Autópsia

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Autor: João Nuno Azambuja
Género: Romance
Edição: Set/2019
Páginas: 240
ISBN: 9789897024986
Editora: Guerra & Paz

 

 


Um gigantesco cataclismo ambiental provoca a submersão da maioria do solo terrestre e o globo volta a ser constituído por um enorme oceano com raras ilhas à superfície. Autópsia é o nome da ilha que concentra em 221 km² os vícios e a perversão de 11 milhões de habitantes. Um dia, chega a Autópsia, vindo de uma outra ilha - feliz e estável -, um jovem que se fez ao mar para descobrir a origem da mensagem que encontrou numa garrafa. Que novas tempestades vai ele desencadear?

Deste autor no Segredo dos Livros:
Os Provocadores de Naufrágios

Autor:

João Nuno Azambuja nasceu em Braga. Licenciou-se em História e Ciências Sociais antes de se lançar à aventura nas tropas paraquedistas, onde militou como comandante de pelotão. Regressado à terra teve um bar de inspiração celta, onde organizou concertos memoráveis desse tipo fascinante de música. Claro que o céu continua a chamá-lo, mas desta vez não quer ir de avião, quer ascender na leveza das letras ao lugar onde moram os imortais.

Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2019-10-21 22:21
Lê-se na contrapaca deste livro que se trata de "uma arrepiante distopia, retrato de uma humanidade náufraga". Não será o caso da maioria dos leitores deste meu comentário, mas talvez algum não saiba o que é uma distopia. De uma maneira simples, podemos dizer que uma distopia é um futuro muito negativo, resultante de uma má evolução causada pelos maus atos da sociedade atual. Por isso, chamamos "distopia" ao subgénero literário que imagina uma sociedade assim e se insere no género "fantástico". De facto, o autor procurou dar neste romance uma resposta exemplar à questão: para onde caminhamos, se não arrepiarmos caminho no que toca à poluição, ao aquecimento global e ao desperdício? E o futuro que nos apresenta não é muito longínquo. Talvez 50 ou 60 anos...

Na sequência de um grande cataclismo que o autor não descreve, mas podemos imaginar, ocorreu um movimento generalizado das placas terrestres que provocou o afundamento dos continentes, transformando a Terra num "enorme oceano pantalássico". Não sabemos se restaram muitas ou poucas ilhas espalhadas à superfície do globo; certo é que só viremos a conhecer duas. Uma é num ponto alto dos Alpes, numa área da Áustria, onde sobreviveram cerca de 11 milhões de pessoas e se constituiu uma sociedade em tudo decalcada na nossa sociedade atual: trânsito caótico, arranha-céus, políticos corruptos, pobreza e desporto para divertir as massas e as manter submissas. A ilha é frequentemente sacudida por violentos tremores de terra e a população vive no constante terror de que se afunde no mar imenso e seja o fim da humanidade. Chegaram a enviar marinheiros experientes à procura de outras ilhas, mas voltaram sem encontrar terra.
Mas, um dia, chegou um barquinho à vela, por entre os detritos que cobriam a superfície do mar e nele vinha um único passageiro. Os poucos que tiveram o privilégio de falar com ele, ouviram-no dizer que vinha de uma ilha de clima ameno, coberta de pradarias verdes, com rebanhos e excelentes terras aráveis, onde tudo se produzia, onde todos eram felizes. Por questiúnculas políticas e com receio de provocar uma sublevação na população, o inocente mareante que não sabia ler nem indicar a localização da sua ilha, foi encarcerado e a sua existência escondida da população. No entanto, era portador de um pequeno documento onde se julgava estarem as coordenadas geográficas que permitiriam encontrar o paraíso e salvar os habitantes à beira da morte. Será que tudo acabou em bem e conseguiram emigrar? Ou, pelo contrário, a caturrice, as invejas e a disputa pelo poder impediram a organização da expedição e todos morreram afogados no "dia D" que se adivinhava há muito?

Neste livro, como distopia que é, tudo é simbólico e pretende ser uma alegoria da nossa sociedade, onde impera o egoísmo, a mentira, a falsidade, a vaidade, onde se mata sem remorso, onde se passa ao lado de quem sofre e se finge não ver.
O porquê do título do livro intrigou-me durante uma boa parte da sua leitura, porque não encontrava no texto nenhuma explicação para tal. Mas, se quisermos pensar melhor, encontramos uma explicação. Uma "autópsia" é a dissecação de um cadáver, a intervenção num corpo sem vida. Não se faz uma autópsia para restituir a vida ao morto, mas sim para expor o motivo da sua morte. Não é outra coisa este livro! Aquela ilha era uma comunidade que já estava morta, sem hipótese de ressurreição. Aquela população, desde o Presidente ao mais humilde cidadão, não tinham salvação, porque eles próprios tinham ultrapassado a linha a partir da qual já não havia retorno. Como talvez a humanidade do século XXI já é capaz de ter feito, sem sequer se dar conta.

Mas há sempre um profeta, alguém para alertar consciências e, embora poucos, também há quem o ouça. Assim aconteceu nesta história e, oxalá, assim aconteça com o homem real deste século. Pode ser que ainda haja alguma esperança. Tenhamos fé!

Gostei do livro e recomendo a sua leitura. E não só para quem gosta de fantasia, ficção científica ou distopia. Mesmo para quem simplesmente quiser pensar um pouco sobre o que é ser "humano". Gostei da escrita do autor, do trabalho de edição e revisão bastante bom, coisa que hoje escasseia no nosso meio.

Para terminar, uma curiosidade. O 1º capítulo é constituído somente por estas palavras: "Este livro destina-se a muitíssimo poucos..." Esta frase é uma citação e reaparece no último capítulo, como sendo o que resta de um livro completamente destruído pela água, escrito em alemão e em cuja capa só se lia um F. É a inicial do nome do autor, um grande filósofo, escritor, poeta e crítico das religiões, irónico autor de aforismos e metáforas, cujas ideias marcaram o seu, e ainda o nosso tempo. Quem conhece?
 

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