Cinco Meninos, Cinco Ratos

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Autor:
Gonçalo M. Tavares
Género: Romance
Série: Mitologias (Vol. 2)
Edição: Out/2018
Páginas: 224
ISBN: 9789722534925
Editora: Bertrand

 

 

 

No meio da floresta, cinco meninos perdidos. Ou quatro. Porque a mais pequena das irmãs se perdeu dos que já estavam perdidos.
Os meninos encontram um homem de mau olhado, mas ele é bom. Também se cruzam com a Velocidade, que é um elemento perigoso que faz dos homens, loucos . Há um Comboio que não gosta de humanos e um homem que não consegue deixar de ter a boca aberta diante do mundo. Há uma igreja minúscula onde cabe um corpo com dificuldade, mas esse corpo tem espaço para rezar. E há quem saia curado de espaços muito pequenos.

Estamos numa narrativa mitológica e as máquinas e os animais há muito deixaram de ser apenas ajudantes ou amigos. Há máquinas bem famintas.

Deste autor no Segredo dos Livros:
O Reino
A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado
Uma Dor Tão Desigual (coautor)
A Máquina de Joseph Walser
Princesas, Príncipes, Fadas e Piratas com Problemas (coautor)

Autor:

Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970. Publicou o primeiro livro em 2001. É já um dos escritores mais traduzidos da literatura portuguesa. Estão em curso traduções e edições internacionais de todos os seus livros, em mais de 50 países, em algumas das mais prestigiadas editoras. Recebeu importantes prémios em Portugal e no estrangeiro, nos mais diversos géneros literários. Com Aprender a Rezar na Era da Técnica recebeu o Prix du Meilleur Livre Étranger 2010 (França), prémio atribuído antes a Robert Musil, Philip Roth, Gabriel García Marquez, Elias Canetti, entre outros. Alguns prémios internacionais: Prémio Portugal Telecom 2007 e 2011 (Brasil), Prémio Internazionale Trieste 2008 (Itália), Prémio Belgrado 2009 (Sérvia), Grand Prix Littéraire Culture 2010 (França), Prix Littéraire Européen 2011 (França). Foi por diversas vezes finalista do Prix Médicis e Prix Femina. Em Portugal recebeu, entre outros, O Grande Prémio do Romance e Novela da APE, Prémio José Saramago, Prémio Fernando Namora. Jerusalém foi o livro mais escolhido pelos críticos do jornal Público para romance da década e Uma Viagem à Índia foi escolhido pelo jornal DN, por diferentes críticos, como uma das 25 obras essenciais da história da literatura portuguesa. O seu recente romance Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do Pai venceu o Prémio Tabula 2015, foi finalista do Prémio Oceanos (Brasil) 2016 e do Prémio Pen Ficção. Sobre o livro, Alberto Manguel escreveu, no suplemento Babelia, que ele era «uma memorável epifania». Matteo Perdeu o Emprego, que já havia sido finalista, no Brasil, do Prémio PT, foi, em Novembro de 2016, um dos cinco finalistas do Prix Femina para melhor romance estrangeiro publicado em França.

Veja aqui o blogue do autor.

Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2018-12-26 21:37
Este livro é o segundo volume da série "Mitologias" e pouco mais poderei acrescentar à minha apreciação ao primeiro volume, "A Mulher-Sem-Cabe ça e o Homem-do-Mau-Ol hado", pelo que remeto o leitor para o meu comentário aqui no Segredo dos Livros. De facto, tudo o que ali escrevi é válido para este novo volume, porque as personagens são as mesmas e a história (se é que aqui é contada uma história) é a continuação da anterior. Mas não terei mesmo mais nada a dizer? Claro que tenho.

Para começar, informo que estive presente na sessão de lançamento efetuada na Cossoul, local muito bem escolhido para esta sessão. Para quem não sabe, a Cossoul é uma instituição centenária da cidade de Lisboa que muito tem dado à promoção da cultura, especialmente nos campos da música, teatro e literatura, ao longo dos seus mais de 130 anos de existência. Atacada pela crise que tem tombado sobre os ombros destas instituições, motivada pelo boom do turismo que tudo absorve para a construção de hotéis, alojamentos de luxo e turismo de habitação, soube encontrar novas instalações que lhe permitem continuar as suas atividades, nomeadamente manter a sua livraria SNOB, onde o leitor mais exigente consegue encontrar aquele livro ou aquela edição mais rara que não encontra facilmente noutro local.

Depois de ouvir com atenção a animada e informal conversa entre a apresentadora e o autor, penso estar habilitado a dizer algo mais sobre a série "Mitologias" e "Cinco Meninos, Cinco Ratos" em particular.

