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A Trança de Inês
Segunda, 01 Fevereiro 2010 14:45

Autora: Rosa Lobato de Faria
Edição/reimpressão: 2010 - Livro de Bolso
Colecção: BisLeya
Páginas: 224
Editora: Leya, SA

Baseado no mito de Pedro e Inês (mais na lenda do que na História), um romance sobre a intemporalidade da paixão, onde se abordam também alguns mistérios da existência.
"Assim as mulheres passam umas às outras a sua teia ancestral de seduções, subentendidos, receitas que hão de prender os homens pela gula, a luxúria, a preguiça e todos os pecados capitais, é por isso que elas nunca querem os santos, os que não se eixam tentar, os que resistem à mesa, à indolência, à cama, à feitiçaria dos temperos, ao sortilégio das carícias, à bruxaria das intrigas."

Autora:
Rosa Lobato de Faria nasceu em Lisboa em Abril de 1932. Poeta e romancista, o essencial da sua poesia está reunido no volume Poemas Escolhidos e Dispersos, de 1997. O seu primeiro romance, O Pranto de Lúcifer, veio a público em 1995. Seguiram-se-lhe Os Pássaros de Seda (1996), Os Três Casamentos de Camilla S. (1997), Romance de Cordélia (1998), O Prenúncio das Águas (1999, Prémio Máxima de Literatura em 2000), A Trança de Inês (2001), O Sétimo Véu (2003), Os Linhos da Avó (2004), A Flor do Sal (2005), A Alma Trocada (2007), A Estrela de Gonçalo Enes (2007) e As Esquinas do Tempo (2008). Está traduzida em França e Alemanha.
É também conhecida do grande público como actriz de televisão e cinema.
Comentários
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João Teixeira  - Uma bela surpresa   |18:06:53 19-02-2010
Preconceitos desfeitos depois de se ler este livro:
1º - Rosa Lobato de Faria escreve de forma antiquada.
2º - Rosa Lobato de Faria só escreve romances para o público feminino.
3º - a história de Pedro e Inês já está gasta e não há ninguém que lhe consiga fazer uma abordagem diferente.

Já tinha ouvido dizer que um nóvel leitor dos romances de Rosa Lobato de Faria fica sempre surpreendido. E de facto, assim é. Nunca pensei encontrar uma escrita tão arejada e refrescante. As narrativas (tanto a do passado, como a do presente e a do futuro) desenrolam-se de uma forma bastante fluida e compreensível. O estilo da escrita pareceu-me aproximar-se do de outros escritores de renome da literatura portuguesa contemporânea, mas desempoeirado e bastante apelativo. Apesar de não ter gostado de determinadas partes em "tialecto", julgo que isso se deveu ao facto de a história (presente) estar inserida num contexto específico e que, por isso, não destoa totalmente. Do que não gostei mesmo foi do último capítulo do livro (o epílogo da história). Acho que foi uma forma previsivelmente simples e redutora de terminar, não deixando grande espaço ao leitor de formar as suas próprias conclusões.
De resto, acho que RLF conseguiu lançar uma nova luz muito interessante sobre a história de Pedro e Inês, narrando-a muito bem como aconteceu no passado e transportando-a para o presente e para o futuro. (Aliás, acho que as partes que se desenrolam no futuro dariam uma fantástica série de televisão, se fosse bem adaptada).
Enfim, não sei se terei vontade de ler outros livros de RLF, mas deste só tenho coisas positivas a dizer. Gostei bastante e acho que vale a pena lê-lo, quanto mais não seja, para nos desfazermos de "preconceitos literários" que possamos ter contra esta escritora falecida recentemente.
Joana Caires   |22:01:37 17-03-2010
A Trança de Inês é um livro estranho... Mas a sua anormalidade é o seu grande trunfo. A história de Pedro e Inês de Castro é (re)contada em três épocas diferentes. Nas suas reincarnações, Pedro e Inês voltam a cruzar-se, a apaixonar-se e a sofrer às mãos dos algozes do destino. Um amor tão poderoso que transcende eras! Apaixonei-me, amei, sofri com Inês e Pedro. Como se explica uma paixão? Como se vive uma paixão?... São interrogações que o livro me deixou. No passado, no presente, no futuro fui assaltada por amor imenso que chega a ser obsessivo e incurável.

No início, o livro e a escrita podem ser confusas. A autora alterna épocas, amores e destinos... devaneios de um louco chamado Pedro. Porém, à medida que a leitura prossegue, torna-se impossível deixar a história. A história de Pedro e Inês. Tantas vezes contada mas nunca desta forma.

