Em Nome do Pai

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Autor: Nuno Lobo Antunes
Edição: Mai/2013
Páginas: 240
ISBN: 9789892321882
Editora: Lua de Papel

 

 


Do alto de um outeiro, à sombra da figueira em que Judas se enforcou, São José contempla toda uma vida - a sua, que hoje chega ao fim. É ali que ele irá morrer, naquele pedaço de chão árido, de onde se avista Jerusalém. Faltam-lhe as forças, pesam-lhe os anos, os remorsos, a dúvida. E a raiva também, pois, apesar de ter cumprido os preceitos da Lei, foi-lhe negada a paz de espírito. Assim entendeu o Criador, que tomou como Sua a mulher que lhe estava prometida, e nela plantou a semente de um filho bastardo - Jesus.

José não compreende esse Deus, que põe e dispõe dos homens, esse Criador que não respeita a obra criada, que nega o livre arbítrio, que envia o filho à terra e o deixa morrer na cruz, como um ladrão. Por isso hoje, entre o nascer e o pôr do sol, o carpinteiro vai armar-se de razões e julgar quem de tudo deveria ser juiz.
Em Nome do Pai é uma extraordinária obra de ficção, que ilumina uma das personagens menos conhecidas da Bíblia. O pai de Jesus, que nas sagradas escrituras pouco passa de uma nota de rodapé, tem agora uma história, um passado. E um corpo de chocante carnalidade, atormentado pelo desejo, por uma mente demasiado lúcida para aceitar como boas as palavras do Senhor.
Nuno Lobo Antunes molda o romance com o desvelo de um artesão, esculpe cuidadosamente cada frase, reconstitui com rigor a vida nos tempos de Jesus - cria, ele próprio, uma obra de arte. Com a liberdade só permitida aos artífices, faz suas as palavras do carpinteiro, e através delas dá voz a todos os homens que põem em causa os insondáveis desígnios divinos.

Autor:

Nuno Lobo Antunes, nascido em Lisboa, formou-se na Faculdade de Medicina de Lisboa. Iniciou a carreira como pediatra no Hospital de Santa Maria, cuja Unidade de Neuropediatria viria a coordenar. Trabalhou cerca de dez anos em hospitais de Nova Iorque (como o Presbyterian Hospital) e foi professor auxiliar de Neurologia e Pediatria na Universidade de Cornell. Director Clínico do CADIn ao longo de vários anos, fundou em 2012 o PIN – Progresso infantil, um Centro para as Perturbações do Desenvolvimento, de que hoje é director.
Em Nome do Pai, a fulgurante estreia de Nuno Lobo Antunes na ficção, surgiu após três trabalhos de não-ficção publicados pelo autor: Sinto Muito (2008, publicado também no Brasil e em Espanha), Mal Entendidos (2009) e Vida em Mim (2011), todos bestsellers (já venderam no total perto de 80 mil exemplares).

Comentários  

 
#3 Sebastião Barata 2013-06-23 23:36
Este é, talvez, o livro de que mais gostei nos últimos tempos. Gostei da história, do estilo do autor, do ritmo da narrativa, da intensidade dramática da personagem quase única, José, o carpinteiro, o narrador que conta o drama da sua vida agora prestes a extinguir-se, no momento em que já não há retorno possível.

Jesus, o filho de dois pais, a criança que ele optou por aceitar e criar como se sua fosse, por amor à mãe, o fruto de qualquer coisa que José nunca foi capaz de entender e aceitar, acaba de morrer pregado numa cruz, como o mais vil dos criminosos. Mas naquela tarde de ruína e fim de um sonho, José tem de explodir em palavras o que calou uma vida inteira. Em poucas horas, deita cá para fora mágoas, ciúmes, sonhos desfeitos, amores traídos, revolta contra uma situação de que foi vítima inocente. Naquele momento final, hesita entre sentimentos degradantes e sentimentos sublimes. Não sabe se há-de regozijar-se com a educação que deu àquele Menino, com as convicções que incutiu nele e o viu propalar aos quatro ventos. Não sabe se há-de sentir admiração por aquele jovem de caráter firme que as multidões seguiram mas depois traíram, ou se há-de abominar a hora em que poupou a sua Mãe de ser apedrejada com Ele no ventre, como ditava a Lei de Moisés. Uma história fantástica para crentes e não crentes.

