquele para o qual ninguém estava preparado, aquele que estava para além das suas forças...

Gostei muito deste romance, gostei da escrita do autor, gostei do encadeamento da história, das personagens e achei o cenário e toda a ambiência muito credível para a época e para as características de um povo de répteis. Gostei da forma como o autor imaginou, por exemplo, a organização familiar, a gestação, nascimento e educação das crias nascidas de ovos, necessariamente diferente das dos mamíferos atuais. Também o facto de estarem numa idade do cobre e terem ferramentas e armas menos poderosas e eficientes do que as nossas levou o autor a imaginar uma sociedade sem tecnologia, dispondo somente de pedra, cobre, madeira e fogo.

Gostei da linguagem simples utilizada e de uma coisa que aprecio sempre nos livros: a narração linear e consecutiva dos acontecimentos, sem recurso a flashbacks e outros artifícios que podem enriquecer literariamente, mas vão dificultar a leitura, sobretudo dos mais jovens.

Para terminar, penso que o tema deste livro pode constituir uma fábula para nós humanos, um alerta para aquilo que pode ser, ou não ser, o nosso futuro. Na verdade, de que vale toda a ambição, o desejo de alcançar riquezas, de dominar e querer ser superior aos outros, de esbanjar os recursos que eras geológicas anteriores deixaram enterradas na terra, se tudo pode terminar num aquecimento global, furações, vulcões ou queda de meteoritos gigantes, para cujas consequências não há tecnologia, força ou poder humano que lhe possa resistir?
 

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