Hoje Estarás Comigo no Paraíso

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Autor: Bruno Vieira Amaral
Género: Romance
Edição: Abr/2017
Páginas: 368
ISBN: 9789897223587
Editora: Quetzal

 

 


Em Hoje Estarás Comigo no Paraíso, Bruno Vieira Amaral, desenha uma investigação do assassínio do primo João Jorge - morto no bairro em que ambos viviam no início dos anos 80 - e usa essa investigação como estratégia de recuperação e construção da sua própria memória: a infância, a família, o bairro e as suas personagens, Angola antes da Independência e nos anos que se lhe seguiram, e a figura (ausente) do pai.

Na reconstituição da personalidade e do percurso da vítima, da noite em que tudo aconteceu, na apropriação que o narrador faz de uma ligação com João Jorge (mais ou menos forjada pelos mecanismo da memória) - e de que faz parte essa busca mais ampla das dobras do tempo e do esquecimento - são utilizados os mais diversos materiais: arquivos da imprensa da época, arquivos judiciais, testemunhos de amigos e familiares, e a literatura, propriamente dita - como uma possibilidade de verdade, sempre.

Primeiras páginas disponíveis aqui.

Deste autor no Segredo dos Livros:
As Primeiras Coisas

Autor:

Bruno Vieira Amaral nasceu em 1978. Formado em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE, é crítico literário, tradutor, e autor do Guia Para 50 Personagens da Ficção Portuguesa e do blogue Circo da Lama. Em 2002, uma temerária incursão pela poesia valeu-lhe ser selecionado para a Mostra Nacional de Jovens Criadores. Colaborou no DN Jovem, revista Atlântico e jornal i. Atualmente colabora com a revista Ler.
As Primeiras Coisas é o seu primeiro romance. Foi considerado livro do ano em 2013 para a Revista Time Out (ano em que o autor recebeu o Prémio Novos por se destacar na literatura). Mais recentemente, As Primeiras Coisas, foi distinguido com o Prémio PEN CLUBE Narrativa, Prémio Literário Fernando Namora e Prémio Literário José Saramago 2015.

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Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2017-07-18 09:30
O título "hoje estarás comigo no paraíso", que reproduz as palavras de Jesus Cristo dirigidas no alto da cruz ao ladrão que, juntamente com Ele, tinha sido crucificado, remete-nos para o caso de alguém que está prestes a morrer acusado como ladrão e é reabilitado por outro alguém que está ao seu lado a sofrer com ele.

Na verdade, é exatamente esta a história que Bruno Vieira Amaral desenvolve neste livro. Lembra-se de ser criança e ouvir a família e os vizinhos contarem o caso de um primo, filho do irmão mais velho do seu avô, que teria sido morto quando tentava roubar porcos, pelo próprio dono dos animais que já o esperava. Melhor dizendo, ele e os outros donos das hortas que lhes tinham sido cedidas pela Câmara Municipal estavam fartos de lhes roubarem os animais durante a noite e resolveram montar guarda, com o intuito de caçar os ladrões em flagrante. O autor não tinha qualquer recordação de infância desse primo e já tinha esquecido o caso, quando a leitura da "Crónica de Uma Morte Anunciada" de Gabriel García Márquez lho fez lembrar, por achar que a morte de Santiago Nasar era semelhante à daquele primo cuja morte assombrou a sua família e foi assunto tabu durante a sua infância e juventude. Reavivar a história desse primo, de seu nome João Jorge Rego, tornou-se então uma obsessão para o autor. Preencher a lacuna existente na sua própria vida, ao não conhecer um facto que foi marcante na sua família, terá sido o móbil desta investigação. Desejaria, consciente ou inconscientemen te, reabilitar a imagem do primo, tal como Cristo na cruz perdoou a culpa do bom ladrão?

Este livro segue o estilo do livro anterior de Bruno Vieira Amaral, num encadeado de factos, onde a realidade se confunde com a ficção, as recordações de infância de misturam com outras imagens criadas pela imaginação do autor, no sentido de enquadrar situações, justificar atos das personagens, realçar comportamentos e perfis psicológicos de seres humanos de idoneidade mais ou menos duvidosa, em função do ângulo de visão e da perspetiva de quem testemunha.

A forma como a trama romanesca está construída é, mais uma vez, de grande qualidade. O leitor começa por nada saber acerca de João Jorge, tal como o autor. À medida que a investigação vai prosseguindo, vão-nos sendo fornecidas pistas com as quais vamos construindo a personagem. Pouco a pouco, vamos conhecendo episódios da sua vida ainda em Angola, antes da fuga dos chamados "retornados", a maioria dos quais deveriam ser considerados refugiados, porque fugiam de uma guerra cruel e de uma morte certa. Este facto marcou as suas vidas para sempre e cada um reagiu à sua maneira. A maneira como o autor narra acontecimentos desse tempo vai ajudar-nos a compreender quem era João Jorge e como tal período da História o marcou. Diria, como tal período prenunciou a sua futura morte.
Vemos depois João Jorge a viver na margem sul do Tejo num bairro pobre, quase todos os habitantes imigrantes das ex-colónias. Assistimos às disputas entre grupos étnicos, a vida marginal de muitos desses habitantes, fruto da pobreza e dos traumas que trouxeram das suas vidas anteriores nos seus países de origem.
A obsessão do autor por descobrir como ocorrerem os factos que levaram à morte do seu primo, leva-o a entrevistar pessoas, a consultar notícias da época e documentos judiciais, a mostrar contradições entre os diversos dados que foi recolhendo e a lançar a dúvida sobre a versão oficial dos factos e as decisões judiciais.

A este propósito, achei maravilhosa a forma como o autor analisa na página 319 o que é a justiça e como esta pode ser, e é certamente, influenciada por muitos fatores externos ao processo. Fica claro que não insinua a falta de isenção dos juízes (neste ou qualquer outro caso), mas é inegável que estes são seres humanos com um passado, com traumas e vivências que vão, de modo subconsciente, pesar nas suas decisões e torná-los mais sensíveis a relevar as posições da acusação ou da defesa. Não vou transcrever a lista de argumentos invocados, todos eles pertinentes e plenos de ironia, mas "estes pequenos sedimentos depositados no fundo de si ou mais perto da superfície, escondem-se sob essa toga de imparcialidade, de observação desapaixonada" (citei).

Será que o autor chegará a uma conclusão segura sobre o que aconteceu naquela fatídica noite? Conseguirá reabilitar a imagem de João Jorge? Se não, conseguirá, pelo menos, justificar a marginalidade deste jovem (e através dele a imagem das muitas vítimas da descolonização e das guerras da independência angolana)? Não vou tirar conclusões, nem sequer apresentar a minha, porque cada leitor vai ter uma opinião sobre a verdade da morte de João Jorge.

Um livro que vale mesmo a pena ler, como testemunho de uma época contada por alguém que, para além de ser um grande contador de histórias, conhece muito bem o tema de que nos fala, por vivência própria ou muito próxima daqueles que a viveram. Não me sinto abalizado para tecer comparações entre Bruno Vieira Amaral e Gabriel García Márquez, mas é uma verdade que ambos revelam nas suas obras atrás referidas, uma capacidade para reconstruir um universo possuído pela nostalgia, pela magia e pelo encantamento da infância e uma genial mestria para contar histórias.
 

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