Adorei a escrita de Rosa Lobato Faria. É sublime, poética, uma brisa inovadora!!!

EXCERTOS:

" É sabido que na infância o tempo não passa, na adolescência demora-se, na idade adulta corre, na velhice precipita-se. Talvez que, depois daqueles milhares de anos longos em que o tempo era o seu próprio embrião, o primeiro milénio da nossa era fosse a infância do tempo."

"(...) Inês. Tu, de beleza e doçura imutáveis, tu, que caminhas de pés descalços no lusco-fusco do meu quarto, tu que acendes a noite com a tua cabeleira de estrelas, tu que te deitas na minha cama e me abraças e me beijas e me acaricias os cabelos, tu, vestida de sombras, tu, toucada de vento,tu, nimbada de mar."
fernanda carvalho   |13:04:08 31-03-2010
Todos conhecemos a lenda de um amor que se fez história. Um amor trágico que transformou um rei e seduziu todo um povo. Pedro e Inês.

É esta mesma paixão sem limites que nos conduz pelo romance fora. É ela o fio condutor de três histórias, que se resumem a uma só, pois só a um Pedro e uma Inês dizem respeito.
Confusos?
E se vos disser que a primeira história nos conta a vida de um Pedro contemporâneo que se apaixona por uma Inês que, por infortúnio do destino, pertence a uma família rival. Logo desde aí se adivinha o fado dos apaixonados.
Mais tarde, Pedro, na sua loucura, vai vogando à deriva entre o presente, o passado e o futuro, onde sempre a mesma paixão e o mesmo destino o esperam. Acompanhamos então esses saltos de um Pedro alucinado entre o século XIV, o séc. XX e o séc. XXII, e vamos conhecendo a história fantástica desses outros Pedro e Inês que, apesar da nossa esperança, nunca conseguem fugir ao seu destino.

É um romance fantástico, cheio de preciosidades e pedaços de escrita que nos leva a reler uma e outra vez o mesmo parágrafo.
Que perda foi para a literatura portuguesa a partida desta Senhora.

«Ah, Inês! Como não passou nada? Passou tudo, Inês tudo o que pelos séculos além o amor inventou, as suas artes e subterfúgios, as sua agonias e misérias, os embustes esfarrapados com que presume esconder-se do mundo, a palpitação do desejo que faz tremer o chão, crescer o trigo, eclodir as rosas, convocar as tempestades. E, por fim, desdobra a mais perversa de todas as armadilhas, a que nos faz, na hora alucinada da paixão, corpo contra corpo, boca contra boca, alma contra alma, desejar e bendizer a morte.
Morrer por este amor. Morrer contigo.»
Joana Dias   |22:18:58 06-05-2010
Quando comecei a ler este livro, julguei que se tratava de um romance semelhante a muitos outros já publicados que descreveria a história de D. Pedro e D. Inês de Castro. Aliás, mais não seria de esperar, nem sequer pela sinopse. Quando comecei a ler um livro sobre um tal Pedro na era contemporânea num manicómio, fiquei abismada e zangada. Eu adoro toda a mística da história da Inês de Castro e, em geral, detesto adaptações modernos das grandes histórias, porque penso que o que as torna tão interessantes em parte é precisamente a época a sociedade particular em que são passadas. E se a história é boa assim, para quê recorrer a adaptações que o que fazem, geralmente, é tirar todo o charme à história original? Por esta minha maneira de pensar, era para nem sequer começar a ler o livro.
Mas devido à grande autora que o escreveu e a temática ser na mesma sobre D. Inês, resolvi dar uma segunda oportunidade ao livro e não me arrependi.
O livro adapta a grande história de Pedro e Inês, como se as suas almas reencarnassem ao longo de três períodos de tempo, o século XIV de que conhecemos esta famosa história, o século XX em que Pedro se encontra no manicómio, pois, devido ao seu grande amor por Inês, quando o seu pai a manda matar, enlouquece e foge com o seu corpo para sítios isolados, procurando viver com o seu corpo morto, o amor que não pode viver completamente quando ela vivia e, quando são encontrados, ele é mandado para um manicómio. E numa terceira vida no futuro em que só os “melhores” se podem reproduzir, as pessoas vivem em função do bem comum e do bem do ambiente. Surpreendeu-me, gostei bastante do livro que é mais prosa poética do que prosa e que descreve o romance de Pedro e Inês de forma muito sentida e sentimental e a parte do momento em Pedro foge com Inês é fantástica. No entanto, nestes três períodos de tempo, o fim de Pedro e Inês é sempre triste e trágico. Penso que a autora poderia ter aproveitado a ideia da reencarnação para lhes dar um final feliz.

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