Budapeste

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Autor: Chico Buarque
Género: Romance
Edição: Set/2019
Páginas: 142
ISBN: 9789896658465
Editora: Companhia das Letras

 

 


José Costa é um ghost-writer de talento fora do comum. Ao serviço da Agência Cultural Cunha & Costa, escreve a pedido e sempre anónimo: cartas, artigos, discursos ou livros para terceiros. Ao terminar uma biografia romanceada encomendada por um bizarro executivo alemão, vê-se perante um dilema criativo, seduzido pelo desafio de escrever por fim "alta literatura".

No regresso de um congresso de escritores anónimos, Costa vê-se obrigado a fazer escala em Budapeste, cidade que imagina cinzenta e encontra amarela, e que o enfeitiça com o seu idioma. Essa paragem imprevista vai colocá-lo num impasse existencial, emparedado entre duas vidas, dividido entre duas cidades, duas línguas, dois livros, duas mulheres.
Combinando profundidade e sentido de humor, o terceiro romance de Chico Buarque ganhou o Prémio Jabuti em 2003 e o IV Prémio Passo Fundo Zaffarie Bourbon de Literatura, em 2005.

Deste autor no Segredo dos Livros:
Estorvo
Tantas Palavras
Benjamim

Autor:

Francisco Buarque de Holanda (Chico Buarque) nasceu a 19 de Junho de 1944, no Rio de Janeiro. Escritor, compositor e cantor popular brasileiro é filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, cedo se habituou a conviver com o mundo das artes e das letras. Da sua irmã Heloísa receberia as primeiras lições de violão e de João Gilberto as primeiras influências musicais. Em meados dos anos sessenta, no início da bossa-nova e em pleno movimento de agitação social, Chico Buarque abandonou o curso de Arquitetura para se dedicar definitivamente ao violão e à escrita.
Em 1965 gravou o primeiro single, com as canções Sonho de um Carnaval e Pedro Pedreiro. Compôs a música para o espectáculo Morte e Vida Severina, baseado no poema homónimo de João Cabral de Melo Neto, exibido no Teatro da Universidade Católica em S. Paulo e que veio a vencer o Festival de Teatro Universitário de Nancy, em França. Musicou igualmente o Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. O tema A Banda, interpretado por Nara Leão em 1966, tornou-se um sucesso internacional. Nesse mesmo ano, viria a editar o seu primeiro LP, Chico Buarque de Holanda. A peça Roda Viva, mais tarde proibida pela censura, é levada à cena com os seus próprios textos. E nessa época colaborava já com grandes nomes da música popular brasileira, como Tom Jobim, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Elis Regina, Gal Costa e Maria Bethânia. 
Chico Buarque rapidamente se tornou um dos mestres da música popular brasileira e um dos criadores do chamado samba urbano. O lirismo de "Realejo", "Lua Cheia" ou de "Carolina" alterna com as intervenções de protesto, de ironia e de crítica social de temas como "Deus lhe Pague" e "Meus Caros Amigos". A coerência das suas opiniões forçá-lo-ia inclusive ao exílio, estabelecendo-se em Roma durante perto de dois anos.
De volta ao Brasil em 1970, lança novos sucessos: "Construção", "O que Será (À Flor da Terra)", "Morena de Angola", etc.
Estreada no Rio de Janeiro em Julho de 1978, A Ópera do Malandro é sem dúvida a sua experiência teatral de maior êxito.
As aparições em palco do cantor tornaram-se entretanto cada vez mais raras. Nos anos oitenta, o espetáculo realizado no Canecão, no Rio de Janeiro, baseado no disco Francisco, é tido como "o maior espectáculo da década". E em 1994, De Volta ao Samba assinala mais uma vez a sua passagem pelos palcos do Rio de Janeiro e da Europa e o revisitar de velhos temas. 
Nos últimos anos, Chico Buarque consagrou-se por longos períodos à ficção, tendo-se retirado no seu apartamento parisiense para trabalhar nos romances Estorvo (1991) e Benjamim (1995). 
Chico Buarque venceu duas vezes o Prémio Jabuti pelos romances Budapeste e Leite Derramado; em 2017 venceu em França o prémio Roger Caillois pelo conjunto da sua obra; em 2019, venceu o Prémio Camões, o mais prestigiado galardão da Língua Portuguesa.

Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2020-01-18 23:22
Este livro fala de uma profissão que muitos podem considerar ficção, mas é muito real e mais vulgar do que geralmente se imagina: os ghost-writers. O que é um ghost-writer? Um ghost-writer é uma pessoa que escreve textos para outras pessoas, isto é, textos que vão ser publicados em nome de outras pessoas. Por regra, o "autor" indica os tópicos que quer ver tratados e o ghost-writer escreve-lhe o texto. Pode ser um artigo para publicar numa revista ou jornal; pode ser um discurso para ler numa inauguração, numa conferência ou noutro ato qualquer; pode inclusivamente ser um livro ou uma tese de mestrado ou de doutoramento.
A título de exemplo, recordo o caso muito falado de um importante político português que publicou um livro em finais de 2013, uma reflexão profunda sobre a "tortura em democracia", que foi amplamente divulgado e vendido, com sessões de apresentação e de autógrafos muito concorridas, verificando-se mais tarde, de acordo com investigação judicial, que foi escrito por outra pessoa, a quem teria pago ou dado outras contrapartidas para lho escrever.
Mas será ilegal a atividade de ghost-writer? Certamente que não. Há, inclusivamente, agências de ghost-writers com colaboradores dedicados a tempo inteiro a essa profissão. São estes profissionais que redigem cartazes, bulas de medicamentos, folhetos de instruções de máquinas e ferramentas, por exemplo. Hoje começa a ser banal a existência de pessoas que gerem as redes sociais de personalidades ou empresas e escrevem os posts que ali são publicados. Entidades como ministros, deputados ou diretores de empresas têm um secretariado que lhes prepara os discursos, as intervenções públicas, as propostas legislativas, as publicações nas redes sociais, etc.

Tudo bem, tudo correto. Mas como se sentirá o verdadeiro autor de um excelente artigo, por exemplo, ao vê-lo ver publicado com o nome de outra pessoa, ser elogiado como muito bem escrito, revelar uma mente brilhante, e não poder dizer: "É meu! Fui eu que escrevi isso." Como se sentirá uma pessoa que escreve dezenas, centenas de textos com grande qualidade literária, revela uma enorme qualidade de escritor e é um anónimo? Como se sentirá ao comprar o jornal, ler o "seu" texto e ver que está assinado com um nome que não é o seu? É este o tema deste excelente romance de Chico Buarque.

José Costa é um ghost-writer brilhante. Escreve de tudo, sempre com uma elevada qualidade. Trabalha para uma agência de que é sócio, mas o outro sócio explora-o e nem os louros da excelência da agência são para ele. O sócio é que traz os clientes e ele é um mero "operário" da escrita. Também em casa não é tão apreciado como devia ser. A esposa é uma famosa apresentadora do telejornal na TV e a estrela da família. Consola-se com os encontros que um grupo de autores anónimos internacionais faz periodicamente, nos quais cada um desabafa e dá a conhecer aos seus correligionário s as obras de que é efetivamente autor anónimo.
Na sequência de um desses encontros, acaba por conhecer Budapeste, apaixonar-se pela cidade, pela língua húngara e pela sua professora de húngaro. Passa a ter duas vidas paralelas, uma no Rio de Janeiro e a outra em Budapeste. Entretanto, deixa de produzir, o dinheiro começa a faltar, as duas vidas correm o risco de se extinguirem, até que o destino lhe prega uma partida, com um final que nem ele nem os leitores sequer sonhavam.

É uma obra curta, sem floreados desnecessários para o desenvolvimento da história, poucas mas bem caracterizadas personagens, que dá gosto ler, se lê rapidamente e deixa saudades. Recomendo.
 

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