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Carta Aberta a Salazar
Quarta, 03 Fevereiro 2010 22:39

Autor: Henrique Galvão
seguida de CÂNTICO DO PAÍS EMERSO
de Natália Correia
Páginas: 136
Formato: 16cm x 23,50cm
Publicação: Fev/2010
Editora: Esfera do Caos

Nem os Homens se medem a palmo, nem os livros a peso. Neste “leve e breve livro” ficamos a conhecer muito melhor, por diferentes e contraditórias razões, três grandes figuras da nossa história contemporânea, nos domínios da governação, da revolução democrática e da poesia. Salazar, o Déspota, Henrique Galvão, o Libertador, e Natália Correia, a Poetisa.
Velhos e novos, seja qual for a nossa preferência ideológica, todos devíamos ficar a conhecer o “Manholas” segundo a exaustiva e profunda descrição que dele faz o “Impala”. Salazar e Galvão, símbolos e actores incontornáveis de quase meio século da sofrida vida dos portugueses, são-nos aqui diversamente revelados. Galvão e Natália por obra própria, Salazar pela virulenta mas lúcida escrita de Galvão.
As três primeiras edições deste livro, de 1959, foram apreendidas pela PIDE quase à saída da máquina. Uma nova edição surgiu na Venezuela, em 1960, e entrou clandes­tinamente em Portugal ― também desta, poucos foram os exemplares que escaparam às garras da polícia política. A edição que agora fica disponível não vai ter, naturalmente, o mesmo destino!

Autor:
Henrique Galvão (Barreiro, 1885 – São Paulo, 1970). Concluiu os cursos da Escola Militar, da Escola Politécnica e da Escola Joinville-le-Pont, em França. Foi apoiante de Sidónio Pais e um dos cadetes que em 28 de Maio de 1926 participou no pronunciamento militar de cariz nacionalista que pôs termo à Primeira República e que estaria na origem da implantação do Estado Novo. Foi Director da Emissora Nacional, Inspector Superior da Administração Colonial e Governador de Huíla, em Angola. Já como deputado por Angola, denunciou com veemência a corrupção existente na administração colonial. No início dos anos cinquenta, desiludido com o regime salazarista, entrou em rota de colisão com o Estado Novo e conspirou com outros militares, tendo sido preso e expulso do Exército. A partir desta altura, afirmou-se como um dos principais lutadores pela liberdade. Com Humberto Delgado, foi uma das figuras mais populares nos meios oposicionistas. Entre 1952 e 1958 passou pelas cadeias de Peniche, Penitenciária de Lisboa e Caxias. Em 1959 protagonizou uma das mais espectaculares fugas de um preso político ― estava hospitalizado, mas ao mesmo tempo detido pela PIDE, no Hospital de Santa Maria ―, refugiando-se na embaixada da Argentina. Em 1961 liderou o assalto ao paquete «Santa Maria» ― o primeiro desvio de um navio de passageiros com fins políticos alguma vez registado. No mesmo ano, tomou parte no apresamento de um avião da TAP que fazia a linha Casablanca-Lisboa. Autor de numerosos trabalhos sobre as colónias portuguesas e a sua fauna, assim como de vários romances, contos e peças teatrais, para além de marcantes documentos de contestação ao salazarismo.
Actualizado em Domingo, 28 Março 2010 21:05
 

Comentários  

 
0 #2 Ana Margarida Martins 09-04-2010 22:57
O título do livro já diz tudo: é uma “carta aberta” e como tal vale pelo que vale.

Gostei de a ler, fiquei a saber um bocadinho da nossa história. Um povo sem história não é um povo. Não a podemos apagar, temos de viver com ela, por muito que custe.

Não gostei do autor estar sempre a referir “filho do Manholas” ou “Manholas Júnior”. Será por manholas vir de manha, manhoso... Só pode ser, se não, não o tinha referido tantas vezes. Mas que tem o filho a ver com o pai? Ou o pai com o filho? Não diz o ditado que “quem sai ao seus não degenera”, este não saiu ao buraco da fechadura... Os filhos não devem pagar pelos erros dos pais e vice-versa. Talvez tenha sido o rancor a falar e tem razões para isso.

É preciso ser um grande homem para ter escrito na página 26 “não cultivo ódios (nem contra ti), mas tenho ansiosamente sede de justiça”.

Página 88 cito “Na revista Harper's Magazine (das mais prestigiadas do mundo) de Agosto de 1952, lê-se, pela pena de um especialista “todavia Portugal tem um dos mais baixos níveis de vida da Europa”, etc.

Na página 92 diz “A doença é actualmente em Portugal um negócio de Estado e uma mina de negocistas. Quanto arrecada o fisco em direitos e alcavalas sobre medicamentos”, etc.

Não vou transcrever sobre a Justiça e outras coisas mais.

Qualquer coisa aqui está mal, será que misturaram dois livros? Até fiquei confusa. Se realmente isto pertence a este livro, em que ano estou e por quem estou a ser governada?! É mau de mais ler notícias com 58 anos e pensar que as estou a ler de uma revista actual.

Andará ainda Salazar por aqui?! Como é possível, depois destes anos todos e suas mudanças, continuarmos na mesma?! É mais do mesmo só com outros nomes!

Todo o homem tem bom e mau. Mesmo que de bom só tenha tido uma única coisa, deve ser divulgada e as más, mesmo que sejam muitas, também: a boa como exemplo e as más, para que nunca mais ninguém tenha que escrever uma “Carta Aberta a ...” para ficar gravado na pedra da história deste país. Enquanto isso não acontecer, Salazar continuará ser eleito como o melhor português. Na minha opinião, devia haver alguém isento que escrevesse esse período da nossa história contando toda a verdade, para miúdos e graúdos entenderem, devendo ser de leitura obrigatória. Não é por não se falar das coisas que as apagamos, não devemos, nem podemos. Será que, depois de morto e enterrado, continua a assombrar muita gente?... Ainda não percebi se têm medo de fantasmas ou se pararam no tempo.
 
 
0 #1 Sebastião Barata 12-03-2010 00:35
“Pois é verdade, meu caro Manholas Júnior: evadi-me das tuas garras, dos teus ódios incansáveis, da tua Gestapo toda poderosa e dos teus algozes...” Assim começa Henrique Galvão esta sua carta aberta, endereçada a Salazar. Quando foi publicada pela primeira vez, o autor estava escondido algures, quatro anos após se ter evadido das prisões da PIDE. Toda a edição foi confiscada, bem como a segunda e a terceira edição. Na verdade, na óptica de Salazar e dos seus lacaios, esta obra tinha de ser silenciada, porque era uma feroz e incisiva crítica ao regime, com factos concretos e verdades indesmentíveis, feita por quem serviu Salazar e o Estado Novo, desempenhou altos cargos e tentou mudar o regime por dentro, até que foi considerado personna non grata, perseguido e encarcerado.
Como disse Manuel Alegre na sessão de apresentação deste livro, trata-se de uma obra cuja leitura devia ser obrigatória nas escolas, para que a memória de um regime que mergulhou Portugal no obscurantismo durante quase 50 anos e quase nos transformou num país do 3º mundo, não seja esquecida.
Para terminar, uma curiosidade. Várias vezes, ao longo desta sua “carta” Henrique Galvão trata Salazar por Manholas Júnior. Haverá alguma razão especial, ou será para realçar a sua característica de manhoso, fingido, que dava ares de santidade, mas era um demónio dos piores? Leiam o livro e verão a lógica deste tratamento.
 

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