Assim, pude confirmar a opinião que já tinha e alargar os horizontes da minha visão sobre a sua obra, especialmente esta série. Antes de entrar propriamente no tema, achei interessante a afirmação de Gonçalo M. Tavares de que não escreve por séries, embora a generalidade das suas obras sejam enquadradas em séries. Queria com isto dizer que as diversas séries nunca estão fechadas e pode, em qualquer momento, voltar a um dos seus "mundos".

Continuo a pensar que a interpretação mais consensual é que a história que nos conta (se é que há aqui uma história) se passa no século XX. Vários episódios apontam para as grandes catástrofes vividas no último século, mas estas são vistas mais como exemplos do que objeto da escrita. Não é por acaso que os nomes dos "cinco meninos" que percorrem os volumes já publicados coincidem com os nomes dos cinco filhos do Czar da Rússia deposto pelo regime comunista: Alexandre, Olga, Maria, Tatiana e Anastácia (a bebé que anda sempre perdida). Mas o que o autor quer mostrar-nos é o ser humano e a sua reação perante a vida, especialmente nos momentos de crise, e isso não é uma característica do homem moderno. Em todos os tempos, o homem teve medo e criou formas de o contrariar e, se possível, esquecer. Desta ação / reação perante o medo nasceram muitos dos mitos que, desde tempos imemoriais e ainda hoje, condicionam a nossa existência. A religião, por exemplo, é uma construção para aplacar os nossos medos: cada sociedade criou os seus deuses, como mitos que a iriam proteger das catástrofes naturais, dos seus inimigos, da fome, da extinção, em suma o medo de morrer. A morte é a nossa companheira, cujo espetro nos acompanha desde o momento do nosso nascimento, mas que desejamos afastar para o futuro e tudo nos vai servir para manter esse sonho. Mas o medo não é o único sentimento que tem levado o homem a criar os seus mitos. Outros poderão ser a sede de poder, a ânsia por novos conhecimentos ou a incerteza sobre o amanhã.

Gonçalo M. Tavares personaliza mitos que vêm nitidamente do passado, por vezes de um passado muito longínquo. Há mitos criados nitidamente na idade média, mas também pelos romanos e pelos gregos, assim como provenientes de outras sociedades mais antigas, especialmente originárias do médio e extremo oriente. Mas será que o homem moderno atingiu um fase de desenvolvimento que o isenta da necessidade de criar novos mitos? O autor afirma redondamente que não! Vi isso na sua exposição feita na Cossoul, mas também nas "Mitologias". A nossa sociedade urbana e tecnológica é uma fonte de novos mitos. Talvez nunca as ameaças que pairam sobre o ser humano tenham sido tão grandes e, consequentement e, nunca tivemos uma necessidade tão grande de criar mitos de proteção. O leitor vai encontrar esses mitos do nosso tempo ao longo da leitura.

Deixo só duas palavras à consideração de quem está a ler este comentário e vai ficar (espero) com vontade de ler o livro: a "Velocidade" e a "Casa-das-Máqui nas". Certamente que ninguém vai contestar que estas são as duas personagens-mit o que nos atormentam. A velocidade a que tudo acontece, aliada aos horizontes ilimitados que nos são proporcionados pela tecnologia, estão no centro da nossa vida. A informação instantânea que colhemos das redes sociais (onde não há censura nem filtros), as notícias que são permanentemente ultrapassadas, manipuladas e desacreditadas por outras (verdadeiras ou falsas), o poder que deixou de estar nas mãos dos detentores tradicionais do poder (ainda há Governos nos países, ou são meros fantoches?), a ameaça constante de um cataclismo global (natural ou bélico) não são fatores suficientes para nos levarem a criar "abrigos"? Apesar das religiões tradicionais estarem cada vez mais desacreditadas, nunca o homem teve tanta necessidade de se proteger, de criar novos deuses.

Mas estes novos deuses não habitam em cavernas, nas montanhas ou nos picos vulcânicos, nem sequer no Olimpo, no Céu ou no Inferno. Os novos deuses podem estar ao alcance da sua mão ou da mão de qualquer outra pessoa, talvez de alguém que não tenha qualquer pejo de, consciente ou inconscientemen te, carregar no botão do "Enter", conduza este gesto onde conduzir. Poderemos estar no fim de uma era. Foi assim nas eras anteriores: bastou um pequeno botão. O fim de uma delas destruiu os dinossauros (diz-se que o botão foi um meteorito)... mas permitiu que os mamíferos crescessem e dominassem a Terra. Apocalipse e Génesis andam sempre de mãos dadas. Boa leitura!
 

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