Contigo Esta Noite

Autor: Joana Miranda
Editor: Editorial Presença
Colecção: Grandes Narrativas
ISBN: 9789722333603
Ano de Edição/ Reimpressão: 2005
N.º de Páginas: 208
Encadernação: Capa mole
Dimensões: 15 x 23 x 1 cm

Marta e Júlia são duas gémeas fisicamente idênticas mas psicologicamente distintas que vivem com os pais em Azeitão até aos dezoito anos, altura em que Marta decide mudar-se para Lisboa. Júlia envereda pelo curso de Direito, casa com um médico e tem dois filhos, enquanto Marta parte à conquista de uma carreira artística. Porém e devido a dificuldades financeiras acaba por aceitar um lugar de dama de companhia de Giaccomo, um nobre que sofre de um cancro e que precisa do apoio de alguém para passar os últimos tempos de vida. Estando Marta já há nove anos em Veneza, vem a Portugal e nessa altura conhece David, o orador de uma palestra da Faculdade de Letras. O amor entre os dois inevitavelmente acontece e é então que Giaccomo prestes a morrer confessa a Marta que David é seu filho bastardo. Um romance apaixonante!

Descobri recentemente esta autora através deste livro, que devo confessar, me tocou profundamente e me tem feito ler outros títulos disponíveis.
Trata-se de um livro que, mal comecei, não consegui largar mais até o acabar. O que gostei mais? O que o tornou especial no meio dos tantos livros que leio anualmente? A profundidade dos sentimentos que aborda, a forma como estes surgem, a realidade e crueldade dos mesmos. Aquelas gémeas tocaram-me o coração, principalmente a Marta e a sua descoberta pessoal, o seu crescimento como pessoa.
Decididamente, um livro que me fica no coração e que estará dentro dos meus preferidos do ano!

Extractos do livro:
 
Estou consciente de ser uma mulher privilegiada, por viver na cidade mais bonita do mundo. Em Agosto, a minha cidade engravida de turistas, sedentos do seu encanto e magia. Os seus cento e quarenta e sete canais cobrem-se de gôndolas e os vaporetti sobem e descem o Grande Canale, repletos de turistas que se acotovelam em busca do melhor ângulo para fotografar ou filmar o Grande Canale e os palazzi que se recortam ao longo das suas margens, eternizadas por poetas e pintores. É também em Agosto que tenho vontade de, tal como as garças, partir para longe, com desprendimento e que, ao partir, me invade o temor de, no regresso, reencontrar a minha cidade mais feia, mais gasta, mais afundada na água, graças ao peso desta massa informe de pessoas que a querem tornar sua, ainda que por um ou dois dias. Porém, neste Agosto, a título perfeitamente excepcional, não parti. A morte de Giaccomo, em vez de me fazer evadir do lugar que ele me ensinou a fazer meu e a amar violentamente, apenas fortificou as minhas raízes a esta terra de fantasia.
Consumo os dias no palazzo debruçado sobre o Grande Canale, a dormitar na minha cama de dossel, a ler poesia no terraço, a regar os vasos de gerânios pendentes das varandas de ferro, a observar o voo incerto dos pombos, e só abandono a casa quando um ténue véu de penumbra envolve a cidade e os raios de sol deixam de conter o poder de me perturbar os olhos, exaustos de tanto chorar. Perdi o gosto de vaguear pelo labirinto das ruelas, de as percorrer sem o auxílio dos mapas e de descobrir os lugares encantados, os espaços secretos dos pátios e dos jardins privados, verdadeiras iluminuras medievais, que se escondem por detrás de cada arcada, de cada beco, de cada ponte. Em Veneza terei sempre a sensação de que existem potes de ouro no extremo de cada arco-íris e de que estou sempre a encontrá-los para, em seguida, os ir abandonando, ao prosseguir o meu percurso enfeitiçado.
 

Eu e Marta somos pessoas muito diferentes. A Marta adora ­rodear-se de luxo, fausto e requinte. Eu prefiro as coisas simples. Ela adora cidades. Eu sinto-me bem no campo. Ela adora orquídeas. Para mim, nada iguala a beleza e singeleza de um ramo de flores do campo. Ela ouve Bach, Callas e peças de ópera. Eu ouço canções românticas e Jacques Brel. Marta ama os quadros da Paula Rego. Eu prefiro Vieira da Silva. Visto-me de forma simples e desportiva. Ela é uma mulher sofisticada. Se tivesse mais dinheiro, decerto recor­reria aos serviços de um estilista próprio e, nas suas diversas ­viagens, adquiriria peças de roupa de estilistas japoneses. Eu sou ultra-organizada. A Marta é caótica. Não tem agenda. Escreve compromissos em papéis dispersos e perde-os a toda a hora. Eu roo as unhas, ela tem umas unhas magníficas. Apesar de sermos muito parecidas, a beleza de Marta é uma beleza tensa e incómoda. É tão bonita, que as pessoas não se sentem à vontade ao pé dela. Não a julgam humana. Exala uma aura sobrenatural, que a forma como veste e se move apenas intensificam. Os homens sempre esvoaçaram em seu redor como corvos atordoados, irremediavelmente enfeitiçados.
 