Muito teria que dizer sobre o estilo que o autor imprimiu neste livro. Mas tudo se resume numa frase feita: "linguagem poética". Na verdade, todo o livro, do princípio ao fim, é uma construção poética em prosa. O autor escreve num estilo quase sublime, muito apropriado para exprimir grandes ideias, extravasar sentimentos exaltados. Escreve numa linguagem bastante musical, com um ritmo e uma cadência tal que, sendo o livro um monólogo do início ao fim, tal não se nota e o leitor devora páginas e páginas sem se aperceber.
Usa e abusa das mais variadas figuras de estilo, nomeadamente figuras de sintaxe, jogando com as palavras, de modo a conferir à narrativa uma forte intensidade dramática. Referiria só, a título de exemplo, o abuso do hipérbato que, para quem não sabe, informo ser a inversão da ordem direta das palavras. De facto, esta figura típica da poesia é a mais usada pelo autor, de tal modo que quase não temos uma página sem um ou dois hipérbatos. Um exemplo ao acaso: "Os homens desfrutam das coisas que a existência lhes oferece e, ao seduzir uma mulher, o caçador ama a sua presa, mas fica prisioneiro, se não é escassa a arte dela." (Pág.94) A ordem normal seria "se a arte dela não é escassa", mas a frase perdia musicalidade. Esta frase, selecionada ao acaso, dava pano para mangas para falar de estilo, porque muito mais teria para dissecar...

O autor revela um grande trabalho de investigação, usa ideias retiradas dos evangelhos ortodoxos, mas também dos textos considerados heréticos pela Igreja. Põe também na boca de José muitas ideias que bailam na cabeça de todos os que ousam meditar na figura de Jesus Cristo, mas não têm a coragem de as pôr frontal e desapaixonadame nte, sem facciosismos ou cedências a interesses instalados.

Uma obra que recomendo sem reservas a cultos ou incultos, crentes ou não crentes.
 
 
#2 Helena 2013-06-07 13:33
Hesitei em ler este livro, mas ainda bem que ultrapassei o impasse, depois de ouvir uma opinião e o autor numa entrevista.

Leitura pausada e absorvente do relato de um homem, de seu nome José, artesão, que deixa assim o seu testemunho do seu sentir e pensar, em palavras soltas e livres. Lúcido, maduro e passional, censura regras e punições, enquanto louva a obra de Deus em todo o seu esplendor e descreve o seu sofrimento, no profundo amor que dedica a Maria.

Um romance que gostaria de revisitar daqui a uns tempos, para lhe dedicar a atenção devida, uma vez que me encontro demasiado cansada para lhe dar o justo valor. De qualquer modo, é uma leitura que recomendo sem reservas, pelo belo e sentido uso das palavras.
 
 
#1 Sónia 2013-05-17 23:21
Quando escolhi ler este livro, vários factores estiveram subjacentes... O reconhecido sucesso dos anteriores livros do autor (embora não sejam romances), o nunca ter lido nada dele e a sinopse. Mais que a sinopse, talvez o conceito "inovador" que está por detrás. Refiro-me ao ter pegado na história de José, pai de Jesus, desde o nascimento do primeiro até à morte do segundo, e ter escrito um romance. E, francamente, nunca supus que fosse tão bom...

De uma forma soberba e irrepreensível, Nuno Lobo Antunes escreve uma obra que, apesar de não se ler de um só fôlego, tem uma escrita absolutamente genial/sedutora /... Rica em metáforas que, várias vezes, me fizeram reler passagens que me marcaram profundamente, não tanto pelo conteúdo em si, mas pela forma como são apresentadas. Se não soubesse, nunca diria que era um primeiro romance...

Julgo que é uma obra que pode originar opiniões antagónicas, tendo em conta o seu estilo. Mais que isso, até o próprio conteúdo. A quem pouco ou nada a religião diz, aconselho a ler o livro de forma isenta, desempoeirada, esquecendo o cerne do mesmo. Para aqueles que se interessam por estes temas, julgo que o "saldo" final será de um superar de expectativas, como foi o meu caso. Em ambos os casos, penso que será denominador comum o reconhecimento da mestria como Nuno Lobo Antunes tece a trama. Mesmo sendo apreciadora do equilíbrio entre discursos directo e indirecto numa narrativa, achei que a predominância do segundo, na sua quase totalidade, é uma mais valia. Diria até que, em caso contrário, o livro não teria o mesmo valor.

Único ponto negativo: o recurso excessivo à expressão "De pronto". Fora isso, gostei imenso e recomendo em absoluto. A crentes e não crentes...
 

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