Na Memória dos Rouxinóis

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Autora: Filipa Martins
Género: Romance
Edição: Fev/2018
Páginas: 216
ISBN: 9789897224355
Editora: Quetzal

 

 


Um romance extraordinário, feminino (embora sobre homens), em torno de um matemático que encomendou a sua biografia antes de morrer.
Jorge Rousinol é um matemático galego, que sempre defendeu o esquecimento como o melhor veículo para a tomada de decisões acertadas. No final da vida encomenda uma biografia sua a uma casa editora. Estranha decisão para quem nunca quis recordar. O biógrafo escolhido acaba por ser alguém com quem privara décadas antes e que se vê, ele próprio, enleado em memórias moribundas.

É um romance em três tempos (o do passado do biografado, o do passado do biógrafo - e o do presente, que os une), que vê no arrependimento outra forma de se lidar com as recordações. Biógrafo e biografado conseguirão, em parte, o que pretendem: não se trata de esquecer, mas sim de escrever uma confissão. Uma escrita fantástica, inesperada, inovadora - de uma leveza surpreendente. Diálogos muito bem escritos, sensuais. Incursões pela magia dos números primos. Desenlace inesperado.

Autora:

Filipa Martins nasceu em Lisboa, em 1983. É jornalista desde 2004, tendo colaborado em publicações como o Diário de Notícias, Notícias Magazine, Evasões e Jornal i. Recebeu o Prémio Revelação em 2004, na categoria de ficção, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores (APE), com Elogio do Passeio Público, o seu primeiro romance publicado em 2008. Recebeu ainda o prémio Jovens Criadores do Clube Português de Artes e Ideias, com o conto Esteira. O seu segundo romance, Quanta Terra, foi publicado em 2009.

Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2018-04-08 22:26
Há alguns dias, alguém se insurgia, numa resposta a um comentário no Facebook, contra a moda dos bestsellers, dos thrillers, dos nórdicos, dos livros cor-de-rosa, dessa "literatura" que vende milhões de exemplares, mas que, insinuava, não vale nada. Por isso, ia deixar de frequentar os lugares nas redes sociais por onde circulam os amantes de tal tipo de livros. Claro que está no seu direito de se expressar, mas foi imediatamente criticada pelos fãs dessa literatura ligeira, deliberadamente destinada ao entretenimento, a ajudar os leitores a esquecer as agruras da vida moderna, a "ler e deitar fora" (embora nem sempre, diga-se).

Livros como aquele que tenho em mãos para comentar não vão, claramente, despertar o interesse desse tipo de leitores, porque é um livro que apela à leitura lenta, a saborear cada frase, a deliciar-se com as figuras de estilo usadas pela autora. Para mim, foi uma leitura saborosa ou sensaborona? Antes de mais, fique claro que sou um leitor muito eclético que gosta de quase todo o tipo de livros, desde que bem escritos, editorialmente bem apresentados e respeitadores das regras linguísticas. Aborrece-me solenemente estar a ler livros que não foram revistos, que evidenciam não ter tido apoio editorial, que apresentam histórias incongruentes, sem fio condutor e com pontas soltas, sem um final que deixe o leitor extasiado. Voltando ao tema, foi saborosa por ser um livro de qualidade (a qualidade que é habitual na Quetzal), mas um pouco aborrecida, porque a vida moderna não nos dá tempo suficiente para ler estas obras com a atenção que merecem e custa um pouco ter de refrear a ânsia de fazer uma leitura corrida, e ter de voltar a reler uma frase, por vezes um parágrafo, ou até um capítulo inteiro. Voltando ao início, é isto que afasta muitos leitores e, em contrapartida, faz da literatura ligeira uma fábrica de bestsellers.

Descendo a pormenores.
Fez-me um pouco de confusão e foi motivo de muitas paragens e retrocessos o nome "Rousinol": o Rousinol avô, o Rousinol pai, o Rousinol neto, o Rousinol tio, o Rousinol sobrinho... Tudo se compreende com tempo, com anotações, com muita atenção. Mas a maioria dos leitores de hoje não dispõe (ou não quer dispor) desse tempo, dessa atenção, de notas e sublinhados.
No meio de uma escrita elevada, a autora utilizou com frequência terminologia que poderíamos apelidar de calão, de popularucho, por vezes a raiar o sórdido. Achei bem, porque eram termos postos na boca de personagens ou destinadas a retratar situações ou personalidades, o que deu à trama o realismo adequado à história e à vivência das suas personagens. Sendo os candidatos a leitores deste livro pessoas de cultura e posição social elevada, eventualmente com mais idade, será que vão todos compreender e aceitar tal terminologia? Esperemos que sim...

Mas gostei muito da escrita da autora.
O facto de chamar as coisas pelos nomes é, já de si, esclarecedor da intenção da autora de nos contar uma história recheada de personagens e situações ridículas, de construir retratos de uma sociedade de falsidade e artificialismo, como é a nossa, especialmente durante a Segunda Guerra e as décadas que se lhe seguiram até à atualidade. Mas a ironia posta ao serviço da linguagem foi o que mais me cativou. E não só. São fantásticas as figuras de estilo que pupulam em contínuo ao longo do livro, como eufemismos, metáforas, hipérboles, etc.. Termino, citando ao acaso algumas frases que são espelho do que acabo de salientar:
"Tinha uma linguagem corporal abrasiva de pastor ortodoxo numa figura desleixada." (Pág. 56)
"Sou campeão olímpico das frases geniais, a velocidade com que deixam de ser geniais e passam a boa merda meteriam inveja ao homem-bala." (Pág. 70)
"O pé direito de Camilo resvalou e ele adotou uma configuração de garça para recuperar o equilíbrio..." (Pág. 82
"Quando nasceu, os olhos de Rousinol eram navegáveis. Se nos lançássemos em caravelas, descobriríamos o umbigo do Universo por detrás daquele mar chão..." (Pág. 97)
"O gesto de Camilo foi tão repentino e assustador que teve o mesmo efeito que as fotografias dos beliches de corpos nas valas nazis." (Pág. 139)
"Aquele lugar soturno tinha a resignação do purgatório. Os homens encostavam a alma às garrafas, falavam com as mãos pousadas nos gargalos, com gestos assustados de náufrago, e no chão vindimavam beatas."
Momentos sublimes de escrita; espantalhos para os leitores de bestsellers!
 

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