As estações do ano iam-se sucedendo, umas atrás das outras, pela ordem exacta com que as aprendera na escola — Outono, Inverno, Primavera, Verão. Da janela do meu quarto, agora maior depois da partida de Marta, eu ficava a observar as mudanças que se operavam nos velhos plátanos. Cheios de rebentos e de folhas novas de um verde­claro na Primavera, frondosos e de sombras apetecíveis no Verão, de folhas amarelecidas no Outono e nus no Inverno.
 

Nos primeiros tempos de amor platónico, pautados pela minha não entrega física a Gustavo, escrevia-lhe poemas de amor que hoje releio, entre as muitas cartas perfumadas que lhe fui dedicando ao longo do tempo, por ocasião de dias de namorados, de dias de aniversário, de anos de casados, de Natais ou de nenhum acontecimento em particular. Lê-se assim numa delas, salpicada de corações vermelhos e redondos:

«Tudo o que sou, sois vós, meu amor. Tudo o que sinto, sinto através de ti. Das tuas mãos quentes que me despertam desejos pecaminosos. Dos teus olhos negros em que me afundo sem possível salvação. Do teu corpo febril e alucinado que envolve o meu, que me protege dos ruídos do mundo. Ao pé de ti sinto que nunca mais vou ter medo da escuridão, da trovoada, da solidão ou da morte. Desenhas-me festas no cabelo, quando a chuva cai forte lá fora. Dás-me colo, quando surgem os relâmpagos. Contas-me histórias de encantar e adormeço no aconchego quente dos teus braços. Meu amor, meu amor, repito incessantemente, enquanto te procuro nos luares das noites, sem jamais te encontrar.» 

Tinha sido em Veneza que eu, com dezasseis anos, depois de o meu pai e de Júlia terem adormecido, saíra do hotel e me perdera pelas ruelas da cidade fascinante e me encontrara entre os quarteirões como uma personagem das Mil e Uma Noites. Perdia-me na rede de pequenas ruelas, de calle, e deixava-me guiar pelo som da flauta de algum Hamlin, por um riso ou pelo eco de uma ópera. As minhas secretas saídas nocturnas, durante todos os sete dias que passara em Veneza, recordavam-me um velho conto alemão que ouvira em criança, As doze princesas dançarinas, que narrava a história de doze princesas que, à noite, pé ante pé, saíam das suas camas e desciam uma escada para um espaço mágico em que dançavam até ao amanhecer, deixando como único testemunho das suas aventuras as solas dos sapatos gastas.

O interior de um palazzo! Um átrio amplo, que lembrava o claustro de um mosteiro. No centro do átrio, uma fonte barroca com anjinhos rechonchudos. Vasos de pedra, exibindo fetos e begónias luxuriantes. Uma escada de pedra carcomida, que nos conduz ao primeiro andar. As paredes de tons ocre. Uma porta antiga, que se abre para nos dar passagem, um reposteiro de pesado brocado dourado, salpicado de pássaros de asas largas. Uma criada minúscula à nossa frente, a indicar o caminho, com a mão estendida, num punho estriado de lixívia. Eu que a sigo, enfeitiçada, pelos labirintos do edifício de encantar, Marco quase ao meu lado, respirando a minha comoção interna, partilhando a minha própria expectativa. Lembrei­‑me da figura de um livro que tínhamos em crianças. A história da Branca de Neve e os Sete Anões. Os anõezinhos caminhando em fila indiana, segurando archotes nas mãos, a espreitarem a Branca de Neve, adormecida sobre as suas sete camas juntas. Por que me vem esta imagem à memória? Talvez porque também ali me sinto uma anã, uma anã perante a magnificência daquele palazzo veneziano que sempre povoara os meus sonhos, ainda que nunca por mim visitado.

Chegámos a uma sala alcatifada de vermelho-escuro, em que nada parecia pertencer ao mundo real. As grandes janelas em gótico-vene­ziano, entreabertas sobre o Grande Canale, majestosos lustres de cristal de Murano, enfeitados com flores de tons rosa, móveis de época, espelhos dourados, cristais, tapetes de tons quentes e acolhedores, telas a óleo semelhantes às que vira expostas em tantos museus de arte da cidade. Era uma sala mais fascinante, mais cosy, mais habitada do que qualquer das imponentes salas do majestoso museu Ca’ Rezzonicco, de um bom gosto, de um requinte, que me mergulharam num estado de encantamento. Estava tão absorta na contemplação da sala, que, por ­momentos, me esqueci da razão da minha presença naquele lugar.

