Crash

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Autor: J. G. Ballard
Edição: Jun/2016
Páginas: 240
ISBN: 97898988393816
Editora: Elsinore

 

 

 

Ao destruir o seu carro num acidente, assistindo à morte do condutor do outro veículo diante dos seus olhos, James Ballard, o narrador deste livro, descobre o fascínio pela confusão e caos do metal e de superfícies amolgadas, resultantes do impacto entre carros.
É a visão do seu amigo e visionário Robert Vaughan, homem que conduz uma espécie de irmandade de adoradores obcecados com as possibilidades eróticas dos desastres de viação, que Ballard partilha connosco: o derradeiro acidente, uma colisão frontal, um vórtice de sangue, sémen e líquido refrigerante — retrato singular da dependência crescente da tecnologia como intermediária das relações humanas, em que o erótico, o mecânico e o macabro se confundem.

Publicado originalmente em 1973, Crash continua a ser um dos romances mais chocantes do século XX, tendo sido adaptado para cinema, sob o mesmo título e com igual controvérsia, por David Cronenberg.

Deste autor no Segredo dos Livros:
Arranha-Céus

Autor:

J. G. Ballard, filho de pais ingleses, nasceu em 1930, em Xangai, na China, onde o seu pai era comerciante, e morreu em 2009. Na sequência do ataque a Pearl Harbor, ele e a família foram colocados num campo de prisioneiros civis. Regressou a Inglaterra com a mãe e os irmãos em 1946. Após dois anos em Cambridge, onde estudou Medicina sem concluir o curso, Ballard escreveu para publicidade e foi porteiro do Covent Garden, antes de partir para o Canadá como piloto da Força Aérea britânica.
Começou a escrever contos na década de 1950 e estreou-se na ficção mais longa em 1962: The Drowned World é o primeiro romance de uma das mais sólidas carreiras da ficção contemporânea. Celebrizou-se pela sua autobiografia O Império do Sol, mas é em romances como Crash e Arranha-Céus que se encontram os seus temas obsessivos: os efeitos psicológicos da cidade e da tecnologia na alienação do ser humano.
O Império do Sol, publicado pela primeira vez em 1984, ganhou o Guardian Fiction Prize e o James Tait Black Memorial Prize, tendo sido finalista do Booker Prize. Foi adaptado ao cinema por Steven Spielberg.
Também Arranha-Céus foi adaptado à sétima arte e estreará em 2016 nos cinemas, numa longa metragem assinada por Ben Wheatley e protagonizada por Tom Hiddleston e Sienna Miller.

Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2019-07-10 22:32
Depois de ter lido "Arranha-Céus" de J. G. Ballard, um romance que me deixou a pensar seriamente nos pretensos benefícios do progresso, não podia deixar de ler "Crash", o seu segundo livro a ser editado pela Elsinore, que há muito se encontrava na minha estante, mas só agora consegui ler. Encontrei o mesmo estilo negro de crítica violenta à sociedade. Note-se que foi escrito há quase 50 anos, mas estão lá os males que continuam a enfermar o mundo citadino em que vive cada vez maior percentagem de seres humanos.

"Arranha-Céus" passa-se num condomínio fechado de luxo, a última palavra em tecnologia, onde nada faltava, mas acaba por trazer à superfície os instintos mais primários do ser humano e termina num ambiente que quase podíamos classificar como o do tempo das cavernas. "Crash" aborda outro aspeto da tecnologia que era também a última palavra nos anos 50 do século passado: o automóvel, as redes de autoestradas com várias pistas, nós e viadutos, o poder que o domínio da máquina dá ao condutor e o prazer que um viciado na condução do seu carro de sonho sente ao volante, a ponto de poder ser equiparado ao orgasmo de um ato sexual consumado com a amante perfeita.
Tal prazer pode conduzi-lo a atitudes inconcebíveis para quem não as vive. Imaginemos que se ganha uma obsessão pela brutalidade dos acidentes rodoviários, que tal acaba por se tornar numa paranóia, a ponto de serem preparados minuciosamente, como quem encena uma peça de teatro, e o prazer supremo é morrer brutalmente encarcerado entre ferros, vidros e todo o tipo de destroços, mas também entre o sangue derramado e o esperma resultante do maior orgasmo da sua vida. E se conseguir levar consigo a estrela de cinema que todos desejam possuir e vê-la ser "glorificada" ao seu lado, então é a felicidade suprema.

O narrador de "Crash" é James Ballard (um alter-ego do autor, ou mais do que isso?) que se tornou um seguidor de Robert Vaugham, depois de sofrer um brutal acidente numa das autoestradas de acesso ao aeroporto, vendo morrer perante si o condutor do outro carro. Vaugham era o paranóico que se colocava nos locais onde mais acidentes ocorriam (por vezes, provocados por ele), recolhia informações sobre as suas consequências e possuía um registo, que envolvia testemunhos dos sobreviventes, assim como dos bombeiros e autoridades. Foi assim que Ballard foi visitado no hospital por Vaugham, começando ali o seu interesse pelos acidentes. Ballard tornou-se no seu companheiro inseparável, ao ponto de colaborar na preparação e consumação do acidente supremo que vitimou Vaugham. Não pensem que revelei o final, porque o romance começa assim: "O Vaugham morreu ontem no seu derradeiro acidente automóvel" e toda a história é um encaminhamento para esse desenlace. E Ballard? Na verdade, ele é que é a personagem principal e as sequelas que lhe ficaram da sua participação na "irmandade" suicida de Vaugham são o segredo que deixo aos próximos leitores deste sensacional romance.

É incómodo, repugnante mesmo, mas não era essa a intenção do autor ao escrevê-lo?! Agitar consciências, alertar para os perigos do progresso, se não forem acautelados atempadamente?
Termino com uma citação da introdução, escrita por J. G. Ballard em 1995: "Crash, como é óbvio, não aborda uma calamidade imaginária, ainda que iminente, mas um cataclismo pandémico que todos os anos mata centenas de milhares de pessoas e deixa milhões delas feridas. Será que vemos, no acidente automóvel, um presságio sinistro da tenebrosa simbiose entre o sexo e a tecnologia? Irá a tecnologia moderna proporcionar-no s um método, até então inimaginável, de exploração das nossas próprias psicopatologias ?"
 

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