Esta nossa casa vivia à margem do tempo e do espaço e poderia julgar-se extraída de uma paisagem impressionista do pintor francês do século xix, Eugène Boudin.

Fazendo um esforço para mergulhar nesse líquido quente e pastoso que é o nosso passado, vejo-me a mim, à Marta, à avó e à mamã a falar no quarto rosa. Vejo-nos a falar, mas não escuto as nossas vozes. Talvez porque falássemos baixinho noites inteiras. Sofremos juntas coisas muito antigas, que persistem no âmago de nós, ocupando demasiado espaço e sufocando-nos. Partilhamos o mesmo passado e caminhamos para destinos diferentes, tão diferentes, que sinto que só por acaso um dia nos encontrámos a bordo do mesmo barco. Há segredos que jamais partilharemos com quem quer que seja e que transportaremos para os nossos túmulos, segredos que morrerão connosco, porque assim terá de ser. Segredos que nunca poderei contar aos meus filhos, porque o mundo deles é, felizmente, muito diferente do mundo onde, mansamente, ecoam os meus segredos.

Gustavo não integra este mundo de mulheres (a que o meu pai é perfeitamente estranho), este mundo de que a casa de Azeitão representa o principal símbolo. O aroma adocicado da cera de abelha do soalho, cujas tábuas rangem sob os nossos passos, a colecção dos retratos dos nossos antepassados, de ar grave, os utensílios de cozinha arcaicos, a simplicidade e austeridade de todos os gestos, as orações antes das refeições…

A quinta foi, durante muito tempo, o nosso mundo, e o seu enorme portão de ferro, munido de um grande ferrolho, separava-nos do mundo lá de fora como se fôssemos habitantes de uma antiga fortaleza.

A casa que encontrei no interior do meu sonho era diferente da que dormitava na minha memória, numa espécie de estado fetal. E, no entanto, era a mesma. Eu e Gustavo a caminharmos dentro do meu sonho. Aproximámo-nos da casa, percorrendo a alameda de terra batida ladeada por dois renques de plátanos robustos. Entre nós esvoaçavam bandos de flamingos cor-de-rosa. Flamingos lindíssimos, de uma elegância suprema. Talvez ali estivessem, perdidos no sonho, porque nos tempos da minha infância muitas aves por ali se passeavam: perus, pavões, galinhas, pardais e gansos.

Enquanto caminhávamos, lentamente, pela alameda, as imagens dos flamingos esvoaçavam entre nós, em câmara lenta, silenciosos como fantasmas, e eu sentia-me como se flutuasse entre flocos de nuvens. Gustavo apertava-me a mão com força, como se também ele se sentisse a caminhar no interior de um sonho.

Foi interminável aquele percorrer da alameda, suspenso no tempo. Como se todas as recordações do passado me envolvessem, quais nuvens de algodão. O tempo permaneceu imóvel, preso aos ramos mais altos das árvores, emoldurado por um céu subitamente triste. Fantasmas de duas crianças a correrem pela alameda atrás dos pássaros, a caçar borboletas com redes improvisadas, a entoar canções de escola, a jogarem «à macaca» e «ao elástico».

Quando coloquei a chave na fechadura e a rodei com vagar, a porta de madeira gemeu, num pranto de séculos. Entrámos na casa e não havia luz, apenas a claridade que se coava pelas frinchas dilatadas das janelas e o silêncio era um objecto tão sólido, que, por momentos, pensei que não existia mais ninguém no mundo para além de nós mesmos.

Percorremos o espaço que formava o hall em passos lentos e vacilantes, entre teias de aranha e nuvens de pó. Alguns móveis cobertos por lençóis outrora alvos, lustres pendentes do tecto, imóveis, olhando-nos indiferentes. À medida que ia destapando os móveis, sequências de imagens iam tomando conta de mim e faziam-me esquecer o presente. O hall, depois a sala, a casa de banho e a cozinha.

Subimos até ao primeiro piso pela escada exterior. O quarto dos meus pais, o nosso quarto. A casa de banho. Pequena e branca. O espelho revelou-me o meu rosto, e não me reconheci. Como se a pessoa que o olhasse fosse outra que não eu. Porque o rosto que habitualmente contemplava naquele espelho era o rosto da criança que eu fora em tempos, e que se olhava despreocupadamente ao espelho antes de cada dia de escola.

Íamos abrindo as janelas e as portas, e a luz entrava, fugaz e ensonada. Cada compartimento estava atafulhado de momentos que tinham ficado aprisionados no seu interior até à eternidade. Momentos que, em conjunto, formavam o meu passado, como um puzzle constituído por pequenas peças dispersas. O meu passado ali soterrado entre as paredes daquela casa.

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